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Soja Integral – Aspectos Econômicos e Medicinais

A soja constitui hoje um dos principais produtos da agricultura brasileira, com grande significado na pauta de exportação. A soja também chamada de “ carne vegetal”, “carne sem osso”, “leite vegetal”, “leite do pobre”, “alimento milagroso”, etc., apesar de seu notável valor alimentício, ainda não é utilizada suficientemente, como deveria, na dieta alimentar do brasileiro. Apenas o óleo é usado largamente na cozinha, e as tortas (subprodutos), na alimentação animal.

Ultimamente, vem surgindo no mercado, numerosos produtos à base de soja. Entretanto, além do preço elevado, devido aos custos de industrialização e comercialização (o que impede seu uso pelas camadas de menor poder aquisitivo), nem sempre o produto apresenta-se de forma integral, tornando impraticável a utilização plena de todas as suas virtudes nutricionais.

Os alimentos industrializados, são refinados e purificados através da separação e eliminação de importantes componentes representados pelo óleo, vitaminas, minerais, fibras e proteínas, encontradas nos germes ou na película externa dos cereais. Estas substâncias vitais são separadas por processos mecânicos ou físicos, ou por dissolventes químicos, permitindo a conservação dos produtos, assim processados, por tempo mais prolongado, sem decomposição ou fermentação, facilitando sua distribuição e comercialização.

Isso ocorre com o arroz milho e trigo (farináceos fornecedores, por excelência, dos hidratos de carbono, do grupo dos açúcares e amidos), que ficam concentrados de sua porção energética, com diminuição de fibras, óleo, vitamina e minerais. Assim também acontece com a soja, quando consumida na forma de PTs ou PVT (proteína texturizada da soja ou proteína vegetal texturizada), conhecida popularmente como carne vegetal ou carne de soja.

A lecitina, importante componente da soja, acompanha o óleo em sua extração de onde é retirada no processo de purificação, para a embalagem do óleo. A LECITINA é um fosfolípide composto, numa combinação de fosfato, nitrogênio e gordura, com uma vitamina, a colina, um produto encontrado nas farmácias, sendo hoje remédio bastante popular, indicado como rejuvenescedor e desobstruidor do sistema circulatório, combatendo a arteriosclerose, também faz parte das células de nosso cérebro e de nosso sistema nervoso e dos principais órgãos, como rins, fígado, etc. como ativador da renovação permanente das células de nosso organismo. Felizmente, no leite em pó de soja, a lecitina encontra-se presente.

No Brasil, a divulgação da soja para uso direto do grão, sempre foi direcionada para o leite de soja, em substituição ao leite de vaca. Reconhece-se no entanto, tratar-se de um processo muito trabalhoso que, se executado de forma inadequada sem um perfeito cozimento, e com os grãos feridos ou quebrados(de molho ou maceração em água fria) pode dar origem a anti nutrientes com paladar e odor repugnante, que impede sua aceitação.

Embora semelhante ao leite animal no seu aspecto físico, e na composição química, este sabor estranho do leite de soja, talvez seja a causa mais provável de sal rejeição. Os orientais (chineses e japoneses) normalmente fazem o leite de soja e deste o queijo (tofu), que é consumido com pratos salgados, em substituição à carne animal.

FARINHA DA SOJA TORRADA

Comprovada a dificuldade na elaboração e aceitação do leite de soja(mão de obra excessiva, combustível, materiais, ingredientes de tempero, conservação e sabor), já era tempo de se imaginar outras maneiras mais praticas e aceitáveis de se consumir a soja de forma integral, e preparada a nível caseiro. A farinha de soja torrada, é de processamento mais simples e econômico, guarda as propriedades vitais da soja, e tem maior viabilidade de se popularizar rapidamente, graças ao já costumeiro habito de se consumir farinhas diversas (de mandioca, fubá torrado, rosca, neston, farinha láctea e o leite em pó).

A elaboração da farinha de soja integral tem inicio com a seleção ou limpeza dos grãos secos. A seguir, em torradores de café (tipo bola), em panelas (igual torrar amendoim), ou em formas de assar bolo, processa-se a torragem, cujo grau tem influência no valor nutritivo da farinha. A torra não deve ser excessiva (muito escura),a fim de evitar a perda de elementos nutritivos (proteínas e vitaminas).

O ideal é de aproximadamente 20 minutos em forno de assar bolo, temperatura entre 100 a 120°C, tempo suficiente para eliminar anti nutrientes e enzimas existentes no grão cru. O grão torrado é moído em maquinas de moer carne ou mesmo nos moedores de café, no moinho de pedra ou a martelo, socado no pilão ou triturado no liquidificador. O grão torrado conserva-se melhor do que a farinha. Torrando a soja para um período de um mês deve-se transformá-la em farinha, semanalmente, conservando-a em vidros, latas, ou sacolas plásticas vedadas.

 ASPECTOS MEDICINAIS

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O livro “A soja no Brasil”, editores Shiro Miyasaka e Julio César Medina, com 1.062 paginas e 210 colaboradores citados, oferece seguras indicações sobre as vantagens do uso da soja e sua grande influência na saúde humana. Explicações de cunho científico e técnico apontam os benefícios do uso da soja para os males referentes à pressão alta, reumatismo da uricemia ou gota, diabetes, estágios de emagrecimento e, principalmente, no combate à arteriosclerose e aos males do coração, quando consumida integral.

Isto pelo seu elevado teor em proteínas nobres (35%), formadas pelos principais aminoácidos essenciais e, principalmente, pelo seu alto teor em LECITINA (2%). Vale a pena consumir soja integral pela lecitina que contém. Contudo possuem também 98% de outras notáveis e nutritivas substâncias, necessárias a uma perfeita e completa saúde.

