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Melado da Cana-de-Açúcar

Numa tarde de junho de 1983, o Eng.º Agr.º Dr. Ruy Gripp, fiscal do Banco do Brasil em Manhumirim, completava mais uma de suas costumeiras visitas a um mutuário desse Banco, quando foi motivado a iniciar uma campanha destinada a difundir o uso do MELADO e outros adoçantes derivados da cana e produzidos diretamente no meio rural.

Foi na casa do Sr. Martino de Freitas (Vargem Grande – município de Presidente Soares, hoje Alto Jequitibá-MG), que a ideia lhe ocorreu logo após ser convidado para um cafezinho pela esposa daquele proprietário. Ela frisou muito bem que aquele café não era adoçado com açúcar branco, mas sim com MELADO DE CANA.

Nesse dia, naquele sitio, o engenho estava funcionando e a garapa fervia na tacha. O pensamento do agrônomo (filho de agricultor dessa região), por alguns instantes retornou ao passado, quando esta cena era uma presença constante em quase todas as propriedades agrícolas a zona da mata de Minas Gerais, onde era intensa a elaboração e uso de garapa, rapadura, melado, puxa-puxa e açúcar mascavo.

Após saborear o cafezinho, Dr. Ruy perguntou à dona da casa porque usava melado e não a rapadura, ou diretamente a garapa, ao que lhe foi respondido: o melado confere um sabor mais suave e leve ao café, ao contrario da rapadura que acrescenta gosto acentuadamente pesado.

Os que já conhecem Ruy Gripp, sabem do seu modo peculiar de fazer campanha. O local é qualquer lugar, de preferência na roça. Mas ele usa muito as igrejas, escolas, clubes de serviço e até palanque com microfone de exposições e feiras agrícolas.

Fala para muita gente e também para uma só pessoa… E foi ali mesmo, junto à família do Sr. Martinho, que ele deu início à sua nova campanha em prol do uso do melado. Começou falando acerca da diferença entre melado (rapadura), e o açúcar branco (cristal ou refinado).

Na fabricação do açúcar o processo de cristalização e purificação consiste na retirada de um melaço que, ao ser extraído, leva consigo também as “verdadeiras virtudes” da cana, correspondentes a sais minerais e vitaminas. O açúcar branco, portanto, não contém esses elementos nutritivos, sendo um produto desnaturalizado, desvitaminado e desmineralizado.

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Já o melado, rapadura, etc., são conservados os sais minerais como cálcio e ferro, além de vitaminas, principalmente do grupo “B”.

Como no Brasil o povo usa muito DOCE, quer no café, sobremesas diversas, bolos, sucos, etc., cumpre assinalar a grande importância do retorno à produção e uso do melado, rapadura e açúcar mascavo, mormente entre os habitantes do meio rural, como duplo componente de interesse alimentar e econômico.

Além dos valores alimentícios do MELADO, o agrônomo fez menção também de um curioso fato ocorrido, tempos atrás, com um seu velho amigo e fazendeiro, residente no município de Chalé (MG), o Sr. Manoel Brandão.

Este senhor, pai de duas meninas, vivia sempre às voltas com a saúde de uma das filhas. Depois de percorrer. Sem êxito, numerosos médicos da região, resolveu levar a fila até Belo Horizonte, a fim de consultar um médico especialista.

Lá na capital mineira, os pais da menina ficaram surpresos quando o médico informou que não iria receitar uma só gota de remédio, mas somente o uso do MELADO de Cana.

Surpreso e intrigado com tal receita, o casal resolveu, assim mesmo, acreditar naquele médico (afinal a menina já havia tomado muito tipo de remédio e sem nenhum resultado), que valia a pena voltar da capital, sem nenhum remédio de farmácia na bolsa… Com o uso continuado do melado, sempre nas refeições, aquela menina restabeleceu a saúde, e, hoje é casada e tem filhos.

O agrônomo e fiscal do Banco do Brasil, em sua constante caminhada junto aos agricultores de sua jurisdição, sempre falava do MELADO, colhendo também dos interlocutores, novas e valiosas informações destinadas a testemunhar e comprovar o que ele dizia.

