Flavio JosefoArtigos de Livros

A História Vivida e Contada por Flávio Josefo

Josefo conta sua vida e sua obra.

Nas Edições Paulinas, 1986, em Coleção “Documentos do Mundo da Bíblia” encontramos: “Flávio Josefo – Uma testemunha do tempo dos Apóstolos”, tradução de I. F. Leal Ferreira. Pretendemos reproduzir trechos do livro, dado a sua importância histórica no contexto das religiões ligadas ao cristianismo mundial. Assim temos:

“Julho de 67 da nossa era… Há quatorze meses desencadeia-se a guerra entre judeus e romanos. Depois de quarenta e sete dias de cerco, as tropas de Vespasiano conseguem tomar e destruir Jotápata, uma praça forte na Galileia… Josefo, com trinta anos de idade, defensor da cidade e chefe dos revoltosos da Galileia, refugia-se numa cisterna profunda juntamente com quarenta companheiros.

O esconderijo é descoberto. Vespasiano convida Josefo a se render, prometendo-lhe que sua vida será salva. Diante de seus companheiros, aceitar tal proposta seria uma traição: todos eles preferiram morrer a se entregar. Josefo consegue dissuadi-los do suicídio e lhes propõe de se estrangularem reciprocamente segundo uma ordem determinada pela sorte.

Restam vivos, dentro de pouco tempo, somente ele e um companheiro, “deveríamos dizer como , consequência de um acaso ou da ação da Providência divina”? explica ele próprio, embaraçado. Parece que tenha havido um truque ao tirar a sorte. Josefo se entrega, pois, a Vespasiano, a quem ele prediz o Império. Sem grande sucesso, ele exorta seus compatriotas a depor as armas. Mas, a pouco a pouco, o prisioneiro vai passando para o lado dos vencedores. Terminada a guerra, ele se torna cidadão romano, acrescentando ao seu nome o da família dos seus protetores, Flávio. Rico e considerado, de agora em diante passará dias felizes na capital imperial.

A maneira como salvou sua vida deixou, sem a menor dúvida, alguns remorsos na alma de Josefo. Desta dor na consciência nasceu uma obra literária. Aos olhos dos que o acusavam de traição, Josefo justifica sua passagem para o campo romano e apresenta sua explicação sobre a guerra judaica. Os judeus destruíram-se a si mesmos por causa de suas divisões sectárias.

Deus os castigou e deu aos romanos uma força irresistível. Este é o tema de “A guerra dos judeus”, cuja edição aramaica desapareceu. A versão grega, ampliada, surgiu entre 76 e 79. Josefo relata os acontecimentos de que foi testemunha; esclarece-os, porém, remontando ao passado até a revolta dos Macabeus, no século II antes da nossa era.

A opção política de Josefo não significa absolutamente abandono de suas convicções religiosas judaicas. De fato, ele sofria muito por causa da ignorância e do desprezo que o mundo grego-romano alimentava em relação aos judeus e à Bíblia. Por isso, esforça-se para tornar conhecidas entre os gregos tradições igualmente veneráveis e mais antigas do que as deles nas suas Antiguidades judaicas (ou História antiga dos judeus), que apareceram em 93 ou 94.

Justo de Tiberíades, antigo companheiro de luta e seu rival na Galileia, contestou o papel de Josefo na guerra; imediatamente, este se justifica, publicando sua Vida (Autobiografia), que ele acrescenta como um apêndice a uma nova edição das Antiguidades, no fim do século I. Os trechos extraídos da obra de Josefo e aqui propostos pretendem ser um esclarecimento sobre a Palestina do século I e, por conseguinte, sobre as origens do cristianismo. Eles nos ajudarão a conhecer melhor essa terra e esse povo em que se enraíza o evangelho.

INTRODUÇÃO

Apresentação de Flávio Josefo. Josefo conta a sua vida através da sua obra. – Utilizando duas obras de Josefo, a Guerra e a Autobiografia, apresentamos as grandes etapas de sua vida. Josefo apresenta a sua família – Minha família não é destituída de glória, oriunda como é de sacerdotes. Os diversos povos têm, cada um deles, sua maneira própria de fundamentar a nobreza; entre nós, são as afinidades com o sacerdócio que atestam o cunho ilustre de uma família.

Ora, no meu caso, não somente minha família é de raça sacerdotal, mas ainda pertence à primeira das vinte e quatro classes- distinção muito apreciável – e é mais importante do que a mais ilustre de suas tribo. Eu mesmo sou, por parte de minha mãe, de raça real, porque os descendentes de Asmon (antepassado dos macabeus que deu seu nome à dinastia asmoneia), seus antepassados, foram durante um período bem longo sumos sacerdotes e reis de nosso povo…

Eu nasci de Matias, no primeiro ano do reinado de Caio Cesar (cognominado Calígula). Tenho três filhos: o mais velho, Hircano, nasceu no quarto ano do reinado de Vespasiano. César Justo, no sétimo ano, Agripa, no nono ano.

Sua educação

Não era raro que um jovem judeu, desejoso de perfeição, se colocasse na escola de um asceta que vivesse retirado no deserto e se tornasse discípulo deste. Josefo foi procurar tal Bano, da mesma maneira que, alguns decênios ante, houve judeus que se tornaram discípulos de João (Jo 1, 35). Mas, enquanto João batizava na água, tendo em vista a conversão, o “guia” de Josefo multiplicava as abluções.

Meu pai Matias não se distinguia apenas pela sua nobreza; era mais estimado ainda pela sua retidão e gozava de grade prestigio em Jerusalém, a mais importante de nossas cidades. Fui educado junto com meu irmão Matias, irmão por parte de pai e de mãe. Meus grandes progressos nos estudos conquistavam-se a fama de ter memória e inteligência superiores.

