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Reverendo ORLANDO SATHLER, Uma Legenda Em Minas Gerais

Cavalgando desconfortavelmente o paciente “ fariseu”, seu burro preferido ou, no seu velho jeep Willys, aos solavancos, lá vão reverendo Orlando realizar mais uma visita pastoral, vencendo resignado as esburacadas estradas da nossa querida Minas Gerais, poeirentas na seca ou lamacentas na época das chuvas… Não há como negar, ele foi uma figura legendária no leste e oeste de Minas.

Quem não conheceu o rev Orlando? …

Em 1.962, estava eu em São Borja, no extremo sudoeste do Rio Grande do Sul, atendendo a compromissos profissionais, quando fui compelido a procurar um dentista que me atendesse numa emergência. Entrei no primeiro consultório identificado pela placa, sentei e comecei a expor o meu problema. O dentista, por sua vez, escutava-me com atenção incomum, parecendo estar muito mais interessado no meu sotaque típico de mineiro ou a examinar-me, olhando de soslaio para os meus trajes, bastante diferentes naquelas paragens dos pampas gaúchos. De repente, fixando bem nos meus olhos e com toda expectativa da certeza, exclamou: “Já sei. Você é mineiro da Zona da Mata de Minas e é filho do Reverendo Orlando Sathler, da Lajinha, não? ” Era demais. Confirmei um tanto espantado…. Na conversa que se seguiu, descobri tratar-se de um membro da família Assunção, natural das bandas de Durandé, em Minas, assentado em São Borja por força da carreira militar.

Apesar de sua marcante presença, seus dados biográficos são pouco conhecidos do grande público que conviveu com ele. É chegada a hora de rememorar e destacar alguns detalhes marcantes de sua vida, reavivando sua personagem, retocando aqui e ali sua figura, a esta altura já entrando no ocaso para a maioria das pessoas. Não deixa de ser, também, uma excelente oportunidade para registrar aqui uma justa homenagem à memória do Reverendo Orlando, não só da parte de seus familiares, aliás bastante numerosos, como de seus verdadeiros amigos que não foram poucos.

Acontece que o Marcelo, seu genro-neto, decidiu registrar num opúsculo alguns de seus sermões mais notáveis, amealhados à duras penas, aqui e ali, com a ajuda de sua primogênita, a Professora Da. Yolanda Sathler Lage, esposa do Dr. Geraldino Roque Lage, residentes atualmente em Belo Horizonte. E, para introdução de sua obra, o Marcelo solicitou que um de seus filhos traçasse o perfil e uma biografia sintetizada do Reverendo Orlando. Ivens, seu quarto filho, foi o indicado e não tive como escapar. Assim, com mu8ito prazer, mas sentindo o peso da responsabilidade, vou tentar desincumbir-me desta tarefa. Entretanto, sou forçado a reconhecer de público que não possuo a técnica necessária para a elaboração de uma biografia capaz de retratar com fidelidade a alma humana. É tarefa para especialistas que possuem técnicas especiais para isto, as quais, decididamente, não possuo. Ademais, biografias sintetizadas, de um modo geral, mostram apenas traços superficiais que de maneira alguma retratam fielmente todo o perfil e personalidade do biografado. Entretanto, aqui e ali vamos mostrar pequenos exemplos e nuances da vida do Reverendo Orlando que permitirão aos leitores mais atentos e sensíveis, vislumbrar aspectos mais íntimos de seu caráter e de sua individualidade. Esta, é a nossa proposta. Colocadas essas ressalvas, vamos prosseguir.

A severa criação do “menino” Orlando…

Orlando Sathler, filho de Pedro Francisco Emerick Sathler e Deolinda Breder Sathler, descendentes de imigrantes alemães assentados em Friburgo-RJ no início do século retrasado, veio ao mundo a 31 de março de 1904, no interior do município de Manhuaçu, na localidade conhecida como “Onça”, hoje , creio eu, pertencente ao município de Reduto. Faleceu em Vitoria (ES), em 8 de outubro de 1.969, vítima de provável infecção hospitalar que se apossou de um organismo que desde algum tempo, se debilitava cada vez mais.

