Cafeicultura

Malavolta em Manhuaçu – Adubação de Café

Nos dias 29 e 30 de maio corrente o Núcleo Regional da SMEA (Sociedade Mineira de Engenheiros Agrônomos) e EMATER, em conjunto e com o patrocínio da FERTILIZANTES HERINGER, promoveram um importante e educativo encontro dos técnicos e cafeicultores da região produtora dos Cafés das Montanhas de Minas e Espírito Santo. Tivemos a visita e palestra do eminente Engenheiro Agrônomo, Professor Eurípedes Malvolta (1926), atualmente aposentado da ESALQ –USP (Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo), em Piracicaba-SP.

Notável e conceituado especialista em Nutrição e Adubação do solo e das plantas, com várias obras importantes editadas e reeditadas sobre o assunto de sua especialidade. Continua exercendo suas atividades de pesquisas, sendo consultor técnico de varias empresas agropecuárias, em vários Estados do Brasil, onde sempre é requisitado para palestras e orientações técnicas. Nos dois dias do encontro, houve um comparecimento de aproximadamente 300 participantes.

Dr. Malavolta é autor de vários livros. Entre outros, citamos; Elementos de Química Agrícola; ABC da Adubação; Manual de Química Agrícola – Adubos e Adubação; Nutrição das Plantas e Fertilidade do Solo; Elementos de Nutrição Mineral; Manual de Calagem e Adubação das Principais Culturas. É também, coautor em várias outras obras.

Sua primeira palestra ocorreu na 2ª Feira (29/05/00) a noite, na UBA – em Manhuaçu, com a participação geral de técnicos e cafeicultores. Continuou na 3ª Feira (30/05/00) na parte da manhã, apenas para os técnicos (agrônomos, técnicos agrícolas, engenheiros florestais, veterinários, etc.) Foi uma esplêndida aula, ocorrida no Centro Experimental de Café «Elói Carlos Heringer», em Martins Soares-MG.

Fez um resumo de seus vários livros, sintetizando as principais questões técnicas relacionadas com a Adubação e Fertilização do solo e das plantas, direcionando principalmente para a cultura do café. Houve debates, respondendo as perguntas questionadas, tirando dúvidas, sempre ilustrando por meio de gráficos e quadros, com dados estatísticos dos experimentos de campo e dos resultados comparativos em produtividade, analisando os diversos macro e microelementos e a função de cada um deles, na complexa ação e reação no solo e na fisiologia da planta, respondendo as perguntas de como, quanto, quando e com que adubar, para ter melhor produtividade e maior rentabilidade por área explorada, com sustentabilidade da fertilidade do solo, de maneira balanceada e ecologicamente conduzida.

Da apresentação de seu livro Manual de Calagem e Adubação das Principais Culturas, transcrevemos;

«Um dos maiores sábios que outro sábio, Pedro II, trouxe para o Brasil, deixou no 1º vol. da História das Plantas Alimentares e de Gozo do Brasil, publicada em 1871, a extraordinária mensagem que se transcreve em seguida; Tempo virá sem dúvida em que a influência humana se fará sentir nestes mesmos terrenos em sentido inverso; a destruição dos matos será seguida por outra geração que, forçada pelas circunstâncias, procurará restabelecer pela cal, a marga, o gesso ou por outros meios indicados pela chimica, a força antiga dos terrenos esgotados.

Certamente a regeneração progredirá com muito mais vagar do que a destruição; ela terá que fazer grandes despesas de tempo e dinheiro para, por um tratamento melhor, por um aproveitamento judicioso das propriedades chimicas do terreno, por uma cultura apropriada a sua origem geognóstica e ao clima, regenerar a fertilidade destruída pelo primeiro colono – Theodoro Peckolt.

O grande mérito deste homem foi antever há mais de um século a grande realidade que se vive hoje. Num país que ainda necessita ser essencialmente agrícola, é assunto de segurança nacional e do maior patriotismo, levar muito a sério a restauração da fertilidade perdida no passado e dar um basta às perdas atuais, cada vez maiores em virtude da expansão das fronteiras agrícolas.»

Nos próximos números iremos procurar reproduzir parte dos ensinamentos do professor Malavolta, sobre adubação e fertilização química do cafeeiro.

