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Pobreza e Desemprego – Fome e Desnutrição

Introdução

O tema Pobreza e Desemprego tem merecido a atenção especial de estudiosos em sociologia, com vários livros publicados nos últimos anos apontando a eficiência da tecnologia como fator de crise crescente no mercado de trabalho em todo o mundo. Portanto, a mecanização moderna gerando miséria por substituir o trabalho humano pela máquina.

A revista Veja, de 17/01/96 numa entrevista como o sociólogo Herbert Gans, professor da Universidade de Columbia, em Nova York-USA, traz uma análise profunda do assunto, com o titulo “Pobreza tem solução”, sugerindo uma política contra a miséria, cita “ As chances de os pobres das sociedades pós-industriais vencerem a miséria sem ajuda de governo é a mesma que uma pessoa tem de erguer-se do chão puxando-se pelos cadarços do sapatos ”.

Apaixonado pela causa dos deserdados urbanos, cujas condições de vida ele estuda há décadas, Gans tem a qualidade de propor soluções para o problema que aponta. Um deles, é o desemprego, praga moderna que as novas tecnologias e a globalização da economia não podem, pelo menos por enquanto, aliviar. O que fazer? Em vez de sacar os velhos chavões contra o capitalismo, Hebert Gans sugere ao governo que tomem a iniciativa.

Como? Pedir às empresas numa época de competição acirrada que abram mais vagas é irracional. Empresários irracionais vão à falência. Os governos, no entanto, podem fazer muito. Podem adotar uma política industrial vigorosa com o objetivo de apoiar atividades que gerem empregos em massa.

Parece simples, mais é enorme novidade. No Brasil, sucessivos governos nos queimaram bilhões de dólares em setores, como o de computadores, que prometiam vencer a tecnologia estrangeira com dinheiro público. Resultou que o país não exporta computador nem para a África.

Só os governos podem fazer a diferença substantiva no combate à pobreza. É uma responsabilidade real numa época que aos pobres sobraram romantização da esquerda e as medidas punitivas da direita.

Perguntado sobre a filosofia do século XIX que o capitalismo, baseado na competição econômica e na sobrevivência dos mais aptos, acabaria com a pobreza e que um século depois a pobreza resiste em todo o mundo.

O que deu errado? e Gans responde: A política. Mesmo nas democracias mais perfeitas, os pobres não têm poder nem voz. Seus interesses são defendidos por românticos de esquerda ou por caridosos religiosos.

Ambos são bem intencionados mas sem eficácia e acabam produzindo estereótipos a respeito dos pobres. Isso contribui para aumentar o estigma que cerca as pessoas sem posses. Os mecanismos econômicos para eliminar a miséria existem e podem ser aplicados com sucesso desde que haja um consenso político nacional.

Em outro ponto da entrevista de Gans à Veja encontramos: “A derrota política dos pobres é tão grande que eles próprios se acabam convencendo de que são um peso para a comunidade e não merecem que os sacrifiquem por eles. Nos Estados Unidos, muitos acham que perderam o emprego porque não se esforçaram o suficiente.

E os pobres aparecem nos meios de comunicação, na literatura e até nos trabalhos acadêmicos estigmatizados, arredios às novas tecnologias e até criminosos. A imoralidade se tornou atributo da classe. Ninguém pode ser apenas simples e honradamente pobre.”

A pergunta da Veja – Sua ideia de promover uma política industrial que estimule apenas empresas que gerem empregos não provocaria atraso tecnológico e perda de competitividade, que a longo prazo, acabariam gerando mais desemprego no país?

Gans responde: Não estou propondo medidas que tenham impacto na saúde da economia como um todo. O que advogo é uma política governamental contra um único e grave problema: a pobreza.

As empresas de tecnologia de ponta sabem muito bem como enfrentar a competição de mercado e têm feito isso com bastante eficiência. O governo não precisa preocupar-se com elas.

O mercado cuida de selecionar as melhores. No meu programa para aliviar a pobreza, a sociedade e o governo usariam os instrumentos de que ainda dispõem para gerar mais empregos incentivando os setores industriais de mão de obra intensiva de modo que quem procure emprego o encontre.

Há que se ter o cuidado adicional de evitar a criação de arremedos de emprego, ocupações temporárias, mal pagas e humilhantes. É preciso que se ofereçam postos de trabalho cuja ocupação dê orgulho ao empregado.

Não há a perspectiva de um súbito crescimento da economia para assimilar os desempregados, e até agora os avanços da tecnologia acabaram com milhões de empregos mais acessíveis aos pobres”.