Mal saíra eu da infância e atingira os quatorze anos e já todos me felicitavam pelo meu amor ao estudo, pois constantemente os sumos sacerdotes e as pessoas importantes da cidade vinham-me ao encontro para aprender comigo este ou aquele ponto de nossas leis. Por volta dos meus dezesseis anos, eu quis experimentar diversas seitas de nossa nação. Existem três: a primeira, a dos fariseus, a segunda, a dos saduceus, a terceira, a dos essênios; já falei sobre isso varias vezes. Segundo o meu pensamento, aprender assim a conhecê-las a fundo me haveria de permitir escolher a melhor delas. A custo de aplicação austera e de trabalho considerável, passei por todas três.

Viagem a Roma

“Não me prendi a tal experiência, mas, tendo ouvido falar de um Bano, que vivia no deserto, que se contentava para se vestir com o que as árvores lhe forneciam e para se alimentar com o que a terra produzia espontaneamente, usando frequentes abluções de água fria de dia e de noite, por preocupação com a pureza, tornei-me seu êmulo. (Emular= igualar, seguir, imitar).

Depois de três anos passados junto com ele, tendo feito o que eu desejava, voltei para minha cidade. Com dezenove anos então, eu já começava a orientar minha conduta de acordo com os princípios da seita dos fariseus, a qual apresenta semelhança com a que os gregos chamam de escola do Pórtico.

Viagem a Roma e missão nesta cidade, por volta do ano 64. P- 10 Josefo, como resposta a seus delatores, não perde oportunidade de lembrar que ele foi, como se diz, solidário com os seus.

Quando eu tinha mais de vinte e seis anos, aconteceu que vim a Roma pela razão que passo e relatar. Na época em que Félix era procurador da Judeia, não se sabe por que fútil razão, ele mandou prender e enviar a Roma para se explicar diante de Cesar (Nero) alguns sacerdotes meus amigos, que eram homens distintos.

Como eu queria encontrar um meio de os libertar, sobretudo porque sabia que, mesmo na miséria, longe de se esquecer da piedade para com Deus, eles viviam de figos e de nozes, cheguei a Roma, depois de uma viagem cheia de perigos. Com efeito, tendo a nossa embarcação virado em pleno mar Adriático, nós, que éramos cerca de seiscentos, fomos obrigados a nadar durante toda a noite; logo ao amanhecer, providencialmente, apareceu diante de nossos olhos uma embarcação cireneia.

Então, junto com uns oitenta companheiros ao todo, ultrapassei os outros e fomos todos içados a bordo. São e salvo, em Dicaiarqueia, que os italianos chamam de Putéoli, fiz amizade com Alituros. Ele era um mímico, favorito de Nero e de raça judaica. Apresentado, por seu intermédio, a Popeia, esposa do César, empenhei-me logo, junto a ela, para obter a libertação de tais sacerdotes. Depois que obtive de Popeia, além deste favor, outros benefícios importantes, voltei à minha casa.

Josefo, chefe da resistência judaica na Galileia (fim do ano 66). Esta viagem que Josefo fez a Roma desempenhou um papel importante na sua vida. Nosso historiador ficou fascinado pela potência romana e convencido de que os romanos eram invencíveis. Ao regressar, tenta em vão dissuadir seus compatriotas de empreender a guerra contra os romanos. Não obstante, quando irrompeu a revolta, ele aceitou organizar a resistência judaica na Galileia.

Josefo, filho de Matias, assumiu a responsabilidade das duas galileias; também foi colocado sob seu comando Gâmala, a cidade mais fortificada da região. Cada um dos generais exerceu o comando segundo seu zelo e suas capacidades. Quanto a Josefo, desde sua chegada à Galileia, ele se preocupou, antes de mais nada, com captar a simpatia dos habitantes, sabendo bem que, assim , ele obteria êxito na maior parte de suas tarefas, aliás mesmo que viesse a cometer erros.

Percebendo que conquistaria o beneplácito dos dirigentes, associando-os ao poder, e o do povo inteiro, transmitindo-lhe a maioria das ordens por intermédio de compatriotas com quem estava habituados, escolheu na nação setenta pessoas já de certa idade, de critério equilibrado, e estabeleceu-as como magistrados para toda a Galileia, colocando ainda, em cada cidade, sete juízes para as divergências fáceis de serem resolvidas; deu ordem que fossem submetidos a ele, bem como aos Setenta, os negócios importantes e os processos criminais.

Prisioneiro, depois familiar do imperador: Providência ou sorte? Retomando uma tradição bem ancorada no judaísmo de língua grega, Josefo tenta traduzir as “realidades judaicas”, usando palavras gregas. Por isso, não nos admiramos de ver termos diferentes encontrar seu lugar no relato de nosso historiador, quando ele conta de que modo foi salvo da morte e recuperou a liberdade: “Assistência divina, sorte, acaso, Providência”. A multiplicação destes termos trai a preocupação de Josefo: tornar o judaísmo compreendido por homens de outra cultura.. É um processo semelhante ao que, alguns anos antes, Paulo também tentara usar.

Josefo esconde-se depois da tomada de Jotápa. Josefo prefere refugiar-se na cidade de Jotápa, situada na metade do caminho entre a costa do Mediterrâneo e a do Tiberiades. Fortifica a cidade, que foi logo cercada pelos romanos. Jotápata foi tomada depois de quarenta e sete dias de cerco. P. 11

Vespasiano mandou arrasar a cidade e incendiar suas fortalezas. Assim foi Jotápa capturada, no décimo terceiro ano do reinado de Nero, na lua nova de Panemus. Em seguida, os romanos se puseram em busca de Josefo, não só por causa da raiva que sentiam contra ele, porém, igualmente porque o general desejava ardentemente apoderar-se dele, pois considerava a sua captura um elemento essencial na guerra. Procuraram, cuidadosamente por toda parte os cadáveres e as pessoas que estavam escondidas.

