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Café é Vício ou Alimento?

Abaixo reproduzimos o estudo com o título “Café – vício ou alimento?” já publicado anteriormente em 11|06|77 no caderno “Agropecuário do Estado de Minas”, tendo a seguinte introdução: Todos tomam o cafezinho, mas poucos conhecem as qualidades alimentícias do café.

Ele contém cafeína, alcaloides, hidrato de carbono, proteínas, gorduras, sais orgânicos, água e aromáticos. Pequena tem sido a divulgação sobre o valor do café como alimento. Muitos afirmam que o valor nutritivo do café reside apenas no açúcar com que adoçamos.

Pouco se tem escrito sobre o assunto. Renato Costa Lima, ex-presidente do IBC, líder empresarial em São Paulo, ligado a agro- indústria, quando recebia o título de “Homem Visão | 75”, entre outras coisas sobre o café, disse:

“Ao tratarmos de energia e alimento, não poderíamos deixar de falar sobre o café, produto que faz parte da boa dieta alimentar. Acelerando a associação de ideias, acentuando a percepção das sensações e alimentado a capacidade e o rendimento do trabalho, tanto do intelectual como do operário braçal, contribui o café para o incremento da produtividade humana. Clareia e acelera o pensamento, reduz a fadiga física e mental; estimula sem deprimir. Devido a todas essas qualidades, a F.A.O. já se manifestou, destacado favoravelmente o café entre muitas outras bebidas naturais”. Pág. 24 da Visão do 22-12-75.

Em “O Café no Brasil”, vol.2, pág. 591 a 601, com os subtítulos “Componentes do Grão do Café”, entre outras informações sobre o valor alimentar, encontramos;

CAFEÍNA

– É o princípio ativo do café; são cristais longos, finos, incolores, sem odor e de sabor amargo. O grão do café cru contém, em média, cerca de 1% de cafeína, sendo seus limites extremos de 0,60 a 2,25%. A cafeína não é encontrada apenas nas sementes, mas nas folhas, hastes, flores, e polpa do cafeeiro.

É múltipla a ação benéfica da cafeína sobre o organismo humano. Em doses moderadas, atua favoravelmente tanto na esfera psíquica como na motora. Pelo estímulo que provoca no cérebro, amplia sensivelmente o rendimento mental, tornando mais claras as ideias, mais perfeitas o discernimento, mais objetivo as abstrações, mais nítidas as associações de ideias e mais rápidos os cálculos matemáticos.

Aumenta a capacidade da contração muscular. O músculo reage à sua ação, produzindo um rendimento mais amplo e mais prolongado, bem como, desenvolvimento uma maior força absoluta. A essa propriedade da cafeína é que se deve seu efeito tão favorável, tanto contra a fadiga mental, como contra a física. No seu efeito tônico sobre o coração é onde reside a sua maior aplicação em medicina. Reforça o miocárdio (músculo do coração), dilata os vasos (coronários) do coração, eleva ligeiramente a pressão arterial, e diminui o número de pulsações cardíacas. Torna mais rápida a respiração, aumentando concomitantemente a ventilação pulmonar. É ligeiramente diurético por provocar a dilatação dos vasos do rim.

ALCOLÓIDE 

Até poucos anos atrás, toda a ação benéfica do café era atribuída à cafeína, não passando, então a infusão de uma bebida composta de substância aromática inócuas com um único princípio realmente ativo, a trimetilxantina. Mas, em recentes progressos da ciência vieram demonstrar que ao lado do derivado da purina, a infusão do café continha, ainda, outras substâncias fisiologicamente ativas, e que propiciavam reais benefícios ao organismo. Existindo, mesmo, certos princípios cujas qualidades fisio – farmacológicas, se aproximavam às da cafeína. Entre essas se encontram dois alcaloides, a trigonelina e a colina.

a) trigonelina – foi encontrada no infuso do café numa quantidade idêntica à da cafeína, ou seja, 1%. Sob o ponto de vista químico esse alcaloide corresponde à metilbetaina do ácido nicotínico, sendo portanto a matriz para a formação dessa vitamina, do complexo B, curativa da pelagra que é uma moléstia de grande polimorfismo, pois apresentam perturbações nervosas, cutâneas, gastrointestinais e hepáticas. Esse corpo (trigonelina) é também encontrado nos fígados dos animais, e que tem o poder de transforma-lo em acido nicotínico e vice-versa, pela metalização ou desmitilização.

Assim, o fígado, esse obreiro dos sete instrumentos de nosso organismo, encontra no infuso do café uma das fontes para atender as exigências orgânicas de uma das vitaminas do complexo B, de tão marcante ação sobre o mais nobre dos sistemas – o sistema nervoso.

b) Colina – esse outro alcaloide do café é largamente empregado na Medicina, por apresentar marcada ação medicamentosa. Excita o parassimpático. E vaso dilatador. Poderoso hipotensor, isto é, faz abaixar a pressão arterial. Provoca também, um aumento das contrações intestinais. Porém, é sobre o fígado que exerce a sua ação mais benéfica, evitando, pela sua presença, a degeneração cirrótica desse órgão. Por essa ação específica é hoje considerada uma vitamina por alguns autores, e colocada na constelação do complexo B.

