Infraestrutura

Como Evitar as Inundações – Controle e Prevenção de Enchentes

Abaixo transcrevemos o artigo publicado em Seleções do Reader ’s Digest, em outubro de 1956 – a cerca de 40 anos atrás – com o título COMO EVITAR AS INUNDAÇÕES. É antigo, mas muito atual para nós brasileiros. Fundamenta a tese do Dr. Ary Lopes Ferreira, que já em seis artigos publicados em A Gazeta -Vitória -ES sobre a Bacia do Rio Doce aconselha buscarmos no Vale do Tenessee – USA a receita e o exemplo para salvarmos nossos rios, construindo represas e barragens rios acima, próximo das nascentes de cada afluente e sub-afluente do Rio Doce, visando reter as águas, e normalizar as vazões.

Somente assim, teremos água em abundância para energia elétrica, irrigação, piscicultura e lazer, uso doméstico e industrial, além de evitar os efeito destrutivos das enchentes nas cidades e no campo, Vejamos o que Peter Farb nos informa, nos aconselha e nos desperta hoje, escrito em 1956.

“Captar as gotas de chuva onde elas caem – eis um programa de controle que está economizando milhões de dólares com a prevenção de enchentes. Até 1950 poucas vias fluviais nos Estados Unidos tinham mais inundações, quilômetro por quilômetro, do que o Sandstone, um arroio a oeste de Oklahoma – numa média de nove inundações por ano.

Era tal a quantidade de terra que se desprendia dos barrancos e das encostas carcomidas pela erosão que o arroio subia cada ano uns l5 centímetros, e muitos lavradores se haviam mudado para zonas menos precárias. Quando o serviço de Conservação do Solo – Departamento do Ministério da Agricultura dos Estados Unidos – tornou público o seu propósito de sustar as enchentes, os antigos moradores do lugar receberam a notícia com ceticismo.

Mas o Serviço de Conservação do Solo (SCS) foi de opinião que os próprios métodos da natureza podiam contribuir para o objetivo visado. Partindo do princípio de que jamais se inventou um depósito de água mais eficiente do que um solo profundo e poroso, o SCS e 127 proprietários rurais da bacia do Sandstone traçaram planos com a finalidade de transformar a terra numa vasta esponja.

Os agricultores plantaram ervas de raízes profundas que canalizassem a água para reservatórios naturais subterrâneos. Recorreram depois à aradura de contorno e à rotação de cultivo, e construíram mais de 700 quilômetros de terra plenos. Para deter chuvas pesadas que o solo não absorveria, foi construída uma rede de pequenas represas de terra. O grande projeto consistia em “prender as gotas de chuva onde caíssem”.

No ano passado visitei o Sandstone, por ocasião de uma inspeção que o SCS fazia nas zonas de enchentes. A área acabava de ser encharcada por uma chuva de 280 milímetros, dois terços da que caíra durante todo o ano anterior. No entanto, o arroio Sandstone não só se conservou dentro de suas margens, mas as suas represas ainda seriam capazes de aguentar novo aguaceiro.

E que aconteceu a uma bacia fluvial não muito distante, parecida com a anterior, mas que não tinha recebido igual tratamento? Uma muralha de lama se estendera sobre as margens da corrente, danificando estradas e obrigando as pessoas a fugirem de suas casas.

Granjas próximas do Sandstone, outrora abandonadas, agora estão prosperando. A fauna voltou ao que era quase um deserto. A medida que desaparecia o problema das inundações, iam desaparecendo também as estiagens: o arroio que habitualmente secava a maior parte do ano, só voltando à atividade no tempo das cheias, agora tem sempre água. Os lavradores falaram-me em nascentes e poços reabastecidos, em água renovada para irrigação, em produção acrescida.

Num ano em que houve algumas das piores enchentes dos Estados Unidos estive em Sandstone e presenciei um fato simples: as inundações podem ser detidas eficaz e economicamente por meio de prevenção efetuada rio acima. É um método de eficácia comprovada há mais de 10 anos em terrenos plano ou acidentado, em áreas agrícolas ou urbanas.

A solução pelo método de prevenção a montante de um rio é tão diferente do sistema de represas grandes como a terra é diferente do concreto. Enquanto o SCS diminui as enchentes, represando rio acima e reduzindo assim as enchentes rio abaixo, o método de agir rio abaixo tenta controlar rios já entumescidos.

Além disso, é mais barato construir uma série de pequenas represas como as do SCS (cada uma delas cerca de 1 / 2.000 do tamanho de um dique, represa ou barragem rio abaixo) do que uma represa grande.

A colocação de obstáculos a montante de um rio é de interesse tanto para as cidades como para as áreas rurais. Grande parte da prosperidade industrial das cidades baseia-se na das zonas agrícolas limítrofes.

Se fossem construídos diques rio acima em terras devastadas e os lavradores pusessem em ação as melhores medidas de conservação, as enchentes seriam reduzidas a um mínimo sem o sacrifício d’ um único hectare de valiosa terra de plantio.

Quando surgem cidades em áreas outrora agrícolas, os problemas das enchentes frequentemente se agravam. Erguem-se fábricas e casarão em terras que outrora absorvia a água da chuva. As super estradas construídas pelo homem transformam-se em leitos de torrentes desgovernadas.

A prevenção de enchentes rio acima é algo que as cidades e a população rural de qualquer bacia podem fazer em seu benefício. A organização d’ um programa destinado a recolher as gotas de chuva onde caiam equivale a subtrair a água duma enchente potencial e colocá-la a serviço da coletividade. (Extraído de Seleções do Reader’ s Digest, outubro/56.)

Ruy Gripp – 06/11/98

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