Curiosidades

Criança do Passado x Criança do Presente

Na “Coop Revista”, revista mensal da Cooperativa de Consumo do ABC de São Paulo (Santo André, São Bernardo e São Caetano) e outras dezenas de cidades de São Paulo, encontramos o artigo da crônica abaixo transcrito de Lucia Sauerbronn com o titulo “Assim Caminha a Humanidade”.

Revista editada em 05-04-2005, portanto a cerca de dez anos, com tiragem de 150 mil exemplares. Dado a beleza e a importância histórica do assunto, comparando a vida do campo e do meio rural com o sistema atual da vida nas grandes cidades, resolvemos transcrever na integra o assunto, dando a oportunidade de vários outros terem conhecimento da realidade atual comparado com um passado distante. Assim, temos:

“Criança da cidade grande nunca subiu em abacateiro, catou jabuticaba do tronco, chupou manga no pé. Não conhece o sabor da uva, o cheiro da goiaba verde, nem a alegria de encontrar um pé de morango silvestre. Não mordeu caule de azedinha e erva doce ou fez coleção de pedrinha. Não sabe a diferença entre sabiá e beija-flor, borboleta e mariposa, palmeira e jatobá. Nunca pescou tilápia no lago, nadou pelado no rio, tomou banho de cachoeira.

No século passado criança, bicho e planta tinham uma natureza só. Crescer saudável era levar picada de abelha, mordida de cachorro, queimadura de taturana, tirar carrapato, espinho e bicho de pé. Fugir de enxame de abelha, esbarrar em urtiga, coçar mordida de mutuca, pisar em formigueiro e caco de vidro, ralar perna e joelho, arrancar farpa da mão e a tampa do dedão. Chafurdar na lama e escorregar em monte de estrume.

As maiores delícias da infância eram: correr descalço na tempestade, chupar cana, comer rapadura, quebra-queixo, machadinha, maçã de amor, chupeta de açúcar e pé de moleque.

Crianças de antigamente nunca fez terapia. Tinha medo de sapo boi, aranha, cobra, morcego e escorpião quando saia para caçar vagalume no meio da escuridão. E também de lobisomem, assombração, chupa-cabra, mula sem cabeça, do canto de coruja e de cachorro uivando pra lua.

Muita criança de hoje, crescendo em cidade grande, tem medo de galinha. Nunca montou num cavalo, alimentou criação, ordenhou cabra, viu nascer bezerro, nem matar porco. Acha que leite dá em caixinha, existe fabrica de ovos, e suco já vem em pó. Não quer saber de bicicleta, prefere passear no shopping. Mas não podemos culpá-las .

Nos que aprendemos a ser bicho do mato até em terrenos baldios, privamos nossos filhos das delicias de ser a criança que fomos: as gerações adultas dos últimos 50 anos degradaram dois terços da natureza.Em nome do progresso, transformamos florestas em lavouras de pastagens, mudamos o curso dos rios, implantamos hidrelétricas, rasgamos estradas, construímos grandes cidades, erigimos prédios e fabricas, asfaltamos ruas, sujamos rios, espantamos passarinhos, dizimamos animais.

Para gerar riqueza e crescimento, poluímos a terra, a água e o ar. Também não conseguimos fazer uma boa distribuição de renda. Nossos filhos pagam o preço, obrigados a se proteger atrás das grades de casas, apartamentos e condomínios horizontais. Se a intenção era boa, o resultado não foi dos melhores.

É claro que você e eu podemos barrar o curso das coisas. Assim caminha a humanidade. Mas não se espante se seu filho aparecer em casa com um discurso em defesa da floresta, da preservação da água doce e dos animais em extinção. Ele provavelmente descobriu pela internet que nem tudo no mundo é artificial.

Se ele pedir para separar o lixo reciclável, colabore. Aceite quando ele recomendar que não jogue papel no chão nem deixe a torneira aberta enquanto escova os seus dentes. Ajude o ecossistema quebrando o cimento estéril do seu quintal. Plante uma árvore. Se você mora em apartamento, cultive um vaso de flor, mantenha restos de frutas na varanda para atrair passarinho, pendure na janela um bebedor de água com açúcar para alimentar colibri.

criançaAh! E não reclame do videogame do seu filho, nem diga a ele que infância de verdade foi a que você teve. Cada um vive seu tempo. E escreve a própria história.

Nota

Transcrito da crônica citada, da revista Coop Revista, de 05-04-2005.

                                                                                                Ruy Gripp- 22-02-2015.

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