Josefo, porém, durante a tomada da cidade, com alguma assistência divina, escapara do meio dos inimigos e entrara numa cisterna profunda, ao lado da qual se abria uma gruta espaçosa, invisível para as pessoas que olhassem de cima para baixo.

Aí, ele encontrou quarenta pessoas distintas, que também procuravam esconder-se, e provisões suficientes para vários dias… Assim ficou ele escondido por dois dias. Mas, no terceiro, uma mulher que pertencia ao grupo foi presa e denunciou-o. Imediatamente Vespasiano enviou, a toda pressa, dois tribunos, Paulino e Galicano, com ordem de oferecer garantias a Josefo e de convida-lo a voltar .

Josefo destaca sua própria Importância

“Depois de muita hesitação, Josefo decide entregar-se aos romanos. O homem não perde a oportunidade de destacar sua importância. P 12

Enquanto Josefo hesitava…, veio-lhe a lembrança de sonhos noturnos, mediante os quais Deus lhe anunciara, antecipadamente, as desgraças que aconteceriam aos judeus e os destinos futuros dos imperadores romanos. Ele sabia interpretar sonhos e era hábil em decifrar revelações ambíguas da divindade. Estava perfeitamente a par das profecias dos livros sagrados como sacerdote que era e como membro da raça sacerdotal.

Nessa hora, tomado por inspiração profética, depois de ter feito ressurgirem as visões aterradoras de seus sonhos recentes, ofereceu a Deus esta oração mental: “Já que te aprouve castigar esta nação judaica que criaste e que a sorte passa totalmente para o lado dos romanos, já que escolheste o meu espírito para anunciar o futuro, entrego-me de bom grado aos romanos e aceito viver; mas eu te tomo como testemunha de que deixo este lugar não como tridor, porém, como servo”.

Depois dessa oração, rendeu-se a Nicanor. Mas, quando os judeus refugiados com ele compreenderam que Josefo estava cedendo às exortações, todos juntos o cercaram e se puseram a gritar: “Se a Sorte dos romanos te submergiu tal esquecimento de ti mesmo, cabe a nós zelar pela glória de nossa pátria. Nós te emprestaremos nossa espada e nosso braça: morrerás como general dos judeus, se o fizeres voluntariamente, como traidor, se ocorrer à força”. A essas palavras, apontaram contra eles suas espadas, ameaçando-o de morte se ele se entregasse aos romanos.

Confiando-se à proteção divina, ele arriscou sua vida, na tentativa de última oportunidade e disse aos outros: “Já que decidimos morrer, pois bem tiremos a sorte” para ver a ordem do estrangulamento: quem tirar o primeiro número cai nas mãos de quem tirar o número seguinte. Assim, a sorte nos atingira a todos sucessivamente, sem que ninguém morra por suas próprias mãos: porque seria injusto que, depois de os outros haverem deixado este mundo, um de nós, mudando de opinião, escapasse a morte”. Essa proposta lhes inspirou confiança; aceitaram-na, e Josefo tirou a sorte com eles.

Cada homem sobre quem caia a sorte expunha o pescoço ao que possuía o número seguinte, convencido de que seu general também iria morrer logo: eles achavam mais suave partilhar a morte com Josefo do que viver. Acontece que Josefo – não sei se deveríamos dizer que por efeito do acaso ou da Providência divina – ficou sozinho juntamente com outro. Desejado evitar ser condenado pela sorte e também, se ficasse por último, ter de manchar suas mãos com o homicídio de um compatriota, conseguiu convencer igualmente aquele homem a conservar-se vivo, dando-lhe Josefo a sua palavra.

Josefo prediz o Império de Vespasiano

– Tendo, deste modo, sobrevivido à guerra com romanos e a que teve com seus amigos, foi conduzido por Nicanor até Vespasiano… Na ocasião, Vespasiano ordenou fosse ele colocado a vigilância mais rigorosa, anunciando sua intenção de envia-lo em breve a Nero. Ao ouvir tais palavras, Josefo manifestou o desejo de coversar a sós com Vespasiano. Este, tendo mandado sair todo mundo, exceto seu filho Tito e dois de seus amigos, deu a palavra a Josefo, que lhe disse:

“Tu, Vespasiano, acredito ter na pessoa de Josefo um prisioneiro de guerra e nada mais; na verdade, porém, venho a ti como mensageiro portador das melhores noticias; do contrário, se eu não tivesse sido enviado por Deus, eu conheceria a lei dos judeus e saberia de que modo convém morrer os generais. Envias-me a Nero? Para que? De que adianta? Pensas porventura que os que vão suceder a Nero antes do teu reinado se manterão no poder? És tu, Vespasiano, que será Cesar, és tu que será imperador, tu e teu filho aqui presente!

Agora, manda apertar minhas cadeias com mais força e guarda –me para ti. Porque és senhor absoluto, não somente de minha pessoa, César, mas da terra, do mar e de toda a raça humana. Quanto a mim, peço ser punido com uma prisão mais rigorosa se for considerado culpado de leviandade em relação à palavra de Deus”. No momento, tais palavras pareceram deixar Vespasiano céptico; via nelas um truque de Josefo para salvar a sua cabeça. Mas, insensivelmente, foi levado ao Império e o levava a prever, por causa de outros sinais que um dia teria o cetro na mão… P. 13

Josefo protegido por Vespasiano e por Tito

P 14 – Mesmo conservando Josefo na prisão e bem vigiado, Vespasiano lhe deu de presente vestes e objetos de valor e tratou-o com bondade e gentileza. Tito contribuía muito para que Josefo fosse alvo desse tratamento favorável.