O ambiente familiar onde cresceu o pequeno Orlando era simples, decididamente cristão e direcionado com todo vigor para o trabalho da lavoura, para o qual nem as mulheres escapavam. A família se compunha dos pais, oito irmãs de um único irmão, o Tio Orcílio. O velho Pedro Sathler, dono de muitas propriedades e extensas lavouras de café, era o protótipo do homem severo. Honra não se discutia e a palavra empenhada era cumprida com todo o rigor, dispensando-se a papelada e até mesmo o fio do bigode. A cada vez que o pequeno Orlando, obedecendo aos precoces sinais de sua vocação, manifestava o desejo de continuar os estudos na cidade, o Velho Pedro retrucava asperamente: “não criei filho meu para virar vagabundo na cidade”. Mas o Orlando sem responder, não se conformava. Também não perdia tempo. Lia tudo que lhe caia nas mãos num tempo de poucos livros. E para não fugir à regra, a Bíblia era a sua leitura favorita”.

“Leu-a e releu-a várias vezes. Daí, seguramente, emergiu a vocação sacerdotal. A noção de pecados era levado a extremos. Uma simples palavra “feia” naquele ambiente familiar, merecia severas reprimendas. Certa feita, o Orlando se encheu de coragem e foi reclamar para o pai que o Orcilio vinha lhe azucrinando a vida. “Papai dá um jeito no Orcilio, ele vive me fazendo pecar. ”

Afinal surgiu sua grande chance – o exército. Foi sorteado para servir em São João Del Rey, cidade mineira onde a atmosfera e o passado místico brotam de suas pedras e construções. Possivelmente este ambiente tenha consolidado sua decisão de se entregar totalmente a serviço de Deus. Contudo ainda não era hora, tinha que aguardar mais um pouco…. As obrigações do quartel inviabilizavam, no momento, a concretização do seu ideal. O seminário continuava sendo um sonho. Além do mais, já estava casado com D. Dionizia Heringer Machado e a primeira filha, a Prof. Yolanda, já estava chegando… O jeito foi apelar para o curso livre de Evangelista, mesmo porque era a maneira prática e natural, na época, para se chegar ao pastorado.

No exército chegou a sargento e participou da revolução de 30. As decepções com o desentendimento político que degeneraram na luta entre irmãos, feriram fundo sua sensibilidade e abalaram sua formação cristã, desestimulando-o de maneira definitiva a prosseguir na carreira militar. Sua decisão de dedicar sua vida totalmente a Jesus era, àquela altura, irreversível. Deu baixa do exército e se transferiu para Manhuaçu. Nos próximos anos, ao mesmo tempo em que pastoreava várias igrejas dos arredores, presta os exames finais para o ministério, sempre assessorado pelo experimentado e dedicado Reverendo Cicero Siqueira, a mola mestra de sua formação pastoral. E aí está o Reverendo Orlando Sathler pronto para empunhar sua nova arma – o evangelho, do qual não se afastaria até sua morte.

O reverendo, seu lado humano e… familiar.

Todavia, ao falar do Reverendo Orlando, mesmo na posição de filhos, não vamos nos deixar levar somente pela emoção e pelo sentimentalismo. Ele era um ser humano, longe, claro de ser um santo. Eu diria que ele era um “iluminado”. Teve seus pequenos e desculpáveis defeitos. Talvez tenha tido até grades pecados, quem sabe, embora eu os desconheça. No âmbito familiar,por exemplo, pode se dizer que ele não foi um super-pai. A título de ilustração, vale citar o episódio do “carona”. Certa feita, íamos de Laranja da Terra para Lajinha, divisa do Espirito Santo com Minas. Eu dirigia o jipe que, àquela altura já estava superlotado de caronas que vinham sendo recolhidos ao longo do caminho. Mais parecia a cópia daqueles concursos mostrados na televisão para ver quantas pessoas cabem num carro. Faltava um ou dois quilômetros para chegarmos ao destino quando papai avistou um velhinho, com um picuá nas costas, que se dirigia a pé para a cidade. Pensei comigo: esse não escapa…. Não houve dúvidas. Pediu-me que parasse o carro e la veio aquele famoso dialogo: Amigo, para onde o Sr vai? O senhor deve estar muito cansado, não? Olhou para mim dispensando palavras. Tentei retrucar – papai, aqui não tem mais lugar nem para pensamento lubrificado…. Não faz mal. Você, Ivens, é jovem cheio de vida e pode andar quilômetros e quilômetros a pé, eu dirijo daqui para a frente, e você vai andando… e assim vai sobrar um lugarzinho para o amigo aqui que está muito cansado, concorda? …

