Artigos de Livros

Por Que Escolher O Eucalipto Para Reflorestamento

No livro “O Eucalipto” de Edmundo Navarro de Andrade (1881- 1942) editado em 1939, com 2ª Edição de 1961, revisto e atualizado pelo corpo técnico do Serviço Florestal da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, obra com 660 páginas, na p. 11 a 16 transcrito abaixo o autor explica PORQUE ESCOLHEU O EUCALIPTO para o reflorestamento na Companhia Paulista quando na flora brasileira existiam famosas e numerosas madeiras de lei? Vejamos:

“Enquanto estudava o assunto de reflorestamento, incansável, tenaz, dinâmico como sempre fora em toda a vida, NAVARRO, instado pelo seu ex-professor de silvicultura, Cardoso de Menezes, aceitou a incumbência que lhe dava o governo português de completar o trabalho que o eminente Patriarca da nossa independência, José Bonifácio, havia apresentado, em 1.813, à Academia de Ciências de Lisboa, sobre o meio de combate às dunas.

Assim, foi publicado, em 1.904, seu primeiro trabalho em livro, “Dunas”, que serviu igualmente para a sua tese de doutoramento. Pela excelência deste trabalho, o governo português houve por bem agraciá-lo com a Comenda de Cavaleiro da Ordem de Cristo, a qual lhe foi entregue pelo então Rei de Portugal.

Navarro foi sempre, por inúmeras pessoas, interrogado porque motivo escolheu para o reflorestamento na Companhia Paulista o gênero “Eucaliptus”, quando na flora brasileira existiam famosas e numerosas madeiras de lei. Em resposta, disse ele:

“Ao assumir o cargo, meu primeiro cuidado foi plantar o maior número possível de espécies indígenas e exóticas, com o propósito de experimenta-las com o máximo rigor científico possível. Durante cinco anos, sozinho e sem publicidade, dediquei-me a essa tarefa, realizando uma considerável série de experiências, estabelecendo sementeiras em um grande número de culturas experimentais. Entre as árvores que foram experimentadas existiam algumas espécies de eucaliptos, cujas sementes eu trouxera de Portugal e outras coletadas em árvores plantadas em São Paulo e utilizadas, principalmente , como árvores de abrigo, quebra-ventos ou ornamentais.

Durante muito tempo me impressionou o crescimento extremamente vagaroso de quase todas as árvores brasileiras, especialmente as mais famosas pela sua madeira. Era crença geral de que quanto mais lento o crescimento de uma árvore, melhor a sua madeira. Uma ideia, como muitas outras, completamente desmentida pelo eucalipto.

Se o meu trabalho se cingisse a um simples reflorestamento para cobrir solos pobres ou incultos, ou fosse limitado à criação de maciços protetores, ou, ainda, se tivesse de me restringir a trabalhos oficiais de ilimitada duração , o desenvolvimento vagaroso das árvores brasileiras não teria sido obstáculo. No entanto, o trabalho deveria ser executado para uma companhia particular, que tinha como escopo criar florestas capazes de fornecerem definidos e determinados produtos, em períodos não longos, mas de duração econômica.

Não seria possível , nem razoável, para uma companhia de estrada de ferro, que iria daí a poucos anos necessitar de madeira para combustível, estacas, toras, postes e dormentes, plantar árvores cuja utilização poderia somente ser feita um século depois. Seis anos de pacientes estudos e de trabalhos penosos foram necessários para chegar a conclusões aceitáveis, sempre com receio de tomar resoluções precipitadas em um campo da agricultura – silvicultura – no qual o tempo é medido por décadas e no qual a vida das árvores é contada por séculos.

Foi isto o que me levou a propor à Companhia Paulista a expansão do seu campo de ação e experiências, realizando a cultura de talhões experimentais em larga escala, iniciando plantações de algumas espécies que me pareciam favoráveis.

Provado com exuberância que o eucalipto era, indiscutivelmente, a essência que melhores resultados apresentava, adquire, em 1.909, a Companhia Paulista, cerca de 1.000 alqueires de terras em Rio Claro, para aumentar as suas plantações, instalando, NAVARRO, neste Horto, a sede do Serviço .