Agora que, de todos os lados, a Sorte prosseguia ganhando terreno de acordo com seus anseios, e que as circunstâncias lhe eram, na maioria dos casos, favoráveis, Vespasiano começou a pensar que o Império não lhe caberia sem a assistência da providência divina e que seria graças a algum destino justo que conquistaria o poder universal. Lembrava-se, com efeito, entre outros preságios… das palavras de Josefo… “

É chocante, afirmou, que o homem que predisse minha ascensão ao poder, que o ministro da voz de Deus suporte a condição de prisioneiro de guerra e tenha a sorte de um encarcerado”, e, mandando chamar a Josefo, deu ordem que lhe tirassem as cadeias… Tito, que estava ao lado do pai, disse-lhe: “A justiça exige, pai, que Josefo seja libertado do ultraje ao mesmo tempo que das cadeias; e se, não contente de liberta-lo, nós quebramos suas cadeias, ele passará a ser como alguém que nunca foi preso”. Efetivamente, é assim que se procede com os que são encarcerados injustamente.

Vespasiano deu seu assentimento e mandou vir um homem que quebrasse as cadeias com golpes de machado. Assim, Josefo obteve a sua libertação como recompensa de suas predições e, a partir de então, foi julgado digno de credito em relação aos acontecimentos futuros.”

Vespasiano e Tito

“Algum tempo depois, Josefo convida os sitiados de Jerusalém a se renderem – Tito confiou a Josefo a missão de conversar com os sitiados na sua língua materna, pensado que talvez eles cedessem às instancia de um compatriota.

Josefo, portanto, andando em volta da muralha, esforçando-se por se manter fora do alcance da mira dos sitiados, mas ao mesmo tempo tentando fazer-se ouvir, suplicava aos revoltosos, reiteradas vezes, que poupassem suas próprias vidas e o povo, que poupassem a pátria e o Templo e que, em face destes, não se mostrassem mais insensíveis do que os estrangeiros; os romanos respeitavam oculto dos seus inimigos sem dele participar e, até então, não haviam tocado nos objetos sagrados; não haveria de ser justamente agora que pessoas educadas no meio deles e que seriam as únicas que poderiam usufruir de todo aquilo iriam colaborar para a sua destruição; eles viam bem, acrescentava Josefo, que suas muralhas mais sólidas já tinham sido destruídas e que a que restava era mais frágil do que as arrasadas; sabiam que a força dos romanos era irresistível e que prestar serviços a eles não constituía mais experiência nova para os judeus; pois, se era algo de belo lutar pela liberdade:

Certamente é necessário desprezar senhores que sejam inferiores a vós, mas não os que dominam o universo; de fato, que país escapara dos romanos, exceto os que calor ou frio intensos tornam sem interesse? De todas as partes, a Sorte passará para o lado deles, e Deus, que se transfere de uma nação para outra, dando a hegemonia a cada uma por sua vez, sendo agora a vez da Itália… Enquanto Josefo lhes dava tais conselhos, muitos lhe lançavam em rosto duros sarcasmos do alto da muralha, muitos o insultavam, alguns até tentavam puxa-lo para cima…

Josefo, durante uma de suas viagens – porque ele não desistia de molestar os sitiados – foi ferido por uma pedrada na cabeça e caiu no chão inconsciente. Os judeus deram uma rápida saída para apanhar o corpo, e Josefo teria sido prontamente levado para o interior da cidade de Tito, ainda a tempo não houvesse enviado uma tropa para protegê-lo…

Josefo se refez com rapidez desse golpe e voltou a aproximar-se da muralha, gritando aos combatentes que se vingariam deles dentro em breve, por causa da ferida que lhe fizeram e exortando novamente o povo a confiar nele. O fato de o reverem restituiu a coragem à população e provocou novas perdas entre os rebeldes.

JOSEFO NA CORTE IMPERIAL

– P. 15- Quando Tito conseguiu dominar as perturbações na Judeia, percebendo que os terrenos que eu possuía em Jerusalém não me renderiam nada, já que a guarnição romana ia instalar –se neles, ele me deu outra propriedade na planície e, no momento de embarcar para Roma, tomou-me como companheiro de bordo e me tratou com toda a consideração.

Depois de nossa chegada a Roma, fui objeto de todas as atenções por parte de Vespasiano. Ele me fez ir morar na casa que fora sua antes de sua ascensão ao Império, honrou-me com o direito de cidadania romana, mandou-me dar uma pensão e nunca deixou de me demonstrar sua estima até o fim dos seus dias, sem nunca arrefecer sua bondade para comigo, fato que provocou inveja contra mim e me pôs em perigo …As pessoas em quem minha situação despertava inveja inventaram acusações contra mim, mas, pela divina Providência, escapei delas todas as vezes. Recebi também, como doação de Vespasiano, uma propriedade bastante importante na Judeia…

Minha situação ao lado dos imperadores manteve-se sem mudanças. Assim sendo, ao morrer Vespasiano, Tito sucedeu-lhe no Império e conservou para comigo a mesma estima que o pai me dedicava e recusou-se a acreditar nas acusações de que fui objeto repetidas vezes.

O sucessor de Tito, Domiciano, acrescentou ainda às demonstrações de estima, de que eu já gozava, algo mais: mandou castigar os judeus que me acusaram e principalmente ordenou que fosse punido um eunuco que me censurara, o escravo pedagogo de meu próprio filho, e me beneficiou, quanto à minha propriedade da Judeia, com isenção de impostos, o que constituía a honra máxima para o beneficiário. Do seu lado Domicia, esposa de Cesar (Domiciano), foi sempre para mim uma benfeitora. P. 15

Talvez, sentindo-se menos bem na sorte na corte no fim do reinado de Domiciano, Josefo tenha se colocado sob a proteção do gramático Epafrodito, a quem dedica suas obras. Ao que tudo indica, Josefo morreu nos primeiros anos do século II.

