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Café Orgânico

Na 2º Conferência Mundial do Café, em Salvador –BA entre 23 a 25/09/05, uma declaração que levantou protesto e irritação dos defensores da Produção Orgânica, foi reproduzida em destaque na p. 10 da revista “A Granja”, de Outubro/2005 que reproduzimos abaixo:

“Não há futuro para café orgânico”- Uma das vozes mais respeitadas da cafeicultura mundial, o italiano Ernesto Illy, da Illycafé, causou furor ao decretar que o “cultivo de café orgânico não tem futuro” e que as lavouras de aspecto debilitado se assemelham a verdadeiros “campos de concentração”.

O empresário disse que o plantio “só dá dinheiro para as empresas certificadoras” e resulta em uma bebida de “péssima qualidade”. Não há números oficiais. Estima-se que a produção de cafés orgânicos não passe de 50 mil sacas no Brasil e 150 mil sacas no mundo, principalmente na América Latina, África e Ásia. As declarações de Illy, feitas durante a 2º Conferência Mundial do Café, em Salvador-BA, injetaram cafeína no ânimo dos participantes e originaram reclamações em swahili, espanhol, vietnamita e nos outros tantos idiomas que circularam pelo evento.

Pessoalmente, nunca fui entusiasmado em apoiar e divulgar o chamado “cultivo de café orgânico” dentro do princípio divulgado de que no cultivo tipo orgânico não se aplica fertilizantes e defensivos químicos, pois sabemos da impossibilidade de se ter boa produtividade na cultura do café sem os níveis ótimos (mínimos e máximos) de cada um dos 13 ou mais elementos químicos exigidos pela cultura.

Estes fertilizantes precisam estar presentes na seiva da planta, para que o fruto do café seja formado em abundância em cada cafeeiro. E também para que cada árvore do café permaneça sadia e bem enfolhada, antes, durante e após cada colheita.

Um estudo revelador da importância da adubação correta e equilibrada do cafeeiro para conseguir alta produtividade foi divulgado a cerca de 4 a 5 anos pelos órgãos de pesquisas do Espírito Santo.

Em cerca de 30 propriedades de seis municípios capixabas da região serrana, desde Iúna e Ibatiba, confrontado com Minas, até a região de Venda Nova e Conceição do Castelo foram feitas análises foliares em lavouras com alta produtividade, com estimativa de 30 sacas de café beneficiado por hectare.

Foi então comparado os limites máximos e mínimos de cada elemento químico presente nas folhas do cafeeiro e a relação existente entre eles. Sabe-se que uma deficiência ou um excesso de cada elemento químico, no solo ou na folha, pode ser nocivo ou prejudicial à produtividade.

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Assim, somente com a análise do solo e de análises foliares, com a devida correção pela adequada fertilização com os elementos químicos, no solo e da adubação foliar com pulverizações suplementares, se consegue obter os níveis ótimos necessários de cada elemento, na seiva e nos tecidos do cafeeiro. Isto, para se obter uma alta produtividade.

Dificilmente se consegue esta necessária fertilização apenas com adubos orgânicos, no chamado “Café Orgânico”. Isto, pela notória impossibilidade de fornecer todos os elementos químicos, a tempo e hora, que a planta exige sem lançar mão dos fertilizantes tradicionais.

Fato que acreditamos ser possível e até econômico na horticultura, no cultivo da alface, berinjela, cenoura, couve, repolho, tomate, vagem, etc., mas difícil e antieconômico na cultura do café que necessita de alta produtividade para ser lucrativo. Com saldo negativo, com baixa produtividade, nenhuma atividade agrícola consegue deslanchar, progredir, expandir.

Por isto o italiano Ernesto Illy sentenciou a morte do café orgânico, único produzido pelo Brasil durante décadas, quando nossa cafeicultura era feita com a derrubada de nossas matas, usando a fertilidade natural do solo pela decomposição da matéria orgânica representada pelas folhas, galhos e raízes de árvores frondosas e seculares.

Matéria orgânica estocada no solo e subsolo, que atuava beneficamente por dezenas de anos seguidos, fornecendo todos os elementos exigidos pela cultura do café. Estoque que teve um fim: acabou.

Hoje não temos mais estas matas para serem derrubadas e serem substituídas pelo cafezal. Agora, em terras cansadas, velhas, esgotadas, somente com fertilizantes químicos se consegue implantar lavouras de café economicamente produtivas.

Somente com adubação orgânica a produtividade do cafeeiro será sempre medíocre, pobre, baixa, insignificante, sem apresentar lucro compensador. Portanto, não fornecendo recursos para o necessário combate ou controle das pragas e doenças da cultura do café.

E principalmente, o fator mais defendido pelo cultivo orgânico é evitar a aplicação dos defensivos agrícolas – inseticidas, fungicidas e herbicidas –alegando serem nocivos à saúde humana.

Mas, sem os fertilizantes e defensivos não existirá resultados econômicos capaz de estimular a expansão da cultura deste tipo de café. Ernesto Illy, com sua sabedoria, sendo uma das maiores autoridades mundiais no setor da comercialização do café, e no incentivo à melhoria da qualidade da bebida, esta promovendo e incentivando o crescimento do consumo do café em nível mundial.

Ele teve a coragem de afirmar que “o cultivo do café orgânico não têm futuro”, citando as fontes do estudo realizado por importantes economistas de Universidades da Europa que chegaram a esta conclusão. Houve protestos de representantes ambientalistas de muitos países presentes na 2º Conferência Mundial do Café, em Salvador –BA. A meu ver, Illy afirmou uma verdade que vai ajudar muitos cafeicultores, a evitar perder dinheiro, tomar prejuízo, permanecendo ou entrando numa atividade sem presente e sem futuro.