1) As Consequências da Desnutrição

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P.31 – Os advogados da nutrição têm buscado demonstrar que a desnutrição é o maior obstáculo a esforços mais amplos em direção ao desenvolvimento econômico. O ponto central de sua direção deriva de uma extrapolação para dimensões nacionais do efeito de deficiências nutricionais sobre o indivíduo.

A lógica é simples: a desnutrição, ao contribuir para a promoção da doença, para distúrbios da capacidade física e mental, e para uma menor esperança de vida, reduz o potencial produtivo do indivíduo e, consequentemente, um país com uma parte significativa de sua população desnutrida provavelmente terá uma capacidade produtiva nacional reduzida. Investimentos no sentido de melhorar os padrões nutricionais são portanto justificáveis não só em bases humanitárias e de bem-estar social, mas também como estimulantes para o crescimento econômico.

Outros gastos sociais atribuídos à desnutrição são a carga adicional colocada sobre os já sobrecarregados serviços de saúde e a eficiência reduzida dos sistemas educacionais.

Existe evidência sólida, embora de forma alguma conclusiva, indicando que a desnutrição precoce e severa interfere no aprendizado posterior, especialmente quando a desnutrição é acompanhada de outras privações, como é geralmente o caso.

Da mesma forma, foi demonstrado em vários países que crianças desnutridas são mais suscetíveis à doença e requerem hospitalização mais frequentemente e por períodos mais longos que crianças bem nutridas. E por esta razão se conclui que a redução da desnutrição aumentaria a eficiência e melhoraria a utilização de recursos em saúde e educação.

 2) Os Determinantes da Desnutrição

Os especialistas em nutrição têm dado atenção considerável à identificação dos determinantes do estado nutricional individual e familiar, geralmente concluindo que eles são complexos e variados e que a desnutrição é o resultado da interação de uma multiplicidade de variáveis ambientais, econômicas e sociais.

Em inúmeros estudos, o estado nutricional tem sido relacionado à renda e tamanho familiar, nível educacional dos pais, preços dos alimentos, o valor nutricional da alimentação disponível, crenças e costumes dos consumidores, e a disponibilidade de serviços e equipamentos de saúde.

 3) Soluções e Prescrições

Berg afirma que novas técnicas e tecnologias estão agora disponíveis aos governos para pesquisar caminhos mais fáceis em direção a uma nutrição substancialmente melhor e ao bem-estar de pessoas de rendas mais baixas e em menos tempo do que era previamente possível.

Outras autoridades em nutrição parecem ser menos otimistas (e mais realistas), mas seus trabalhos indicam que eles concordam que existem meios para melhorar de forma significativa os padrões nutricionais de países do Terceiro Mundo, sem alterar os padrões de crescimento econômico e desenvolvimento escolhidos ou sem introduzir mudanças fundamentais em arranjos políticos ou sociais naqueles países.

 4) Educação Nutricional

A hipótese básica da e educação nutricional é que padrões nutricionais melhorados poderiam ser alcançados se as pessoas utilizassem de melhor forma os recurso já disponíveis (isto é, e mudassem seu comportamento de uma maneira nutricionalmente benéfica).

A primeira tarefa para os analistas da nutrição, que ainda não foi cumprida satisfatoriamente, é a identificação precisa daquelas práticas e crenças que são prejudiciais à nutrição e à saúde, e que, ao menos primordialmente, poderiam ser modificadas, apesar das limitações impostas pela pobreza.

Por exemplo, contrariamente às suposições amplamente aceitas, a evidência parece sugerir que os podres utilizam seus orçamentos alimentares de formas nutricionalmente eficientes e que pouca melhoria se poderia esperar de mudanças nos hábitos de compra….

Finalmente, ainda há que ser demonstrado que campanhas educacionais são um meio efetivo de produzir mudanças ou alterações nos padrões de comportamento de grupo ou familiar. P. 33/41

5) As Causas da Fome

P. 48 – A fome como um premente problema global para a sobrevivência humana. A fome é uma das mais séries e óbvias manifestações da crise alimentar, a fome tornou-se quase inseparável da pobreza.

Ela é disseminada pelo mesmo mecanismos de mercado das mercadorias do mercado mundial. Clima desfavorável, inflação e mudanças de prioridades de investimentos nos países ricos, produtores de excedentes alimentares, afetam os pobres na periferia.

6) Fome como um sintoma de pobreza

P. 50 – A alimentação é uma necessidade humana básica e um direito humano básico. A necessidade de alimentar-se é evidente, assim, a maior parte das pessoas bem nutridas nunca pensa sobre ela.

