historico-erradicacao-do-cafe-no-brasilCafeicultura

Porque Houve a Erradicação do Café No Brasil

Recentemente, um professor pediu-me um histórico sobre a Erradicação do Café, visando saber porque o Governo pagou para eliminar parte do parque cafeeiro, no Brasil. Erradicar é sinônimo de arrancar, desarraigar, extirpar, eliminar.

Em qualquer assunto, se formularmos e conseguirmos responder cerca de cinco perguntas básicas como: O que? Porque? Como? Onde? Quando? Estaremos analisando, abordando e informando todos os aspectos da questão levantada, do assunto proposto. Assim, vamos procurar responder sobre a erradicação cafeeira.

1) O que e porque fazer a Erradicação do Café? Foi um programa governamental, estabelecido pelo Governo Federal, através do Instituto Brasileiro do Café – IBC, em parceria com outros órgãos. Objetivo: eliminar parte das lavouras cafeeiras com indenização, visando principalmente os cafeeiros deficitários, mais velhos, menos produtivos.. Isto, para diminuir a produção de café que era muito superior à demanda.

Havia um grande excedente de produção de Café no Mundo. E principalmente uma superprodução no Brasil, o maior produtor desta importante bebida. Os estoques acumulados ao longo de vários anos aviltavam as cotações internacionais. A atividade cafeeira estava deficitária, com os custo de produção muito acima dos preços de comercialização.

Era grande o prejuízo dos cafeicultores e dos países produtores. As divisas com as exportações diminuindo sempre. Sendo o café, o principal e quase único produto de nossa pauta de exportação durante décadas e principalmente naquela fase, superando de longe os outros diversos itens das nossas exportações, o governo resolveu estudar a maneira de diminuir a produção para aumentar a cotação do produto e elevar a renda do cafeicultor, aumentando também as divisas com a exportação.

Em décadas bem anteriores, foi executado o plano de queima ou incineração do café, para diminuir os estoques astronômicos existentes nos armazéns do Governo. Na obra “A Luta pela Modernização da Economia Cafeeira”, de Moacir Hélio Duque, 1976, na p.36 encontramos:

Com efeito, de 1931 a l945, o governo federal retirou do mercado nada menos de 95,5 milhões de sacas, o que corresponde a 5 safra normais. No mesmo período, foram destruídas por queima e outros métodos, mais de 78 milhões de sacas. O grande esforço empreendido se pode avaliar pelo fato de que, em vários anos, a quota de sacrifícios, isto é, o café destinado à destruição, atingiu a 40% da safra”.

Na p. 62 encontramos: “No quinquênio civil de 1958/1962 vendemos 38,8% do consumo e no quinquênio do Acordo (1963/1967) – 34%. Estocamos excedentes exportáveis, que chegaram a atingir 66.099.000 sacas”.

2) Quando e Quanto foi a Erradicação: Na p. 63 do livro citado encontramos: “No quinquênio 1962/ 1967, o Brasil procedeu à erradicação de 1.379.343.000 cafeeiros e não levamos em conta que os concorrentes estavam expandindo o plantio com mais de 1 bilhão de árvores, a simples cálculo baseado no aumento de suas exportações”.

Portanto, o estoque de café acumulado no Brasil correspondia á quantidade de duas a três safras. Predominava uma superprodução com preços aviltados, deprimidos, rebaixados. Na fase da eliminação dos estoques excedentes por queima, em Manhumirim – MG, próximo da cidade, na fazenda do sr. Sebastião Cotrim, a queima de café era continua, o ano todo e por muitos anos O fogo não chegava a apagar.

A incineração foi uma solução sábia e inteligente para diminuir os estoques e aumentar os preços nas cotações das Bolsas, que funcionou a contento. A queima do café se dava naqueles municípios onde existiam armazéns do IBC, que na época estavam superlotados do produto adquirido pelo Governo. Estes armazéns precisavam ser esvaziados para dar lugar a novas safras que chegavam anualmente.

3) Como surgiu o plano da Erradicação. Foi quando alguém teve a feliz e inteligente imaginação: porque ter o trabalho de colher o café para depois queimar o produto? Porque não eliminar o cafeeiro, no lugar de queimar o produto depois de tanto trabalho em cuidar da lavoura, colher os frutos, secá-lo nos terreiros, e processar no beneficiamento, gastos sacaria, transporte para os armazéns, para depois o Governo ter a burocracia da aquisição. Então, grande percentagem do produto ser queimado, virando cinza inútil?

Não seria mais econômico evitar esta trabalheira toda, com todos os custos de produção, eliminando por erradicação parte das lavouras decadentes, de baixa produtividade?

Foi então elaborado o plano chamado da Erradicação, com indenização ou pagamento pelo Governo Federal. Foi previsto a diversificação das áreas liberadas, estabelecendo culturas mais econômicas em substituição aos cafeeiros eliminados.

E assim surgiu o Plano de Erradicação das Lavouras Cafeeiras, executado em duas etapas: 1962/64 e 1965/67. A erradicação veio substituir a incineração ou queima. Ambos, erradicação e queima, visavam evitar a superprodução que é a pior praga da agricultura, pelo prejuízo que dá aos produtores e ao país.

Em resumo temos:

a) A queima ou incineração foi efetuada ao longo de vários anos, a partir de 1931 até 1960, em diversas fases, quando os estoques de café dos armazéns reguladores estavam muito altos;

b) A erradicação foi executada no quinquênio 1962/ 1967, com plano de diversificação das áreas liberadas. No período 1965/67 foi estabelecido um plano voluntário de plantio financiado, de renovação das lavouras dentro de bases técnicas. Isto, na base de 4 x 1 ou seja plantar até 25% da área erradicada, com assistência técnica do IBC, órgão gestor e controlador do café nos setores da produção, comercialização e exportação. Este plano de reposição das lavouras, surgido no projeto da erradicação, foi responsável pela introdução e expansão da moderna tecnologia aplicada à nossa cafeicultura atual.

c) Portanto, a erradicação se deu em dois períodos distintos: 1962/64, somente com indenização para a erradicação, mas com financiamento para a chamada diversificação, na exploração com outras atividades indicadas para a região.

d) Na 2º etapa, de 1965/ 67 teve um reajuste nos valores da indenização por área erradicada, e financiamento para novos plantios do café, dentro da tecnologia de curva de nível e controle da erosão para conservação dos solos, adubação química e correção da acidez, controle das pragas e doenças, introdução de novas variedades mais produtivas, etc.

Tudo com assistência técnica gratuita, pelo órgãos do Ministério da Agricultura (IBC), da Secretaria da Agricultura (EMATER) e outras instituições, como: Banco do Brasil, Caixa Econômica Estadual, etc. A erradicação da cafeicultura brasileira, de uma maneira planejada, trouxe o progresso tecnológico do nosso agricultor, com o desenvolvimento de nossa agricultura e planos de pesquisas em nossas Universidades, direcionadas para a cafeicultura e sua diversificação. Além do mais, salvou os agricultores de perder suas propriedades, pois a maioria dos cafeicultores estavam endividados e sujeitos à falência eminente.

Na zona da Mata de MG e E. Santo a principal diversificação foi com a introdução de pastagens, com a atividade leiteira sendo estimulada pela organização de Cooperativas de Leite, além da renovação de suas lavouras em bases técnicas. Foi um plano social e economicamente correto, vitorioso, saudável, inteligente, evitando o colapso das regiões cafeeiras, numa crise sem precedentes, ocasionado pela superprodução do café em escala mundial.

(22/08/2005) Ruy Gripp

 

Posts Relacionados

Deixe uma resposta