Os Maus e os Bons Historiadores

II, Josefo expõe sua concepção da história. P. 16 – O prólogo que abre o Evangelho de Lucas não deixa de evocar a “maneira” dos historiadores gregos: menção dos predecessores, preocupação de fundamentar o relato num testemunho cujo valor seja indiscutível, dedicatória da obra a um ou mais personagens importantes. Josefo segue uma tradição semelhante, mas onde Lucas se contenta com mencionar seus predecessores, Josefo nada mais experimenta, senão desprezo pelos que o precederam. O texto de Josefo traí também seu orgulho de ser membro de um povo cuja grandeza se manifestou pela notável aos exércitos romanos.

Josefo diz como escreveu a Guerra dos Judeus. A guerra pelos judeus contra os romanos é a mais considerável, não somente entre as de nosso tempo, mas, talvez até mesmo entre aqueles cujo relato chegou a nós e que se desenrolaram tanto entre cidades quanto entre nações; entre os historiadores dessa guerra, alguns não tomaram parte nas operações; eles respigaram com pouca felicidade os “disse-e-me-disse” contraditórios e redigiram os dados colhidos, usando efeitos de estilo dos sofistas.

Outros participaram da guerra, mas, por questão de cortesia para com os romanos ou por ódio aos judeus, deformaram os fatos: seus escritos espalham aqui criticas fortes, ali elogios, mas em lugar algum se encontra o rigor histórico. Eis por que eu, Josefo, filho de Matias, hebreu de raça, oriundo de Jerusalém, sacerdote, tendo eu próprio participado da guerra contra os romanos num primeiro momento e, em seguida, tendo sido obrigado a acompanhar as operações, decidi expor a sequencia dos acontecimentos relativos ao Império romano, traduzindo para o grego a obra que compus primeiro em mina língua materna (* O aramaico), e que enviei aos povos estrangeiros do interior da Ásia…

Julguei, portanto, que seria absurdo deixar perder-se, com indiferença, a verdade sobre acontecimentos de tamanha amplitude; mais: que seria absurdo admitir que partas, babilônicos, os árabes mais distantes, bem como nossos compatriotas do além Eufrates, abissínios de Adiabene conheçam com precisão, graças aos meus trabalhos, as origens desta guerra, as provocações que assinalaram a sua evolução, a maneira como terminaram, e que os gregos, bom como aqueles entre os romanos que não participaram de tais operações, ignorem tudo isso, ficando à mercê de historiadores bajuladores ou mentirosos.

Os maus e os bons historiadores – Eles ousam intitular sua obra de “historia” quando não somente ai não dão ensinamento algum seguro, mas, além disso, na minha opinião, fogem completamente ao seu objetivo. Pois querem provar a grandeza dos romanos e não perdem a oportunidade de rebaixar as ações dos judeus ou de minimizá-las: nesse caso, não vejo como poderiam parecer grandes pessoas que obtêm a vitoria sobre anões.

Além do mais, não levam absolutamente em conta a duração da guerra, contingentes consideráveis usados pelo exercito romano, nem o prestígio dos generais que suaram sangue e água sob as muralhas de Jerusalém, porém, que , aos olhos deles, suponho, não conquistaram gloria alguma, pois que seu sucesso é rebaixado.

Indiscutivelmente, o historiador que merece elogios é aquele que consigna acontecimentos cuja historia nunca foi escrita e que elabora a crônica de seu tempo, tendo em vista as gerações futuras. O trabalhador não é aquele que dá retoques na organização e no plano de uma obra que não é dele; mas é aquele que faz o relato de acontecimentos virgens e compõe uma obra histórica original.

É assim que eu, como estrangeiro que não poupei nem meu dinheiro nem meu empenho, ofereço aos gregos e aos romanos este memorial de grandes fatos. Acontece que eles, os gregos de nascimento, desde que se trate de ganhar dinheiro ou de pedir, sua boca se abre bem grande, sem esforço, e sua língua se agita; mas para a historia , em que é preciso dizer a verdade e reunir os fatos despendendo grandes esforços, sua boca fica amordaçada, e eles abandonam a espíritos medíocres dos grandes capitães. Que a verdade histórica seja , portanto, honrada por nós, já que os gregos não se preocupam com ela.

Josefo defende sua obra e seu método contra seus adversários.

P. 17- Sobre o conjunto da guerra e sobre o pormenor dos fatos, escrevi uma relação verídica, tendo eu assistido pessoalmente a todos os acontecimentos. Porque eu era general dos que entre nós se chamam galileus, enquanto a resistência foi possível, depois, capturado, vivi prisioneiro no campo romano. Vespasiano e Tito, que me mantinham sob sua vigilância, me obrigaram a ficar sempre perto deles, no princípio, preso; mais tarde, livre das minhas cadeias, fui enviado para Alexandria com Tito, até o cerco de Jerusalém.

Durante esse período nenhum fato escapou ao meu conhecimento. Com efeito, eu observava cuidadosamente não só o que se passava diante dos meus olhos no exercito romano, mas ainda as informações dos desertores, que eu era o único a compreender. Em seguida, nos momentos de lazer que tive em Roma, já havendo terminado inteiramente a preparação da minha historia, na redação grega procurei a ajuda de algumas pessoas e foi assim que relatei os acontecimentos para a posteridade.

Disso resultou para mim tal confiança na veracidade de minha historia, que, antes de tidos os outros eu quis tomar com testemunhas os que haviam comandado, como chefes, a guerra, Vespasiano e Tito. Foi a eles que, em primeiro lugar, dei meus livros e, em seguida, a muitos romanos que haviam participado da campanha; por outro lado, vendi-os a um grande número dos nossos, iniciados nas letras gregas, entre os quais Julio Arquelau, o Augustissimo HERODES, E O ADMIRABILÍSSIMO REI Agripa.