Começaram então, a surgir de todos os lados os inimigos do eucalipto. Tudo se disse, tudo foi rebuscado, tudo foi assacado contra a maravilhosa essência: que não prestava para nada, que sua lenha não produzia calorias e que a combustão das suas toras asfixiava os maquinistas, que entupia a grelha das fornalhas, que na distância plantada a Paulista estava formando grandes florestas de cabos de vassoura, que não se devia plantar uma essência exótica quando havia tantas outras nacionais ótimas ,etc, etc.

Pelos jornais e de viva voz, NAVARRO rebateu as invectivas e, enquanto isto fazia, trabalhava. Estudou o eucalipto sob todas as formas imagináveis. Montou ensaios de aclimatação, observou modalidades de semeadura, o comportamento das mudas no viveiro, criou coleções de espécies, das quais conseguiu reunir nada menos de 150; estudou o comportamento de cada uma em relação aos vários tipos de solo ; observou sua resistência às temperaturas e às secas e assim foi aumentando sempre o cabedal de conhecimento acerca da árvore australiana.

Publicou, em 1.909, o seu primeiro livro sobre a “Cultura do Eucalipto”, no qual transmite todas as observações e estudos feitos relativamente ao seu cultivo . Mas de quando em vez, o incansável lutador interrompia os seus trabalhos , viajando pelo mundo afora, e em 1.918, enquanto ultima a publicação do seu “Os Eucaliptos, sua Cultura e Exploração, estabelece mais dois hortos, em Sumaré e Cordeirópolis, vai arrumando as malas para uma outra viagem ao estrangeiro, visitando novamente os Estados Unidos, e percorrendo Cuba, Hawaí, Japão, Malásia, Ceilão, Índia, Java, China e África do Sul .

Em 1.921, iniciou a Companhia Paulista, por proposta do grande engenheiro Francisco de Monlevade, os estudos para eletrificação de suas linhas, e surgiu, então, a necessidade de postes. Como, nessa época, existiam poucos eucaliptos com as dimensões requeridas para esse fim, foi realizada, com eucaliptos de 15 anos de idade, uma prova experimental, cotejando-o com a nossa essência clássica para postes – o guarantã.

Desse ensaio, realizado em Jundiaí, os eucaliptos saíram-se galhardamente, muita além da expectativa, pois, enquanto o guarantã, colocado no dinamômetro, partia-se com uma carga de 2.790 quilos, o eucalipto TERETICORNIS resistiu até 6.517 quilos. Revela notar que o guarantã tinha 150 anos de idade, exatamente , portanto 10 vezes mais idade que o eucalipto. A vitória foi tão estrondosa que o Dr. Monlvade, homem culto, nobre e sincero, daí por diante passou a ser grande defensor dos eucaliptos.

Foram, então, colocados nas linhas TROLEY da Companhia Paulista, do quilômetro 4 aos quilômetros 9.203, postes de eucaliptos de 15 anos de idade , de várias espécies, cuja duração média foi de 10 anos, sem tratamento preservativo algum, sendo o último poste retirado com 20 anos e 10 meses de serviço.

Vai então à França, entra pela Itália a dentro, ruma para a Grécia, para a Turquia, para a Palestina, visita o Cairo e detém-se diante das pirâmides do Egito. Volta, pára em alguns pontos da Algéria, vai a Gibraltar e de lá a Lisboa, onde toma o Cap Polônio para regressar ao Brasil. Em todas estas viagens, a preocupação máxima de NAVARRO foi visitar plantações de eucaliptos, onde quer que elas existissem, por menores que fossem, inteirando-se de tudo o que pudesse se relacionar com a cultura da essência australiana.”

Das informações acima, reproduzidas das p. 11 a 16, de O Eucalipto, 2ª Edição, 1.961 , onde encontramos a obra extraordinária deste ilustre paulista que estudou o eucalipto no mundo inteiro, trazendo para nosso país as melhores variedades, aqui obtendo outras tantas por cruzamentos , seleção e melhoramento através de pesquisas e experimentos, vemos o quanto Edmundo Navarro e Andrade foi útil ao Brasil, um verdadeiro benfeitor da pátria.

Não sabemos se o Eucalipto esta oficialmente incluído na relação das madeiras de lei no Brasil. Mas propomos que lhe seja dado o título de Rei das Madeiras de Lei, visto a sua atual importância econômica, seu pujante crescimento, sua majestosa altura e ser PAU PARA TODA OBRA, para todo tipo de clima e toda variedade de solo, desde que escolhida a variedade apropriada a cada caso.

            Ruy  Gripp  –  12/08/98

Posts Relacionados

Deixe uma resposta