Continuando a divulgação das importantes informações técnicas e ensinos práticos deixados pelo professor Eurípedes Malavolta sobre como e porque adubar corretamente para se obter maior produtividade com menor custo, vamos a transcrever do seu Manual de Calagem e Adubação das Principais Culturas o seguinte;

«A lei básica da Ecologia diz que não existe refeição grátis e portanto não se pode querer uma planta produtiva num solo pobre. A mesa farta que a humanidade exige para os milhões de esfomeados do mundo, começa com uma refeição generosa de corretivos, fertilizantes minerais e orgânicos servida à terra empobrecida.

Esta tarefa urgente, de manter e aumentar a fertilidade dos solos, tem um grande trunfo a seu favor, que agrônomos e agricultores podem usar de imediato, qual seja a disponibilidade de tecnologia desenvolvida para esse fim. Em outras palavras, existe muita informação técnica sobre o que fazer para rapidamente se conseguir uma ótima fertilidade e produtividade como se observa hoje nos cerrados brasileiros, que são sem dúvida a maior conquista agronômica deste século.

A agricultura agronômica está disponível para quem quiser produzir, deixando para os maus políticos e ecológicos as agriculturas alternativas, tão perniciosas tanto para o agricultor como para o ser humano carente de mais alimentos. Como disse o Eng.º Agrº Norman Borlaugh, prêmio Nobel da Paz, – quem é contrário a atual tecnologia que defende o uso racional dos fertilizantes e de outros insumos modernos, pratica uma política imoral no combate a fome. Este livro tem a pretensão, de prestigiando a agricultura agronômica, oferecer uma colaboração para a restauração da fertilidade da terra brasileira.»

No capítulo 1, na introdução da página 1 até 10, transcrevemos;

«1.1- Solo, planta e adubo. Para crescer e produzir as plantas necessitam de vários elementos;

a) carbono (C), hidrogênio (H), oxigênio (O) – aparecem em maior proporção; C e O vêm do ar; H e O vem da água.

b) macronutrientes minerais – nitrogênio (N), fósforo (P), potássio (K), cálcio (Ca), magnésio (Mg), enxofre (S);

c) micronutrientes minerais – boro (B), cobre (Cu), cloro (Cl), cobalto (Co), ferro (Fe), manganês (Mn), molibdênio (Mo) e zinco (Zn).

Tanto os macro como os micronutrientes minerais vem do solo. Como o próprio nome indica, os macronutrientes são exigidos em maiores proporções, quilos por hectare, geralmente. Os micronutrientes são exigidos em menor proporção, geralmente gramas por hectare. N vida da planta, entretanto, tamanho não é documento; macro e micronutrientes são igualmente importantes. Em outras palavras; um cafezal poderá produzir pouco, tanto se faltar nitrogênio no solo, o elemento mais exigido, quanto se houver falta do molibdênio, o nutriente menos exigido.

Quando um solo como um todo apresenta baixos teores dos elementos essenciais para a vida da planta, isto quer dizer que a solução do solo também é pobre nos mesmos. A solução do solo (= água + nutrientes dissolvidos) é o compartimento de onde a raiz retira ou absorve os elementos essenciais.

1.2- Os princípios da adubação. Qualquer que seja a cultura, quaisquer que sejam as condições de solo e clima, na prática da adubação procura-se responder a 7 (sete) perguntas; O quê? Quanto? Quando? Como? Pagará? Efeito na qualidade? Com quê? Em seguida se verá, de modo geral, no que consistem e como se responde a essas perguntas. Depois se procurará as respostas práticas para as principais cultura brasileiras.

1.2.1- O que e quanto? O quê? significa; qual o elemento ou quais os elementos que estão no solo em nível insuficiente e que, por isso, prejudicam a produção devendo ser adicionados como adubo. Quanto? quer dizer a quantidade em que o adubo deve ser fornecido para cobrir a diferença entre o exigido pela cultura e o que o solo é capaz de suprir. Em geral essas duas perguntas são respondidas ao mesmo tempo.»

(Extraído das P. 1 a 7 do livro citado, de E. Malavolta. Pretendemos continuar com este importante assunto sobre a correta adubação do cafeeiro nos próximos números.»

Prosseguindo na divulgação das palestras do Professor E. Malavolta sobre adubação do café, quando de sua visita à nossa região entre 29 e 30/05/2000, transcrevemos do seu Manual de Calagem e Adubação das Principais Culturas o seguinte;

«Em geral essas duas perguntas (o quê? E quanto?) são respondidas ao mesmo tempo. E, para isso, são usados vários métodos. O mais adequado – e menos praticado de todos eles, – consiste nos ensaios de campo, usando-se diferentes adubos em diferentes quantidades. Medindo-se a colheita obtida no tratamento testemunha em que um dado adubo não foi aplicado e comparando-a com a conseguida com a adição do mesmo numa certa dose, fica-se sabendo duas coisas; qual o elemento que estava faltando no solo; qual a dose em que deve ser aplicado. O mais usado, a análise da terra. Pode-se perguntar ao próprio solo qual o elemento ou quais os elementos que estão em níveis baixos. No laboratório os elementos são extraídos do solo por processos diversos; soluções ácidas, soluções diluídas de sais, etc. Se a análise mostrar que o elemento está em níveis baixos, isto quer dizer que se deve fornecê-lo como adubo em quantidade maiores do que as usadas num outro solo em que a análise revelou teores altos.