Todos esses personagens deram testemunho de que eu esforçara em defender a verdade, eles que absolutamente não teriam ocultado os seus sentimentos nem conservado o silêncio se, por ignorância ou para favorecer alguém, eu houvesse deturpado ou omitido algum fato.

O país e seus habitantes

O Pais e Seus Habitantes – Josefo, Geografo ! O qualitativo pode causar surpresa. Joséfo não é antes de mais nada historiador? Sem duvida alguma, a apresentação do espaço geográfico não tem no seu espírito objetivo prioritário. Apesar disso, ele não se desinteressa do assunto e as copiosas descrições de certos lugares fortificados estão presentes em sua obra, para servir de testemunho da nossa afirmação.

Originário do sul, Flávio Josefo aprende a gostar da Galileia durante o inicio da revolta judaica contra Roma. Prisioneiro dos romanos, nosso historiador acompanha suas operações militares e percorre de ponta a ponta o país. Testemunha ocular, Josefo conhece bem a terra de Israel e os homens que nela habitam.

Suas obras, aliás, estão cheias de informações relativas à geografia da Palestina; estas últimas, por certo, são muitas vezes parciais e episódicas, mas, afinal de contas, mostram-se bastante precisas e oferecem a vantagem de terem sido observadas ao vivo. Algumas páginas de A Guerra dos Judeus escapam a essa tendência ao esmiuçamento e reúnem informações mais consistentes e seguidas com maior cuidado.

Com base numa leitura de A Guerra dos Judeus, podemos esboçar a geografia da Palestina na época de Jesus de Nazaré e das primeiras comunidades cristãs.

Percorrer o país. O livro III de A Guerra dos Judeus, Flávio Joséfo interrompe bruscamente o relato das hostilidades entre as legiões romanas e os revoltosos judeus, para fazer uma descrição sumária dos lugares em que ocorrem os combates. Ele esboça em alguns parágrafos um quadro das cinco regiões do país.

A GALILEIA

(Seforis) era a maior cidade da Galileia, situada num local que por si constituía uma defesa natural, solidamente fortificada, e era ela que devia assegurar a proteção de todo o país.

A Galileia compreende duas partes, respectivamente chamada de Galileia superior e de Galileia inferior. É cercada pela Fenícia e pela Síria. Seus limites ocidentais são constituídos pelas fronteiras do território de Ptolemaida e pelo monte Carmelo, que outrora pertencia aos galileus e agora pertence aos sírios. Perto do Carmelo ficava Gaba, a “Cidade dos Cavaleiros”, assim denominada porque cavaleiros dispensados pelo rei Herodes vieram aí fixar-se. Ao sul, ela tem como limites a Samaria e o território de Citópolis até as fontes do Jordão; a leste, o território de Hipos, de Gadara….

Como esta superfície limitada, e cercada como estão por nações estrangeira tão poderosas, as duas Galileias foram formadas para o combate desde seus anos mais jovens e tiveram sempre de enfrentar lutas numerosos. Nunca faltou coragem aos homens nem homens ao país. Toda a região é fértil, rica em pastagens, plantada com árvores de toda espécie, de modo que o homem mais preguiçoso para os trabalhos da terra sente em si a vocação de agricultor diante de tantas facilidades.

De fato, toda a superfície é cultivada pelos habitantes, de maneira que nenhuma parcela de terra, por mínima que seja, fica sem cultivo. As cidades são distribuídas umas bem próximas das outras, e os numerosíssimos burgos espalhados por toda a parte têm população bastante densa, por causa da fertilidade do solo, a tal ponto que o menor deles conta mais de quinze mil habitantes.

PEREIA

De maneira geral, se temos de reconhecer que em superfície a Galileia é inferior à Pereia, aquela deve merecer a preferência por causa dos recursos de que dispõe. Porque toda ela é produtiva e oferece colheitas em todas as épocas do ano, ao passo que a Pereia, que é muito mais extensa, é em grande parte deserta e muito pedregosa, bastante agreste para permitir que os frutos cultivados cheguem a ficar maduros.

No entanto, ela possui partes férteis que dão toda espécie de cultura; as planícies são plantadas com árvores de todos os tipos, sendo as mais cultivadas a oliveira, a vinha e a palmeira. Ela é irrigada pelas torrentes que descem das montanhas e pelas fontes que jamais secam e que são em numero suficiente para suprir as torrentes quando estas ficam secas por causa do calor intenso. Em comprimento, ela se estende de Maqueronte a Pela, e em largura, de Filadélfia ao Jordão. É limitada ao norte por Pela, que acabamos de citar, a oeste pelo Jordão. Seu limite meridional é o país de Moab, e a leste ela tem fronteira com a Arábia, a Hesbonítide, os territórios de Filadélfia e de Gerasa. P 22

A SAMARIA

– Esta situada entre a Galiléia e a Judéia. Ela começa no burgo de Ginaia, que se encontra na Grande Planície, e termina na topografia de Acrabatene. Em nada difere da Judeia por suas peculiaridades naturais. Todas as duas têm montanhas e planícies; todas as duas estão cobertas de árvores, regurgitantes de frutos selvagens e cultivados; a terra é fácil de ser trabalhada, é fértil; em parte alguma, são bem dotadas de rios pela natureza, mas chove abundantemente. A água das fontes aí é impressionantemente doce, e, graças à abundância das boas pastagens, o seu gado dá mais leite do que alhures. A melhor prova de sua virtude e de sua riqueza – tanto da Samaria quanto da Judeia – é a densidade da população.

O país e suas diversidades regionais.