Fizemos muitas viagens juntos. A cavalo, de carro, a pé… nestas ocasiões tivemos muitas oportunidades e ambiente favorável pra bons papos, diálogos e muita reflexão sobre a vida. Muitas lições e conselhos foram dados e acatados. Nem sempre de imediato. Alguns deles exigiram anos para serem seguidos. Exemplo – só parei de fumar depois da morte de papai. Ele me pedia sempre parar com isto. Isto é o “rabinho de Satanás”. As vezes sinto que ele ainda me aconselha e me guia…

As constantes viagens, os apertos financeiros, próprios de um pastor presbiteriano á moda antiga, as frequentes ausências da família onde absorvia os aborrecimentos cotidianos e normais, e outras coisas mais, foram deixando o reverendo Orlando angustiado e creio que, nos últimos tempos, um tanto aborrecido, irritado e com certa tristeza no coração. Penso que ele tendia sempre para um excesso de severidade, talvez resquícios de sua criação. Nem tanto quanto o Velho Pedro, mas, ainda assim, severo. Dificilmente dialogava ou se aproximava dos filhos na tentativa de conhecê-los melhor. Não ensinaram isto para ele, não era sua maneira de ser e, pronto. Sua preocupação maior era com Cristo, representado pela Igreja. Tudo o mais era secundário, assim penso eu.

Voltemos mais um pouco ao passado do reverendo. A morte prematura de D. Dionísia, sua primeira esposa, nossa mãe, em consequência de complicações pós-parto, por ocasião do nascimento do Cícero, (aliás, o único que seguiria a carreira do pai), aliado ao fato de que os cinco filhos menores, ficaram espalhado por algum tempo entre parentes e amigos, deixaram o reverendo Orlando desnorteado e com sua estrutura abalada por algum tempo. Assim não dá para continuar, pensava ele. Tinha que decidir rápido por uma companheira. E Deus, na sua misericórdia, atendendo suas necessidades, enviou-lhe Dona Aulina Souza, que o ajudou muitíssimos a continuar e educar os enteados e os filhos que vieram a seguir (sete ao todo e pela ordem: Zoé, Volmer, Oscar. Orlando, Cinira, Aulina, Darlan e Jussara, além do Pedro Paulo, adotivo). Mais ainda, Dona Aulina teve uma atuação altamente significativa no enriquecimento da vida pastoral do Reverendo Orlando. Ela foi uma companheira fiel e dedicada até o fim. Ela sobreviveu a ele por muitos anos, vindo a falecer em 2002, em Vila Velha (ES), sempre rodeada carinhosamente pelos filhos e enteados que a consideravam como mãe. Mas ao Reverendo Orlando. A morte da primeira esposa, o novo casamento, a enxurrada de novos filhos, novas obrigações, maiores preocupações, deslocamentos contínuos, longas ausências do lar, os problemas rotineiros trazidos pela vida familiar, os aborrecimentos no seio da Igreja, aumentaram seu enfado e um certo ar de tristeza e melancolia se abateram sobre o Reverendo Orlando, e só percebidos por aqueles que mais de perto conviviam com ele. ”

“Aliás, sua vida nunca tinha sido um mar de rosas… Antes, em Manhumirim, bem no início de seu pastorado, já havia enfrentado a oposição dos fanáticos seguidores do Pe. Júlio Maria…, em Formiga, no Oeste mineiro, cidade de forte tradição católica romana, também não lhe deram tréguas… A certa altura, sustenta uma polêmica por escrito com o clero local, originando um folheto intitulado “Porque sou Protestante”, distribuído por toda a cidade e, se não me falha a memória, reproduzido por jornal da cidade, que botou mais lenha na fogueira… Isto acirrou bastante os ânimos dos fanáticos. Nesta cidade, algumas vezes a pregação tinha de ser interrompida porque a igreja estava sendo apedrejada… E vidros estilhaçados fazem muito barulho…. Assim, é de se supor que o clima para Papai não melhorou em nada…. Em compensação, deixou por lá incontáveis amigos, citando, sem esquecer os demais, o Sr. Franklim Simões (Nhô, de Pains), que foi para ele mais do que amigo, foi um verdadeiro irmão, também, Sr. Carlo Boffa, toda a Família Albergaria (Formiga), etc, etc.