A maior parte das sociedades de subsistências dirigem seus esforços para satisfazer esta necessidade antes de outras. A fome está intimamente relacionada à pobreza. Em verdade, a pobreza pode frequentemente ser medida pela prevalência da fome.

Mas fome não é equivalente a pobreza, na medida em que em alguns países as pessoas são pobres, mas não famintas.

Ao mesmo tempo, pobreza é muito mais que fome, tendo em vista que em alguns países as pessoas não só passam fome como também são privadas da maioria dos seus direitos humanos.

O estudo da fome revela alguns aspectos importantes da pobreza na sociedade e, portanto, precisa ser entendido dentro do contexto de uma teoria da sociedade.

Em Busca de uma Educação Nutricional Critica

P. 88 A necessidade que nos move em busca de uma educação nutricional crítica não é acadêmica, mas parte de um compromisso político de colocar nossa produção técnica e científica a serviço do fortalecimento das classes populares em sua luta contra a exploração que gera a fome/desnutrição.

Portanto, não nos pretendemos neutros, da mesma forma que não vemos a educação nutricional tradicional como neutra, por todas as razões já expostas. Assim, o que podemos fazer é enunciar alguns princípios básicos que devem nos orientar nesta busca e que, em grande parte, se baseiam no trabalho pioneiro de Saviani:”

A fome como um premente problema global para a sobrevivência humana

P 48 – A fome é uma das mais sérias e óbvias manifestações da crise mundial. Com as quebras dos mecanismos tradicionais locais de segurança alimentar, a fome tornou-se quase inseparável da pobreza. Ela é disseminada pelo mesmo mecanismo de mercado das mercadorias no mercado mundial. Clima desfavorável, inflação e mudança de prioridades de investimentos nos países ricos, produtores de excedentes alimentares, afetam os pobres na periferia.

Conceituação Teórica de Fome e Sociedade

P.50 – Definição de fome – Em todos os idiomas existe uma distinção entre o nome e o que é denominado. “Fome” é um nome que povos que falam inglês dão a uma situação o processo em realidade. Mas, em inglês, como provavelmente em todos os outros idiomas, existe muitos nomes dados a mesma situação ou processo.

Além do mais, traduzido em outros idiomas, fome pode significar muitas coisas diferentes. É importante, portanto, definir o uso da palavra fome. Neste trabalho ela significa a deterioração de estado de saúde e/ ou desempenho produtivo e social de indivíduos resultante de uma ingestão de alimentos ou em baixa qualidade ou do tipo errado, ou ambos.

O indivíduo pode ou não reconhecer a fome. Algumas pessoas afetadas pela fome se sentem famintas, outras não, porque se adaptam a uma ingestão alimentar mais baixa, reduzindo a atividade física. Em outros casos, uma falta de nutrientes específicos causa uma fome que não é sentida pelo individuo (desnutrição ou fome oculta).

Causas históricas

Imperialismo, colonialismo, neocolonialismo, escravidão, divisão de trabalho, leis de herança, religião, guerras, tecnologia, etc. Toda sociedade tem uma historia. A historia pode ser entendida como a interação entre a economia e política, ideologia, etc. Estas causas podem ser entendidas pela análise da sociedade em componentes:

Causas tecnológicas e ecológicas

Recursos naturais, clima, fertilidade do solo, know-how tecnológico. Estas são relacionadas às condições materiais e técnicas de produção (recursos potenciais).

Causas econômicas

Relações de propriedade, posse ou acesso a meios de produção, divisão de trabalho, estrutura de poder, imperialismo e neocolonialismo, exploração, etc. Estas são relacionadas às condições sociais de produção (estrutura econômica da sociedade).

Causas culturais e ideológicas

ideologia, religião, opiniões, concepções morais, crenças e hábitos, leis tradicionais, etc. Estas estão relacionadas à superestrutura da sociedade.

Causas políticas

Estrutura de poder, militar e política, a lei e as cortes, direitos democráticos, política fiscal, política de emprego, organização. Estas estão principalmente relacionadas à estrutura e função do Estado.

As Nações Unidas têm mantido o alívio da fome em sua agenda nos últimos vinte anos. Nas décadas de 50 e 60 a maior parte do trabalho era dirigido para o aumento da produção de alimentos, a redução do crescimento populacional e a promoção da teoria do efeito em cascata do crescimento econômico”.

Nota – O assunto da “Pobreza e Desemprego, Fome e Desnutrição “ teve como origem a transcrição de entrevista da revista “Veja” de 17-01-96 e do livro “Fome e Desnutrição” Editora Vortez, 1986 de vários autores organizado por Flavio Luiz Schieck Valente.

(28/02/1996) Ruy Gripp

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