A JUDEIA – O burgo chamado Anuat Borceus assinala o limite entre as duas regiões. Ele constitui o limite setentrional da Judeia. A fronteira meridional, considerando-se o país no sentido do comprimento, é formada por um burgo situado na fronteira árabe e que os judeus da região denominam de Iarda. Em largura, estende-se do Jordão a Jope. Exatamente em seu centro está situada a cidade de Jerusalém: eis por que às vezes foi chamada de umbigo do país. A Judeia, alias, não está privada da influência suavizante do mar, já que se estende ao longo de sua margem até Ptolemaida.

É dividida em onze clerúquias, entre as quais se acha Jerusalém, que, como capital, comanda e domina toda a região vizinha, assim como a cabeça donina o corpo. Depois dela, as outras cleruquias correspondem às toparquias; em segundo lugar vem Gofna e, depois, Acrabete; em seguida vêm Tamna, Lida, Emaus, Pela, Iduméias, Engtdi, Herodion e Jericó; a essas faz-se necessário acrescentar Jâmnia e Jope, que administram localidades vizinhas…

DESCER O JORDÃO

– Por duas vezes, Josefo descreve o vale do Jordão e as regiões circunvizinhas. Habituado com as paisagens mais austeras e muitas vezes calcinadas da Judeia, Josefo não pode deixar de sentir maravilhado com a vegetação luxuriante das margens do rio e impressionado com a justaposição dos contrastes vegetais, produzidos pela presença ou ausência de recursos em água. Igualmente, colocando lado a lado estas duas descrições, o leitor pode acompanhar o curso do Jordão praticamente desde sua nascente, ao pé do Hermon, até sua foz, no ponto em que ele se lança no mar Morto. P 24

O lago de Genezaré deve seu nome ao país que fica às suas margens. Ele mede quarenta estádios (7,2 km) de largura por cento e quarenta de comprimento (25,2 km). E, no entanto, sua água é muito doce e ótima para se beber.

Ele não tem a espessura das águas estagnadas; é mais leve e, além do mais, é pura porque o lago é cercado por todos os lados de margens feitas de seixos ou de areia. Quando retirada, possui uma temperatura boa, mais agradável do que a de um rio ou de uma fonte, e vai ficando cada vez mais fresca, coisa que não seria de se esperar por causa da extensão do lago.

E não deixa nada a desejar se comparada com o gelo, quando exposta ao ar livre, o que fazem regularmente os habitantes durante as noites de verão. O lago contém espécies de peixes que diferem em gosto e em forma dos encontros alhures. Ele é atravessado no meio pelo Jordão, cuja nascente parece situar-se em Panion; mas a verdadeira nascente do rio fica na lagoa de Fial, de onde a água chega, sem que a vejamos, a Panion, percorrendo a terra. Essa lagoa situa-se a cento e vinte estádios (21,6 km) de Cesaréia de Filipe, quando se toma o caminho que sobe para a Traconítide, à direita e bem perto da estrada.

A beleza natural de Panion foi realçada pela munificência real, tendo o lugar sido aprimorado mediante grandes despesas feitas por Agripa. Tornando-se visível à saída desta gruta, o curso do Jordão atravessa os brejos lodosos do lago Smeconide; percorre então outros cento e vinte estádios e, depois da cidade de Júlia, atravessa o lago Genesaré bem no meio, percorrendo em seguida, de ponta a ponta, um vasto deserto, e lançando-se no lago de Asfaltite.

Ao longo do lago de Genesaré estende-se a região de mesmo nome, notável pelos seus recursos naturais e por sua beleza. Sua fertilidade faz que ela não recuse nenhuma planta, e os cultivadores aí procuram plantar tudo; o ar é tão bem equilibrado, que se mostra propicio aos produtos mais variados; assim, as nogueiras, árvores que preferem os climas mais rudes, aí crescem em número infinito, ao lado das palmeiras, que só podem crescer no meio de forte calor, e as espécies próximas da figueira e da oliveira, que requerem um ar mais temperado.

Diríamos que a natureza tomou como ponto de honra forçar a presença de espécies incompatíveis, reunidas num mesmo lugar, e que, mantendo uma disputa benéfica, cada estação reivindica a posse do país, pois não só ela produz, contra toda esperança, frutos de climas diferentes, como igualmente os conserva. Estas rainhas das frutas, que são a uva e o figo, são por ela fornecidos sem interrupção durante dez meses, e as outras frutas amadurecem nas árvores durante o ano inteiro.

Pois, além da boa qualidade do ar, a região é irrigada por uma fonte de alto valor fertilizante, chamada Cafarnaum pelas pessoas da localidade. Alguns consideram-na como um afluente do Nilo, porque produz um peixe parecido com o “coracinus” do lago de Alexandria. A região se estende ao longo da margem do lago, conservando o mesmo nome durante uma extensão de trinta estádios; sua largura é de vinte estádios, São estas , portanto, as suas propriedades naturais.

O país e suas diversidades regionais. Jericó

JERICÓ fica situada numa planície, mas é dominada por uma montanha despida de vegetação, estéril e de um comprimento extensíssimo, que vai do norte até o território de Citopolis, ao sul, até a região de Sodoma e a extremidade do lago Asfaltite; sobre toda sua superfície, o solo é desigual e estéril, o que a torna inabitável. Em frente dela estende-se a montanha que fica à margem do Jordão, começando em Júlia ao Norte e seguindo para o sul até Somora, que serve de limite com Petra na Arábia . Ela compreende o monte chamado Monte-de-ferro que se estende até o pais de Moab.

