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Estudo Completo Sobre O Cultivo Da Lichia

A necessidade de alternativas agrícolas para a cultura cafeeira da região

A monocultura de café foi a responsável, durante mais de cem anos, pelo desenvolvimento da nossa região. Entretanto cria periódicas dificuldades financeiras para a maioria dos pequenos e médios produtores em função das crises de mercado para o produto. E essas crises vêm se agravando. Atualmente, a crise está atrelada à super produção mundial de café.

A maior procura do mercado atual é pelo café de melhor qualidade que atinge maior cotação. Entretanto, a maioria dos pequenos produtores da nossa região, produz café do tipo Rio e a sua receita mal dá (quando dá) para a manutenção da sua família, em detrimento da própria lavoura. A saída desta situação está na diversificação da nossa produção rural.

A Associação de Produtores Rurais de Alto Jequitibá (APRAJE), recentemente reativada tem, entre os seus principais propósitos, a melhora da economia do associado e do município, acessando novos mercados e criando novas oportunidades para outras culturas. Lavouras de curto ciclo e a fruticultura em geral deverão ser fomentadas. A fruticultura, entretanto é uma atividade que necessita de uma estrutura de organização adequada, mais complexa que a cafeicultura.

Por ser produto perecível, há necessidade de coordenação das atividades de colheita, embalagem e venda. O agricultor deve dispor, no período de safra, de volumes para cargas semanais e eficiência na comercialização. Além disso, o produto deverá apresentar condições próprias para o consumo, implicando isto em tratamento correto da cultura e manuseio adequado das frutas. A fruticultura exige algum investimento, de forma que produtores descapitalizados dificilmente conseguirão sucesso.

Dentre as fruteiras de hábito arbóreo, a Lichia desponta como forte candidata potencial como cultura alternativa para o café em nossa região.

A abertura de mercado comprador em CEASAS, como a de Caratinga e/ou Cachoeiro de Itapemirim, distantes cerca de 115 km e 175 km, respectivamente, de Alto Jequitibá, ampliará os contatos com atacadistas e grandes mercados, de forma que produtos de qualidade e/ou com elevado valor agregado possam atingir regiões muito mais distantes, como o Rio de Janeiro e São Paulo. Em visitas recentes aos CEASA de Caratinga, MG e de Cachoeiro de Itapemirim, ES, soubemos que nesses centros de abastecimento ainda não há comércio da Lichia. Também não há produtor da fruta nas regiões de abrangências dessas CEASAS.

Os nossos grandes mercados compradores de Lichia são o Rio de Janeiro e São Paulo e outras grandes capitais. Até o presente momento, o mercado está em expansão e supermercados como o Hortifruti, Pão de Açúcar, Carrefour e outros, são compradores de grandes quantidades da fruta, e não atingiram os pontos de saturação. Pelo contrário, o que é produzido é procurado por esses e outros grupos compradores.

O Rancho Chedas em Mutum, possui cerca de 300 pés de Lichia, com 200 pés novos (cerca de 9-10 anos) em produção. Descarrega toda a sua safra na CEASA de Vitória, onde há compradores que individualmente, compram toda a produção e a levam principalmente para o Rio e São Paulo. Segundo o informante, o mercado está aberto para o produto, entretanto, há cerca de seis (6) anos ninguém naquela CEASA conhecia a fruta. O mercado sofreu grande e rápida expansão.

Fresh lychee

A Lichia é, no entanto, uma fruta que após a colheita, mantém a sua coloração vermelha, atrativa para o consumidor, em condições ambientes, no máximo por uns 5-7 dias (segundo alguns de 3 a 5 dias), exigindo, portanto, organização do produtor de maneira que a colheita ocorra de forma sincronizada com as operações de embalagem e transporte até o atacadista comprador.

A criação de uma Cooperativa de Produtores de Lichia, como um apêndice da APRAJE, é uma proposta interessante para garantir quantidade e qualidade de produto no seu período de safra, transformando a nossa região em um pólo produtor dessa excelente fruta com grande potencial de mercado, e gerando alternativa econômica para a lavoura cafeeira.