Foi na Cabeceira do Rio José Pedro, que o agricultor de nome Mercionil declarou que Dr. João (antigo médico de Manhumirim-MG), sempre dizia que quem quisesse sarar do fígado era só comer logo após o almoço, uma boa pratada de MELADO COM ANGU. Em princípio, tem-se a ideia de um “prato bravo e pesado”, porém o Sr. Mercionil o apreciava. O mais importante é que ele sarou do fígado…

No mês de setembro, o Dr. Ruy, ao passar por Chalé, fez questão de visitar o Manoel Brandão e confirmar direitinho o que estava “espalhando” pelas roças. Sua esposa, D. Irandina, confirmou tudo acrescentou ainda mais:

1-  Que a menina sofria dos nervos, rangia os dentes à noite e não possuía tato suficiente para pegar objetos;

2- O nome do remédio (MELADO) veio escrito na folha do bloco de receitas daquele médico de Belo Horizonte.

Ainda em Chalé, Ruy encontrou o Sr. Ciro Cuca, conhecido fabricante de rapadura. Este lhe afirmou que grandes fregueses do seu produto são dois médicos: Dr. Moacir e Dr.Calil, e que este último havia curado uma menina anêmica somente com rapadura.

Seguindo sua jornada obrigatória de visitação rural, o agrônomo esteve em outubro, no sítio do Sr. Adelávio Xavier de Oliveira (Córrego do Ouro, em Manhumirim-MG) e aproveitou para falar do melado a todo o pessoal ali reunido.

Na ocasião, o Sr. Adelávio afirmou que, quando foi tratar das vistas lá em Caratinga (com Dr. Bandeira, já falecido), aquele médico indicou-lhe o uso do melado e rapadura, dizendo ser ótimo para as vistas. (Ruy brincou com a turma: o melado não é para ser pingado nos olhos e sim, para ser comido no prato, com angu, farinha, inhame, etc.).

Em Durandé (Manhumirim), em reunião com agricultores e suas esposas, convocados pela supervisora da EMATER para o assunto melado, o Sr. Horácio Henrique Moreira fez um relato do acontecimento na propriedade do Sr. José Emerick, em Martins Soares. Contou e uma família muito pobre foi morar lá Todos estavam opilados, amarelos e fracos.

O serviço deles foi no engenho e na tacha de fabricação de rapadura e açúcar mascavo. Dentro de poucos meses todos se espantaram com a pronta recuperação dos membros da família.

Indiscutivelmente foi o intenso uso dos subprodutos da cana, em forma de puxa, melado, rapas de tacha e da própria garapa, que promoveu tão acentuada recuperação na saúde daquela família.

O Sr. Horácio disse que naquela ocasião este fato ficou marcado com “fato histórico” em toda essa região. E, já no inicio deste ano de 1984, o prefeito de Caparaó, Sr. Antônio Xavier (Lico), disse em presença de várias pessoas de Belo Horizonte e Carangola, que ele e seus oito irmãos, bem como seus nove filhos, gozam todos de ótima saúde – fato que ele sempre atribuiu ao antigo habito alimentar do uso exclusivo de adoçantes produzidos na fazenda (melado, garapa, rapadura etc.).

Contou ele, que as crianças iam quase sempre dormir, chupando rapadura e era comum encontrar fragmentos da mesma debaixo dos travesseiros.

Mas, não é somente para GENTE que o MELADO é bom. Perto de Lajinha, o fazendeiro Newton Gomes (Tim, filho do conhecido agricultor Juventino de Paula Gomes), afirmou que sempre cura animais aguados (cavalos e muares) somente com rapadura e fubá – que é um tradicional remédio de uso corrente em toda a região, fazendo engordar e assentar o pelo.

Já em Presidente Soares (Alto Jequitibá), o afamado aviador e fazendeiro MAGALHÃES conta que recebeu de presente uma cadela de raça, boa de caça, de quem desejava tirar “crias”. O animal estava muito derrubado e todos diziam que iria morrer mesmo. Alguém lhe indicou o trato com RAPADURA E ANGU.