A parte do território compreendida entre essas duas cordilheiras chama-se a Grande Planície e vai do burgo de Ginábris até o lago de Asfaltite. Seu comprimento é de mil e duzentos estádios e sua largura de cento vinte estádios. É cortada ao meio pelo Jordão e contém dois lagos, o Asfaltite e o lago de Tiberiades, cujas propriedades naturais se opõem: a água do primeiro é salgada e estéril, a do segundo, doce e fecunda. No verão, essa planície fica calcinada, e o calor excessivo torna o ar ambiente malsão: tudo seca, exceto o Jordão, e é por isso que as palmeiras, que crescem às suas margens, se mostram mais luxuriantes e produtivas do que às que ficam mais longe dele.

Perto de Jericó encontra-se uma fonte abundante e muito rica para irrigação. Ela jorra com ruído próximo a uma velha cidade, que foi a primeira da terra dos cananeus a ser conquistada a ponta de lança por Jesus, filho de Nave (Josué, filho de Num, cf. Js 6,1). Esta fonte irriga uma superfície maior do que todas as outras e se espalha sobre uma planície de setenta estádios de comprimento por vinte de largura, onde ela alimenta e mantém parques de vegetação esplêndida e luxuriante. Entre as palmeiras que ela irriga, há muitas variedades que diferem pelo gosto e pelas propriedades terapêuticas de seus frutos; os mais untuosos, quando esmagados com o pé, espalham um mel abundante, pouco inferior ao das abelhas, que são numerosas nesta região.

Aí se encontra igualmente a seiva da árvore que fornece o bálsamo, um dos produtos locais mais preciosos; e mais: o cipreste e o mirobálano; de sorte que não nos enganaríamos se qualificássemos de divino este lugar, onde são numerosas as plantas mais raras e mais belas. Porque no que se refere aos seus frutos, dificilmente encontraríamos outra região da terra habitada que lhe pudesse ser comparada, já que ela realmente reproduz centuplicado o que nela se semeia.

Parece-me que a causa disso é o calor do ar e a força fertilizante da água: o ar atrai os rebentos novos, espalhando-os de uma ponta á outra, enquanto a umidade permite que cada uma garanta para si sólidas raízes e lhes dá pleno vigor durante o verão, época em que a região circunvizinha fica de tal modo quente, que as pessoas hesitam em sair de casa. A água é retirada antes de o sol se pôr; depois, exposta ao ar livre, torna-se extremamente fresca, passando a um estado oposto ao do ar ambiente; inversamente, no inverno, ela é tépida e muito agradável para o banho.

O clima é tão temperado, que, quando neva no resto da Judeia, as pessoas da localidade usam roupas de linho. Jericó fica a cento e cinquenta estádios (27 km) de Jerusalém e a sessenta (10,8 km) do Jordão. A região compreendida entre Jericó e Jerusalém é um deserto rochoso; entre Jericó, de um lado, e o Jordão e o Asfaltite, do outro, ela é menos elevada, mas igualmente deserta e estéril.

As propriedades naturais do lago Asfaltite valem a pena também serem mencionadas. Sua água, como eu disse, é amarga e estéril, mas graças à sua leveza, faz voltarem à superfície os objetos mais pesados que ai são jogados, e é muito difícil conseguir atingir seu fundo, mesmo que se queira. Vespasiano quis ir aí para ver com seus próprios olhos o fato e mandou lançar no fundo pessoas que não sabiam nadar e cujas mãos

tinham sido amarradas atrás das costas; o que aconteceu, porém, foi que todas acabaram boiando, como que empurradas por um sopro ascendente. Uma coisa notável também é a mudança de cor na superfície: com efeito, ela muda de aparência três vezes por dia e reflete de modo variado os raios do sol. Em numerosos pontos, ela lança para fora torrões pretos de asfalto, que boiam na superfície, parecendo, pela forma e pelo talhe touros decapitados.

Os trabalhadores do lago aproximam-se deles, apanham esse conglomerado e põem-nos dentro do barco; mas, quando os barcos ficam cheios, eles têm muito trabalho pra desprender esse asfalto, que , pelo fato de sua elasticidade, adere ao barco por meio de filamentos dúcteis, chegando ao ponto de precisarem ser descolados com o sangue das regras das mulheres e da urina, os únicos produtos capazes de quebrar sua resistência. Ele é utilizado não só para a calefação dos navios, mas também como remédio; e entra na composição de muitos produtos farmacêuticos. Este lago tem um comprimento de quinhentos e oitenta estádios (104 km), seguindo uma linha que vai até Zoara na Arábia. Sua largura é de cento e cinquenta estádios. (27 km).

SUBIR A JERUSALÉM

– Os livros V e VI de A Guerra dos Judeus relatam a luta fratricida que opõe as diferentes facções judaicas em Jerusalém, nos anos de 68-´69 (cf p 68-69) encontram com minúcias, as etapas do cerco da cidade pelas tropas de Tito. Nesses relatos, Josefo concede um lugar importante á topografia da capital da Judeia, por volta dos anos 65 a 70.

Ele nos descreve muito cuidadosamente o sistema de fortificações que protege a cidade: detém-se de preferência em varias construções importantes, principalmente o Palácio de Herodes e a Antônia, que já existiam no tempo de Jesus, evidentemente o Templo, embelezado por Herodes, o Grande, prende por muito tempo a sua atenção e se torna objetivo de uma apresentação quase exaustiva.

Esse testemunho constitui a melhor fonte de informação à nossa disposição sobre a capital judaica antes de sua destruição trágica no verão de 70. Aliás, os arqueólogos, na maioria dos casos, só fazem confirmar ou esclarecer, através de suas pesquisas e descobertas, um ou outro ensinamento já transmitido por Josefo.

Nota

– Livro “Flávio Josefo – Uma testemunha do tempo dos Apóstolos”, cujo autor é o próprio Josefo, historiador dos acontecimentos do tempo de Jesus Cristo.

Ruy Gripp –  25-11-2013.

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