Informações gerais e resumidas sobre a fruteira e a fruta:

Litchi Sonn.: Gênero monoespecífico de árvores frutificas asiáticas. Pertence à família Sapindaceae, a mesma da Pitomba (Talisia esculenta Radlk.), do temido cipó Timbó (Serjania lethalis A.St.-Hil.), da árvore Tiguí que também é tóxica (Magonia pubescens A.St.-Hil.), do Guaraná (Paullinia cupana Kunth, var. sorbilis Ducke), e outras plantas bem conhecidas popularmente.

lichia

Litchi chinensis Lam.. = L. sinensis Sonnerat. Lichia, Lichieira. Árvore de 8-10 m de altura, frondosa de folhagem densa e copa arredondada, que pelo porte, lembra uma mangueira. Folhas compostas, paripenadas, com três pares de folíolos com ápices agudos de 10-15 cm x 3,5-5,5 cm, glabros, lustrosos. Flores em panículas terminais. Frutos globulares, de 3-4 cm de diâmetro, aromáticos, produzidos em cachos nos extremos dos ramos do ano.

Casca coriácea, áspera, quebradiça, vermelha passando ao castanho-escuro quando muito madura. A polpa ou arilo é translúcida, sucosa, saborosa, envolvendo um caroço duro, grande escuro e brilhante. O sabor lembra o da uva moscatel. Algumas frutas, provenientes de flores não fecundadas, produzem sementes muito pequenas, enrugadas que não germinam. Entretanto, estes frutos com sementes abortadas produzem polpa desenvolvida.

A frutificação alterna ciclos de produção maior e menor a cada dois anos. A Lichia é considerada uma das melhores frutas do mundo e merecedora do título “rainha das frutas”. São consumidas ao natural ou como passas, sucos, compotas e como licores. A árvore em frutificação é muito bonita com seus frutos vermelhos em cachos em torno da copa. As aves procuram avidamente as frutas maduras.

A fruteira já era cultivada pelos chineses há mais de 4000 anos e foi introduzida em nosso país em 1810 como presente do imperador chinês a D. Pedro I e plantada no Jardim Botânico do Rio de Janeiro de onde migrou para outros locais e Estados, principalmente São Paulo. Entretanto, o cultivo em escala comercial é recente mas com rápida expansão, encontrando um crescente mercado consumidor.

As redes dos supermercados nacionais são as principais responsáveis pela divulgação da fruta em nosso país. Propaga-se por sementes, estaquia, mergulhia, enxertia (pouco usada) e alporquia, sendo que mudas de alporque são preferidas por frutificarem mais cedo, manterem as características da planta mãe e apresentarem um porte menor. As mudas de semente geram árvores mais altas, frutificam após 8-9 anos e, segundo a literatura, não são indicadas para formação de pomares por não garantirem a uniformidade dos frutos e frutificação, em decorrência das variações genéticas.

Há produtores que questionam estas informações e conseguiram com pomares produzidos à partir de sementes elevadas produções em tempos quase equivalentes aos citados para os alporques. Entretanto, este é um risco que, enquanto as informações são conflitantes, não vale a pena correr.

Mudas:

As mudas de enxerto geralmente produzem menos que as de alporque e às vezes apresentam problemas de incompatibilidade entre garfo e cavalo. Há diversas variedades destacando-se as Brewster e Bengal, sendo esta última muito produtiva e, a mais recomendada para as regiões nacionais mais frias. As plantas necessitam de um período de seca ou de frio antes da florada para uma boa produtividade. Em Mutum, MG., a florada ocorre no mês de julho ou agosto e a colheita ocorre cerca de 90-100 dias depois. Na opinião de alguns especialistas, “onde a manga vai bem, a Lichia emplaca”. É planta originária da China meridional.