No Oeste de Minas, pastoreou igrejas em Luz, Pains, Iguatama, Piui, Aros, Itapecerica e muitas outras cujo nome não me ocorrem no momento. Regressou de Formiga para Manhuaçu, se não me engano, no final da guerra, em 1945 e, a seguir, transferiu-se para Lajinha em 1947, onde conheceu momentos de grande felicidade e realização pessoal, mas, também momentos de angustia e preocupação.

Sempre inquieto e sentindo-se no dever de dar sua contribuição política, consentiu em se candidatar a vereador pelo município de Lajinha pela legenda da antiga UDN. Eleito o vereador mais votado, é guindado a presidência da câmara daquele município entre 48 e 52. Imprimiu nova dinâmica de trabalho e de organização à prefeitura local tornando-se, daí em diante, inseparável amigo do saudoso Prefeito Dr. Adalmário José dos Santos, um dos médicos mais humanitários e ais competentes daquela região a quem rendemos, aqui, um peito de gratidão. Colaborou decididamente na elaboração e implantação do plano piloto da cidade de Lajinha. Compareceu a inúmeros comícios em prol a candidatura do Brigadeiro Eduardo Gomes, deixado com seus vibrantes discursos sua marca indiscutível naquela memorável campanha. Na ocasião, chegam a sondá-lo como possível candidato a deputado á Assembleia Legislativa Estadual. A partir daí, surgem seus primeiros adversários, mesmo entre parentes e irmãos de fé. Mas, o Reverendo Orlando tinha atitudes imprevisíveis. Assim como entrou na política, saiu. Após intima reflexão, abandona a trilha política e se volta integralmente para o seu pastorado.

Os sermões do Reverendo Orlando eram muito bem preparados, bem estruturados ele os recheava com ilustrações que prendiam a atenção do auditório. Ninguém se esquecia de um sermão seu. Por volta de 53, atendendo a um pedido do Presbitério de Vitoria, assume o pastorado da 1º Igreja presbiteriana de Vitoria, dotando-a, inclusive, de sua nova sede, a rua 7 de Setembro.

Seus sermões passam a ser retransmitidos pela rádio Vitoria, sendo sua palavra ouvida na Zona da mata, Vale do rio doce etc. Sua fama de notável orador sacro se espalha. Passa a atender convites de pregações de várias Igrejas das regiões atingidas pela sua palavra, ocupando-o cada vez mais e privando-o ainda mais de um maior convívio com a família. Arriscariam de dizer que a esta altura era chegada seu apogeu.

A partir daí divergências com alguns membros da igreja de Vitoria, alguns deles sabidamente despidos do verdadeiro espírito cristão, o fazem submergir em grande tristeza. Por outro lado, prestigiado pelo homem simples do interior, com os quais se deu muito bem, tem dificuldades, algumas vezes, em tratar ou aceitar as maldosas manipulações de determinadas “raposas” das grandes cidades. Este tipo de polêmica o constrange profundamente. Decide voltar a Minas. Entretanto, a família já estava radicada em Vitoria onde os filhos maiores já estão encaminhados, trabalhando ou estudando. A família fica dividida, parte volta para Manhumirim e a outra permanece na capital capixaba. Sem dúvida, esta mudança cercada de circunstâncias tão especiais abalou o ego do Reverendo Orlando, pois ficou a sensação de diminuição de suas atividades e funções. Nunca confessou, mas esta, sem dúvida, foi outra de suas resoluções imprevisíveis.

A idade começa a pesar nos seus ombros. Uma série de acontecimentos ligados aos anteriores aprofundam sua melancolia. Sente que suas forças estão se esvaindo. A doença não demora a se apoderar dele. É internado em um hospital em Vitoria. Morre cercado do carinho dos familiares e tem um enterro apoteótico em Vitoria onde acorreram caravanas religiosas e políticas dos diferentes municípios onde pastoreou.

A vida do Reverendo Orlando foi uma árvore frondosa que deu muitos frutos. Sua obra agradou ao Senhor que agora o tem e para o Qual ainda trabalha.

Agradecemos a Deus o privilégio de ter tido o Reverendo Orlando Sathler como nosso Pai, Nosso mestre e Grande Conselheiro. A ele a imorredoura saudade de seus familiares, e, em particular do seu filho. (IVENS SATHLER). ”

Nota – Assim concluímos a transcrição do histórico da vida do Reverendo Orlando Sathler, recebida por Roberto Gripp em julho/2012 do seu colega de faculdade, de profissão, amigo e parente Ivens Sathler).

Ruy Gripp- 08-08-12

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