Por outros, é classificada como vitamina J –anticirrótica. Além de sua ação medicamentosa, e ainda um dos responsáveis pelo sabor específico do infuso do café.

TÁNICOS 

No café torrado, com teor mínimo de 3,3% e máximo 4,8%. É considerado um dos responsáveis pelo sabor adstringente do café, principalmente nos cafés verdes e verdoengos.

HIDRAROS DE CARBONO

a) Açúcares – O principal açúcar é a sucrose; ha outros também. No ato da torração são quase totalmente destruídos pela caramelização, formando derivados furfurílicos. Sendo encontrado no café cru com uma percentagem máxima de 7,8% e mínima de 5,4%, passa após a torração, para um máximo de 1,1% e um mínimo de 0,0%. A caramelização é uma das responsáveis pelo aroma e pela cor chocolate escuro do café.

b) Celulose e Hemicelulose – Estes constituintes do esqueleto dos órgãos apresentam no café torrado um teor máximo de 51,0% para um mínimo de 26,3%. No decurso da torração são carbonizado e decomposto pela ação do calor, transformando-se, por hidrólise, em vários açúcares. A esses derivados da hemicelulose do café pode ser atribuído o CORPO da bebida, isto é, o encorpamento da infusão, bem como sua viscosidade. A decomposição da celulose no torrador começa a 210º C, operando-se, então uma verdadeira destilação com fenômenos os mais complexos.

c) Amidos – Componentes hidrocarbonato, encontrado no café cru, em quantidade insignificante, ou seja 0,86%, não apresenta maior interesse.

PROTEÍNA

– Legumim é a principal proteína do café. No decurso da torrefação as proteínas sofrem profundas transformações.

GORDURAS

a) Graxas – Existem em elevada quantidade, pois o seu teor no café torrado varia de 10,5% a 16,5% e são encontradas no infuso numa proporção de 10%, segundo pesquisa.

b) Óleos – São encontrados no café torrado na proporção média de 13,75%. O ácido linoleico, o ácido palmítico, o ácido oleico são os seus elementos mais comuns.

SAIS ORGÂNICOS 

No café são encontrados de 3,2% a 5,5% de cinzas que apresentam a seguinte composição: potassa 42 a 45%; ácido carbônico – 14,0 a 18,5%; óxido de ferro – 10 a 13,6%; magnésio – 5,8 a 9,1%; cálcio – 3,5 a 6,7%; sílica – 0,0 a 2,95%; sódio – até 1,2%; cloro – até 0,02%.

ÁGUA 

O grão do café cru contém desde 6 a 16%, reduzindo após a torração para cerca de 4%.

AROMÁTICO 

Cafeona, cafeol, óleo essencial, ácido cefálico e cefamina formam um grupo impreciso e muito controvertido.

TRAVO 

O travo específico da bebida é propiciados por um grupo de ácidos orgânicos que se formam no decurso da torração pela decomposição dos carboidratos, gorduras e proteínas.

Assim, reproduzimos da revista “Visão” de 22. 12.75. e do livro “O café no Brasil”, vol. II de Rogério Camargo e outros, as afirmações precisas de que o café é um alimento, contendo açúcares, sais orgânicos, vitaminas, gorduras, etc. Além disso temos que admitir o grande valor do café como veículos para uma melhor alimentação e ingestão de outros alimentos, como acompanhamento do leite, pão, açúcar. Estes alimentos de valores energéticos e proteicos são melhores consumidos através do café. (Agropecuário de 11.06.77)

Complementando o estudo acima, transcrevemos da “Revista do Comércio do Café” de dezembro/79, pág. 14 e 15, parte do interessante artigo do jornalista Theophilo de Andrade (notável especialista em assuntos de café, que por varias décadas ornamentou nossa imprensa com temas econômicos), com o título: “O Café como preventivo do câncer e da velhice precoce”, como segue. “Quero abordar hoje, um aspecto do café, que é assunto vastíssimo, possível de ser estudado, de vários ângulos”.

O hoje versado é científico, tratando embora não como ciência, mas como reportagem. Trata-se, porém, de algo novo sobre a bebida. Na verdade, cientistas acabam de revelar sua virtude como preventivo do câncer e da velhice precoce.

Desde que conquistar a mesa do homem ocidental, tem sido discutidos pelos médicos, uns a louvar-lhe as qualidades e outros a denunciar-lhe os inconvenientes. É conhecida a definição de Tayllerand; Noir comme le diable, cheude comme l’enfer, pur comme um age, e doux comme l’amour (preto como o diabo, quente como o inferno, puro como o anjo e doce como o amor). Todos eles pisam nas pegadas de Phillippe Dufour, autor do livro raro, incunábulo cafeeiro. Ensina-nos combater o café, a embriaguez e as náuseas, agir como normalizador das desordens catameniais, remover as areias, aliviar a gota, curar o escorbuto, fortificar as vias respiratórias, melhorar a voz, e por fim, cortar a febre e a enxaqueca.