Composição da polpa da fruta:

Segundo o Dicionário dos Alimentos, a fruta instiga o apetite, e apresenta, em média a seguinte composição quando madura:

Tabela 1- Composição da Lichia por 100 gramas de polpa

Caloria 64
Glicídios 16,4 g
Proteínas 0,9 g
Lipídios 0,3 g
Cálcio 8 mg
Fósforo 42 mg
Ferro 0,4 mg
Potássio 170 mg
Sódio 3 mg

Carvalho & Salomão informam que o teor de vitamina C por 100g de polpa da fruta varia de 40 a 90 mg. As necessidades para um adulto são atendidas se este consome cerca de 100 g da fruta, ou seja, cerca de 7 frutas. Alguns cultivares são boas fontes de niacina.

Variedades ou cultivares indicados, propagação e produtividade:

Os cultivares mais plantados no Brasil são Bengal e Brewster, existido também a presença de “Sweet Clift”, Mauritius e Delícia. Carvalho & Salomão mencionam ainda outros cultivares. Os dois primeiros sofreram adaptação ao clima tropical no Rio de Janeiro e São Paulo e propagaram-se pela região da Mata Atlântica, atingindo o Sul da Bahia e Pernambuco. Além disso, atingiram regiões particulares de microclima diferenciado com boa produtividade.

A variedade Bengal é muito produtiva e a mais plantada no país. Seus frutos são cordiformes, grandes, pesando cerca de 21 gramas/fruto (23 a 27 g/fruto segundo Carvalho & Salomão), com casca vermelho-sangue quando maduros e com sementes também grandes. Apresenta cerca de 56% de polpa. Ocorre pequena percentagem (cerca de 3%) de frutos com sementes abortadas. É indicada para zonas mais frias e desenvolve-se melhor em solos leves. Foi um dos cultivares mais propagados pela Dierberger Agrícola, um excelente produtor de mudas de Limeira, no Estado de São Paulo. As plantas do Sítio do Túnel, em Alto Jequitibá, são desta variedade e provenientes da Dierberger Agrícola.

A variedade Brewster tem folíolos ondulados e com os ápices ligeiramente voltados para baixo. Racimos com 10 a 20 frutos. O fruto é oblongo e grande, pesando cerca de 23 gramas/fruto (20 a 22 g/fruto segundo Carvalho & Salomão), com casca vermelho brilhante. Praticamente não apresenta frutos com sementes abortadas. A polpa corresponde a 78% do fruto. É um cultivar muito plantado no Brasil. O setor de Fruticultura da Universidade Federal de Viçosa vem desenvolvendo estudos com este cultivar.

A variedade Sweet Clift apresenta plantas menos vigorosas com folíolos pequenos, ovalados e ondulados. A fruta é pequena, pesando cerca de 17 gramas/fruto, ovalado e com casca vermelho intenso. A semente é pequena e ocorre cerca de 30-35% de sementes abortadas.

Ivo Manica comenta ainda sobre outras variedades da planta. O interessado pode recorrer ao seu livro.

Embora a Lichia possa ser plantada como pé franco, isto é, a partir de sementes, esta prática é desaconselhada para pomares comerciais, uma vez que geralmente a produção plena é tardia, além de não garantir o padrão das plantas e dos frutos (consequência da variação genética) e de produzir árvores muito grandes quando adultas, o que dificulta a colheita e os cuidados necessários à lavoura.

Algumas plantas provenientes de sementes são muito pouco produtivas. Além disso, as sementes têm baixa viabilidade, que começa a reduzir-se com cerca de 24 horas de extração, sendo que sementes com duas semanas após extração não mais germinam. Também a estaquia pode ser utilizada, porém com um índice de pega bastante baixo. Mudas de enxertia mostraram-se menos produtivas que as de alporque além de apresentarem problemas de incompatibilidade imprevisível entre cultivares.

Plantio Comercial da Lichia

A técnica de propagação mais indicada na literatura para um plantio comercial é a alporquia. Os alporques apresentam:

1- produção precoce, com 6-8 anos de idade ou menos. Ivo Manica informa que a produção pode começar aos 3-5 anos de plantio (provavelmente ainda incipiente).