Quando? significa a época ou épocas da vida da planta em que o elemento deve ser fornecido como adubo para garantir o maior aproveitamento possível, diminuindo as perdas e, portanto, fazendo-se economia nas quantidades aplicadas.

Como? quer dizer; em que lugar deve-se aplicar o adubo em relação à posição da semente ou das raízes da muda ou da planta em formação ou em produção, quando se tratar de culturas perenes. Aplicar o adubo no lugar certo é tão importante quanto se usar a dose adequada no momento indicado.

Pagará? significa o seguinte; a aplicação do adubo deve garantir uma aumento tal na produção que, além de cobrir o custo do fertilizantes aplicado, deverá deixar um lucro compensador.

Com quê? significa quais os produtos que são usados para fornecer os nutrientes de que a planta necessita. Trata-se dos adubos que podem ser definidos de um modo muito geral como veículos de nutrientes da planta. Os adubos se classificam em dois grandes grupos;

Minerais e Orgânicos. Os adubos minerais por sua vez, poderão ser portadores de nitrogênio (N), fósforo (P205), potássio (K20), cálcio (Ca), magnésio (Mg), enxofre (S), ou micronutrientes. Alguns adubos poderão conter mais de um elemento. As características dos principais adubos minerais aparecem nas tabelas de 1 a 15.

Princípios da calagem; Mediante a adubação, como foi visto, são fornecidos os elementos minerais de que a planta necessita e que o solo não pode fornecer em quantidade suficiente. A prática da calagem procura corrigir a acidez do solo, criando nele condições favoráveis ao desenvolvimento das plantas, em particular ao crescimento das raízes, garantindo ainda o efeito do adubo. Quer dizer; a adubação e a calagem costumam andar juntas. Ou melhor, a adubação começa pela calagem. Sempre que o solo for ácido. Do mesmo modo que acontece com a prática da adubação a calagem também procura responder a uma série de perguntas.

Por quê? Faz-se a calagem porque o solo é ácido: os solos brasileiros, como regra, são ácidos. Solo ácido significa; baixo pH; pouco Ca e Mg para as plantas; excesso de alumínio (Al), manganês (Mn), e, às vezes de ferro (Fe); condições desfavoráveis para a atividade dos micro-organismos que mineralizam a matéria orgânica a qual é a fonte natural de N, S, B e de outros elementos para as culturas; condições desfavoráveis para a fixação livre e simbiótica do nitrogênio (leguminosas); menor eficiência da adubação nitrogenada, fosfatada e potássica.

Com quê? Para neutralização da acidez os produtos mais usados são os calcários e gesso.

Quanto? É indispensável ter-se análise de terra para se fazer o cálculo da dose de calcário a usar. p. 32.

Quando? Na tabela 1 –18 aparecem as reações que ocorrem quando se aplica calcário. Para que haja a neutralização da acidez há duas coisas que são necessárias; (1) água e (2) tempo Se o solo estiver seco não se dissolve. O tempo necessário para que as reações ocorram, em igualdade de condições do solo e clima, depende muito do PRNT; quanto menor o PRNT mais tempo será necessário. Um calcário com 60-80% de PRNT deve ser aplicado uns 2 –3 meses antes do plantio.

Como? A pergunta quer dizer; de que maneira o calcário deve ser aplicado para dar melhor resultado possível. Para que isso aconteça é necessário que o calcário se misture com o solo da melhor maneira possível.

Pagará? Os critérios destinados a avaliar os aspectos econômicos da calagem e da aplicação do gesso são, de um modo geral, os mesmos que foram discutidos no caso da adubação. Há dois pontos, entretanto, que devem ser levados em conta;

(1) o efeito residual da calagem que não acaba no ano da aplicação;

(2) o efeito na eficiência do adubo.

(Transcrito do livro citado, portanto, reprodução das palavras escritas pelo prof. Malavolta, até a página 39)

(12/06/2000) Ruy Gripp

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