O café tem sido estudado como produto medicinal, e como alimento. Agora, porém, a investigação está a partir para outro campo, qual o da análise química do café, a fim de verificar os produtos que contém e que podem ter efeitos benéficos ou nocivos sobre o organismo humano. Acabo de ler, na revista alemã – Goldene Gesunsheit – de maio passado, surpreendente artigo de Herbert Groene, no qual se anuncia a descoberta no café, de um ácido que é considerado grande remédio contra o câncer e contra a velhice precoce.

Trata-se de uma descoberta revolucionária, pois vem demonstrar ser o café um preventivo da maior importância, para a saúde do homem moderno, pois acode exatamente em seus pontos fracos, ou tornados fracos em virtude da civilização. Aqui, vou dar a palavra ao autor do artigo, traduzindo seus trechos principais, conservando desta arte, o sabor do original: – A origem da ação espantosa do café é o ácido de clorogêneo, diz Herbert Groene, no artigo citado.

Nenhum outro alimento ou bebida é tão rico deste ácido, pois nele se contém na quantidade de 0,1 até 0,4 de grama, por xícara. O ácido de clorogêneo, continua ele, pertence à família daqueles que, semelhante à vitamina E, são chamados de antioxidantes e podem reduzir, no organismo, a atuação venenosa dos produtos que provocam o câncer. Pesquisadores conseguiram provar que tais produtos reduzem a ação química do veneno do câncer, em determinadas matérias albuminosas da massa genética das células.

Aliás, prossegue o autor, seria inteiramente errado declarar o velho café como planta maravilha, por causa dessas virtudes, agora descobertas, pois a pesquisa sobre os nossos alimentos e bebidas encontra-se ainda no começo. Com segurança, porém, constata-se da descoberta do ácido clorogêneo no café – que agora está sendo devidamente pesquisada – o seguinte: não basta julgar os alimentos pelas suas calorias, teor de albuminas, vitaminas e sais minerais. Recentemente, por exemplo, foi descoberto na cerveja, a Nitrosemina, o temeroso veneno do câncer, que é encontrado em grande quantidade, na salsicha, no presunto e no toucinho e também nos legumes e até no ar.

Desde muitos anos, existiu para os pesquisadores do câncer, em todo o mundo, o seguinte enigma: por que não surge uma terrível epidemia do câncer, quando há muito material que o provoca? Para isso há, desde muito, uma só explicação: a natureza cria também materiais que neutralizam os venenos do câncer. Que tal produto esteja contido no café é coisa que parece especialmente agradável.

Na verdade, continua o autor, cada dia são descobertos, em novas plantas, produtos protetores contra o câncer, contra a velhice precoce e contra as infecções. Estão nesta linha as plantas aromáticas, cujo forte perfume indica o conteúdo de complicada matéria química… Pela longa transcrição, terão visto os leitores que o estudo da química do café está se encaminhando através de rotas que são gratificantes.

É este não somente um produto nobre e alimento incomparável, a ornamentar a mesa do homem ocidental, desde o século XV, mas também um precioso escudo, a ele oferecido pela natureza, para combater uma séria de males, uns já conhecidos desde muito, e outros frutos da própria civilização, como são exatamente o câncer e velhice precoce. (Revista do Comércio do Café, 12/79).

Assim, os estudos referentes ao valor nutritivo do café, que transcrevemos das três fontes citadas (“Visão”, 8/75; “O Café no Brasil”, vol. II; e Revista do Comércio do Café, 12/79) esclarecem, informam e atestam, que além de uma bebida gostosa, é também útil à nossa saúde, benéfica ao nosso organismo, com propriedades alimentícias e medicinais, importantes e sutis, incluídas no grupo das substâncias biologicamente ativas, ou seja, das vitaminas e sais orgânicos.

O Brasil, maior produtor, consumidor e exportador do café, precisa melhor conhecer e divulgar o seu valor nutritivo e medicinal, como base de uma propaganda honesta e sensata, visando o aumento de seu consumo mundial, evitando a sua substituição acelerada pelos refrigerantes, que são nocivos à saúde e mais raros.

Outrora, e por longos anos, foi o café o maior gerador de divisas em nossa pauta de exportação. Hoje, um tanto esquecido e sacrificado. Precisa ser relembrado e fortalecido. Que a equipe econômica do governo Fernando Collor e de nosso atual governador Hélio Garcia (MG) possam redimir e reanimar os setores da produção, comercialização e industrialização da nossa tradicional atividade cafeeira, de importância fundamental para a economia dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, e de todo o nosso país, um tanto desprezado e abandonado nesses últimos cinco anos, por incompetência administrativa do Governo anterior.

Ruy Gripp

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