Muitos técnicos, embora de boa fé e iludidos com o café orgânico, estão contribuindo para a ruína econômica de muitos cafeicultores, incentivando uma atividade sem base econômica. Oportunamente continuaremos com este assunto do Café Orgânico.

Motivado pela afirmação de Ernesto Illy, na 2º Conferência Mundial de Café, em Salvador –BA entre 23 a 25/09/2005 que o seu cultivo não tem futuro, por não ser viável economicamente, por ter baixa produtividade e ser de inferior qualidade. Isto, pela exigência do sistema de produção, vedando praticas que viabilizam o lucro.

Contudo, podemos afirmar que os divulgadores do café orgânico deram uma importante contribuição ao sistema de cultivo tradicional, alertando o mundo sobre os defensivos agrícolas perigosos, que aplicados sem critérios, de forma indiscriminada, pela sua alta toxidade para os trabalhadores como para o meio ambiente ou para os consumidores teve seu uso proibido.

O alerta do perigo dos resíduos tóxicos contribuiu para intensificar as pesquisas de linhas de defensivos menos tóxicos, embora muitos menos eficientes. Também, pela pesquisa, buscou-se e conseguiu produzir variedades de café com linhagens mais resistentes a determinadas pragas ou doenças.

Portanto, menos exigentes de gastos com aquisição e pulverização dos defensivos. Esta contribuição da pesquisa esta sendo muito positiva. Em grande parte representa o alerta dos defensores dos produtos orgânicos.

Portanto, um fato real, benéfico para o cultivo tradicional do café. Muitas práticas pesquisadas para o café orgânico também podem ser viáveis para o tradicional: o sistema orgânico ajudando a melhorar o cultivo tradicional.

Quando aplicamos os fertilizantes químicos de maneira adequada, a matéria orgânica no solo surge automaticamente. Torna-se autossustentável. Como? Representado pela abundância da queda de folhas do cafeeiro, da folhagem que se renova anualmente. E também com a geração de maior quantidade de cascas ou palha do café obtido no despolpamento ou beneficiamento.

Esta matéria orgânica, distribuída na lavoura, aumenta substancialmente o nível de matéria orgânica no solo. Fatos sobejamente constatado em todas as propriedades cafeeiras de todas as regiões do Brasil, quando se cultiva o café em base técnica.

Assim, sem colocar o adubo orgânico de outras fontes a não ser gerado no próprio cafezal, a matéria orgânica aparece, produzido no local do cultivo, ao redor de cada pé do cafeeiro. E, portanto, espontâneo, abundante e quase sem custo, por ser produzido na própria lavoura, dentro do imóvel, e gerado em função da adubação química. Também o mato das capinas contribui com parcela importante de matéria orgânica, gerada espontaneamente.

Felizmente, isto acontece em maior escala, quando os fertilizantes são cientificamente dosados, equilibradamente aplicados, gerando boa produtividade de frutos e de folhagem, produzindo portanto maior quantidade de resíduos orgânicos. Uma matéria orgânica gerada e transformada em húmus, debaixo ou e ao lado do próprio pé de café, ou transportado do terreiro do imóvel, onde os frutos são processados até a secagem e beneficiamento.

Naturalmente que uma cultura de café, adubada cientificamente, de acordo com a análise do solo e na dosagem em função da produtividade esperada, vai produzir uma matéria orgânica mais rica dos elementos químicos exigidos pelo cafeeiro.

Os resíduos do café – folhas e cascas dos frutos – fornecem uma composição química mais equilibrada em relação às necessidades do solo e da planta, economizando na formulação dos fertilizantes a serem adquiridos.

E principalmente, estando no terreno os elementos químicos em formulação orgânica, como no caso especifico do nitrogênio (N) no complexo do húmus que evitando excesso de nitrogênio livre, na aplicação dos fertilizantes químicos com alto teor de N solúvel influência negativamente à resistência da planta a determinadas pragas ou doenças.

Doenças e pragas que surgem em função de excessivo teor de Nitrogênio livre na seiva da planta. O nitrogênio do humos entra para a planta suavemente, pausadamente, não causando danos ao vegetal, ao contrario do Nitrogênio dos fertilizantes químicos, que em geral são muito solúveis, entrando em quantidade excessiva na composição da seiva do cafeeiro, provocando o aparecimentos de determinadas pragas e doenças.

É como se o nitrogênio do húmus (nitrogênio na formulação orgânica) protegesse a planta, dando-lhe vigor e resistência e o nitrogênio na formulação mineral predispondo a mesma planta ao ataque das pragas e doenças, ao torna-la vulnerável e portanto exigindo mais pulverizações com os defensivos agrícolas.

Portanto, das lições a aprender com a crise do café, focalizado na 2º Conferência Mundial do Café, em Salvador-BA, Ernesto Illy, da Illy Café alertou para o insucesso do café orgânico por ser ele de baixa produtividade e com qualidade inferior. Muitas vezes, uns poucos produtores sempre vão encontrar nichos de mercado especializado, com preços satisfatório para seus produtos.

Mas o alerta fica dado: dificilmente terá vantagens para um crescimento exagerado de produção. E somente preços bem superiores aos dos café tradicionais compensariam a menor produtividade dos chamados “Cafés Orgânicos”.

(28/10/2005) Ruy Gripp

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