Cafeicultura

Café: Safra Superestimada (1997)

O Coffee Business de 17/11/97 trouxe um artigo sobre café de Armando Matielli com o título: “Safra Superestimada “o qual a seguir vamos transcrever na íntegra, dado a sua importância para nossa cafeicultura, base de nossa economia regional”. O autor analisa, compara e comprova estatisticamente a impossibilidade de atingir produção na safra 98/99 acima de 30 milhões de sacas, como se tem divulgado. Vejamos:

“A safra vindoura de café (98/99), baseada nas duas floradas, final de Setembro e agora final de Outubro, sem dúvida alguma, traz um grande otimismo para a próxima colheita. Tivemos calor mais que suficiente e água, um pouco atrasada, mas chegando para concretizar o magnífico espetáculo que foi a florada dos nossos cafezais. Observamos nos últimos dias, um certo exagero nas previsões da safra 98/99 (baseado na florada), talvez por euforia ou por falta de uma análise mais profunda do atual potencial produtivo, e das estatísticas da cafeicultura. Preocupa-me que falam em números exagerados, 35 até 40 milhões de sacas. Impossível chegarmos a essa meta pelos seguintes motivos:

1 – Nosso parque cafeeiro caiu de + ou – 3 milhões de hectares para + ou – 2 milhões nos últimos 10 anos. Portanto reduziu 33% da área plantada por volta de 1 milhão de hectares. Devemos lembrar que atualmente o nível técnico, somado ao plantio adensado, realmente vem melhorando nossa cafeicultura. Mas, nunca conseguiremos substituir ou repor a produção desses 1 milhão tão rapidamente.

2 – Não podemos esquecer do total abandono que passou a cafeicultura no inicio década, principalmente de 1990 até 1994. Foram anos de preços mais baixos ocorridos sucessivamente, trazendo prejuízos enormes, após a desestruturação do IBC, onde faltou política de comercialização e financiamento de custeio às lavouras, somando a retração na pesquisa cafeeira.

3 – Em seguida aos baixos preços, tivemos duas geadas considerada SEVERAS em 1994, seguidas da seca, que vivificamos após aquelas duas desastrosas geadas.

4 – A produtividade brasileira nos últimos 38 anos está em 8,84 sacas por hectare, e se levarmos em consideração os últimos 10 anos, com melhoria da tecnificação, elevamos para 10,0 sacas/ha. Com esses números, e se compararmos com os primeiros referenciais da próxima safra, fala-se de 35 à 40 milhões de sacas, numa produtividade média de 17,5 a 20 sacas/ha. Baseado na área plantada atual, é praticamente INACREDITÁVEL que poderemos dobrar a PRODUTIVIDADE nessa próxima safra. Estatisticamente falando, quase impossível.

5 – Basta lembrar que a florada e as condições de 95/96 foram tão marcantes e tudo ocorreu, climaticamente falando na melhor performance possível e não conseguimos passar de 27 milhões de sacas; outro fato é que nos últimos dez anos, não passamos nenhuma vez dos 29 milhões de sacas que foi em 91/92, onde ainda tínhamos por volta de 2,8 milhões de hectares de café.

6 – Média -se analisarmos as estatísticas, a média dos últimos 38 anos, da cafeicultura brasileira foi de 24,3 milhões de sacas/ano, e a maior produção ocorreu em 1962, com 39,6 milhões de sacas, numa área de 4,9 milhões de hectares, quase 2,5 vezes maior que a atual, e que contava com as magníficas terras do Paraná, onde era a base da cafeicultura brasileira. Hoje, não mais. Analisando os últimos 10 anos, a média é de aproximadamente 25 milhões de sacas (produção nacional) (Fonte U.S.D.A -circular FTROP /95 e 27/jun. e AGR nº BR 7.029- Anuário COFFEE BUSINESS).

Cabe ressaltar a preocupante situação da nossa cafeicultura, bem verdade que estamos há muito produzindo abaixo do consumo, se falarmos numa demanda por volta de 12 milhões de sacas/ano (consumo interno) somado às exportações de 18 milhões de sacas (entre verde e solúvel). A demanda/estoque é preocupante para 97/98, para quando estamos prognosticando uma boa safra, a qual provavelmente não terá condições de sobrepor acima de 20 % da média dos últimos10 anos, ou seja, no máximo de 28 – 30 milhões de sacas.

Mas, pelos indicativos, até que enfim, teremos previsões oficiais de safra aprovadas pelo CDPC (Conselho Deliberativo da Política Cafeeira), nos próximos meses a qual deverá confirmar análises. Mesmo, se chegarmos a esse nível de produção nacional, em 1999, voltaremos a ter problemas com os baixos estoques, pois aquele ano deverá ser de média produção, menor que a próxima safra. Concluindo, pelas análises estatísticas, e na nossa sensibilidade, os cafeicultores terão excelentes anos vindouros em termos de preço, pelo menos de 97 a 2.000/2.001. (NOTA: Artigo de Armando Matielli, reproduzido do Coffee Business de 17/11/ 97).

(16/12/1997) Ruy Gripp

Posts Relacionados

Deixe uma resposta