Dentro de pouco tempo a cadela estava totalmente restabelecida. E, D. Nair Satil, viúva do Sr. Gustavo Emerick, de Manhumirim, afirma já ter curado muitos cães portadores da “Peste de Sangue”, apenas com trato de rapadura, fornecida à vontade, ao cachorro. (A Peste de Sangue é uma doença de vírus muito disseminada no Brasil. O sangue fica “aguado” e pinga pelas orelhas, levando o cão à morte logo a seguir).

Os nomes e os locais acima citados, comprovam seja com recomendação médica ou mesmo empiricamente, que o uso do melado ou rapadura é eficiente na cura de doenças dos nervos, do fígado, das vistas, de anemia, etc., além de sua utilidade vantajosa no tratamento de animais…

VOLTA AO NATURAL

Existe hoje uma grande onda contra a poluição, visando a volta ao verde, à defesa da ecologia, como também ao consumo de alimentos naturais. O retorno ao consumo da rapadura, melado etc. poderá tornar-se uma realidade em face de três simples motivos:

1- Por tratar-se de alimentos e também, ao mesmo tempo, de remédio;

2- Pela viabilidade de custo mais baixo do que o açúcar convencional;

3- Pela possibilidade de se mecanizar a produção através dos pequenos produtores rurais, sendo a cana, a cultura mais produtiva e de mais fácil trato existente, que ajuda no controle da erosão e na conservação do solo.

A PRODUÇÃO

Antigamente era muito grande o sacrifício para a elaboração desses produtos, com uso de bois ou animais para transportar e moer toda a cana, tendo como consequência uma baixa produtividade HOMEM/HORA, no produto final. Hoje, no entanto, o quadro é diferente.

Caminhões, tratores ou outros veículos, transportam a cana. Motores diversos acionam as moendas do engenho, obtendo maior velocidade e mais rendimento na produção. E, o principal, é que esses implementos já existem na propriedade (unidade de força própria ou eletrificação rural; motores elétricos ou à explosão usados em picadeira, moinho a martelo, máquinas de beneficiar café e cereais, etc.).

O combustível usado será o próprio bagaço da cana, sem falar na sobra do fogão, na hora de cozinhar o feijão (na produção caseira do melado para uso semanal, moendo a cana até mesmo em engenhoca manual, de ferro e engrenagem).

TECNOLOGIA

a) O MELADO é mais fácil de ser feito. Gasta menos energia e não utiliza muito vasilhame, nem pessoal especializado.

b) A RAPADURA exige tachas de cobre, gamelões de madeira, formas e outros acessórios diversos. Exige também mais força física para a mexedura e o conhecimento da hora exata de se dar o “ponto”.

c) O AÇÚCAR MASCAVO é de tecnologia mais restrita, contudo já dominada na região. Para seu depósito e conservação, usam-se grandes e grossos sacos plásticos (tipo embalagem de adubo químico), o que permite uma armazenagem em ótimas condições por mais de um ano, sem “melar” ou “azedar”.

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CONCLUSÕES

1- Ficou comprovado que o melado de cana é realmente muito bom, tanto para gente como para animais.

2- Utilizado como remédio, o melado tem custo desprezível, quando comparado ao preço de receitas médicas e os produtos farmacêuticos adquiridos em farmácias e drogarias. Portanto, é econômico.

3- Além de remédio, o melado é também ótimo e gostoso alimento, substituindo, com vantagens, às sobremesas de custo elevado e de pouco valor nutritivo (feitas com açúcar branco).

4- O melado, a rapadura, o açúcar mascavo e outros derivados da cana (substitutos adoçantes), podem ser produzidos no meio rural, em nível de produtores individuais, utilizando a força do trabalho familiar. Além disso, a cana se presta na ocupação de pequenas e descentralizadas áreas indefinidas ou abandonadas para outras culturas, e sempre com bons rendimentos, além de proteger o solo contra a erosão.

5- O elevado custo da produção do açúcar industrial, aliado aos encargos de frete, comercialização, estocagem, juros e, principalmente, ao corte dos SUBSÍDIOS pelo governo, recomenda uma campanha para o retorno dessa antiga elementar atividade “agroindustrial”, junto aos agricultores brasileiros.

(Texto: Ronald Gripp)

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