Já são do nosso conhecimento pessoal, casos concretos do melhoramento da saúde de numerosos portadores de reumatismo, que obtiveram respostas positivas com o uso constante da farinha de soja integral. Dessa forma, além de alimento, a soja passa a valorizar-se também como remédio, multiplicando suas vantagens, e promovendo a sua mais ampla e constante utilização. Sua desvantagem, sendo estimulante sexual, como o amendoim, será funcionar contra o necessário controle da natalidade. Em contra partida, representa potencial alimentar para maior número de brasileiros.

ASPECTOS ECONÔMICOS

Com o título “GRÃOS DA PROSPERIDADE”, a revista “VEJA” de 04.03.88 apresenta uma importante reportagem sobre a soja, exibindo um quadro ilustrando a equivalência, em proteínas, em que 10 kg de soja correspondem a 8,8 Kg de carne de boi ou frango, a 70 litros de leite de vaca, dando para fazer 8 Kg de carne de soja (PTs ou PVT), ou 8 Kg de farelo para ração, 80 l. de leite de soja e 21 l. de óleo de cozinha.

Isolando-se os produtos acima relacionados e revendo seus custos, pode-se concluir que a soja produzida (ou adquirida em grãos), e elaborada no próprio lar, oferece a alternativa de um alimento de alto valor nutritivo e de baixo valor financeiro. É mister, portanto, que seja empreendida uma campanha destinada a amplias o plantio (mormente por pequenos produtores) e aumentar o consumo da soja (principalmente através da farinha integral) por toda a população. Assim estaremos nos alimentando com um produto nutritivo quase equivalente à carne ou leite em pó, cujo preço fica, aproximadamente, por um terço do custo dos produtos derivados de origem animal.

COMO USAR A FARINHA DA SOJA TORRADA?

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1) No café da manhã, com café com leite, café com leite, iogurte, banana ou outras frutas, com melado ou açúcar mascavo;

2) Substituindo um terço da farinha de trigo ou fubá, na confecção de bolo ou broa.

3) Substituindo parcial ou totalmente, o amendoim no pé-de-moleque ou na paçoca;

4) Em mistura meio a meio, com a farinha de mandioca ou fubá torrado, no seu uso habitual, nas refeições;

5) Reforçando o valor nutritivo das vitaminas de frutas, batidas no liquidificador.

6) Na mamadeira ou no mingau das crianças, assim como na dieta dos idosos.

7) Enfim, sempre e diariamente na mesa, em todas as refeições: no feijão, na sopa de verduras, no feijão tropeiro, com a couve ou outras verduras refogadas.

RECEITAS

1) BIFE, USANDO MANDIOCA OU BATATINHA, INHAME OU ANGU:

3 xícaras médias de mandioca cozida, 3 colheres de sopa da farinha de soja torrada,

1 ovo, cheiro verde, cebolinha, salsa, etc.

1 cebola de cabeça, em picadinha,

Sal, alho, pimenta, molho, etc.

Misturar tudo, fazendo bifes passados no fubá ou outra farinha, fritos em óleo ou em gordura bem quente. Fica um bife macio e gostoso, substituindo o bife de boi, em valor nutritivo, aspecto e paladar.

2) PAÇOCA NUTRITIVA:

com partes iguais de fubá torrado, farinha de soja e de açúcar mascavo ou rapadura raspada, aproveitando o valor energético e nutricional destes três importantes alimentos. O milho, a soja e a cana de açúcar, produzidos em boa quantidade em qualquer parte do território nacional, ficam assim, reunidos num único prato de bom paladar, que deveria ser adotado na merenda escolar.

Em que pesem os valores nutritivos dos alimentos integrais à base de soja, chama-se a atenção para os excessos, tendo em vista o seu enorme teor em óleo (20%) e em proteínas (35%),podendo provocar o relaxamento dos intestinos. No caso da farinha de soja, uma ou duas colheres diárias, constituem uma boa complementação alimentar, ajudando os intestinos preguiçosos no combate à prisão de ventre, que pode ser causa posterior de outras doenças, como até mesmo o chamado “câncer do cólon”.

CONCLUSÕES:

1- Seria bom que todos os supermercados passassem a vender o grão cru da soja, a soja torrada e a farinha integral, facilitando seu consumo.

2- A farinha da soja integral representa uma nova perspectiva, visando popularizar o consumo da soja no combate à fome, a desnutrição, à doença, diminuindo despesas com farmácia, medicina e hospitais. Através do seu leite, a soja não tem tido boa aceitação, talvez devido à sua demorada elaboração, difícil conservação e paladar enjoativo.

3- Acreditamos numa rápida expansão do consumo da soja através da farinha do grão torrado, porque sendo nutritiva e indicada para a prevenção ou cura de varias enfermidades, é de fácil preparo caseiro com boa conservação, sendo gostosa, adaptada aos mais variados paladares, em combinação com tantos outros alimentos. De um ouvimos: “agora achei o jeito de consumir a soja“;

De outro “é preciso vigiar os meninos para não comerem demais”. De baixo custo, em relação aos produtos de origem animal (carne, leite e ovos), a soja pode substituí-los plenamente, em relação às proteínas, ao óleo, aos minerais e às vitaminas (substâncias plásticas constituintes da estrutura de nossos órgãos formadores, renovadores e protetores de nossas células e tecidos), oferecendo uma complementação ideal aos cereais fornecedores, por excelência, de nutrientes energéticos (hidratos de carbono, amido e açúcares), porem carentes de proteínas e óleo.

(Trabalho apresentado no XII Congresso Brasileiro de Nutrição, realizado em Blumenau – SC, de 01 a 06/10/1989)

Ruy Gripp

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