2- plantas com 10-12 anos de idade atingindo a produção de 100-120 kg/pé;

3- árvores menores que as produzidas de sementes;

4- plantas e frutos com as mesmas características da planta mãe;

5- vida produtiva bastante longa, embora inferior aos pés francos.

Entretanto, as mudas de alporques apresentam sistema radicular frágil nos primeiros anos de vida da planta e cuidados particulares com o transporte e plantio no lugar definitivo devem ser tomados. Kavati informa que a lichieira tem desenvolvimento vegetativo inicial bastante lento e, mesmo plantas propagadas vegetativamente como os alporques, começam a produção a partir do sexto ao oitavo ano, atingindo maturidade aos 12 anos.

Os alporques devem provir de árvores produtivas, de qualidade, uma vez que manterão as mesmas características da planta mãe. Portanto, as mudas de alporque devem provir de viveiristas idôneos, que garantam a qualidade das plantas. É importante que a muda venha acompanhada de um certificado de qualidade, o CFO. Alporques provenientes de plantas pouco produtivas inviabilizam o empreendimento.

Uma diferença importante no tocante à mudas de sementes e de alporques está no sistema radicular. Enquanto que mudas de sementes apresentam raiz pivotante, esta está ausente nas mudas de alporque cujas raízes são bastante mais superficiais que as de sementes.

Não temos dados específicos sobre a duração produtiva dos alporques, mas sabemos que é inferior à das mudas de sementes. Plantas de sementes com cerca de 200 anos são conhecidos ainda em plena produção no Brasil. Na China há plantas produtivas com cerca de 1200 anos. No Sítio do Túnel, em Alto Jequitibá, já temos plantas de alporques, muito produtivas, com cerca de 22 anos e oito metros de altura. Em geral, mesmo provenientes de alporques, são plantas de longa vida.

Em Mutum, MG, o Rancho Chedas possui aproximadamente 300 pés da fruteira, com cerca de 200 pés com 9-10 anos de idade e já com boa produção. São todos plantados à partir de sementes e, segundo seu proprietário, não foi observada nenhuma diferença muito sensível com o início da produção, produtividade e tamanho das plantas em comparação com as observadas para as provenientes de alporques. As mudas de sementes são muito mais baratas que as de alporque e não exigem a retirada de galhos de plantas produtivas para a formação dos alporques.

Segundo o proprietário do Rancho Chedas, as árvores de sementes atingem a produção máxima aos 12-13 anos. Mas com cerca de 9-10 anos suas plantas já produziam uma safra anual de 12.000 kg em cerca de 200 plantas, o que dá cerca de 60 kg/pé. Esta observação, segundo ele, vale tanto para a sua região como para as regiões produtoras de São Paulo, como a Dierberger em Limeira e a propriedade do  Sr. Maeda.

Para nosso Projeto assumiremos início de produção à partir do 7o ano de plantio (produções precoces são pouco significativas). Caso a produção comece mais cedo será considerada condição vantajosa. Para início de produção plena assumiremos árvores com 11 anos de plantio. Deve ficar claro que o projeto considera condições “prováveis” segundo dados da literatura que podem divergir entre os autores pois dependem das condições em que eles foram coletados.

Condições de plantio, espaçamento:

Lichieira é uma árvore de porte médio. Mesmo a muda de alporque cresce bastante podendo, em terrenos férteis, atingir 10 m de altura. Mas, geralmente, segundo produtores nacionais, não ultrapassa 7-8 metros de altura. Sua copa é larga atingindo um diâmetro de 8-9 metros ou mais. Árvores de alporque com 22 anos plantadas no Sítio do Túnel, em Alto Jequitibá, estão com cerca de 8 metros de altura e 9 metros de diâmetro de copa.

Desta forma, é aconselhado o plantio em linhas com espaçamento mínimo de 10 metros. As árvores mencionadas do Sítio do Túnel, por terem sido plantadas com distanciamento de oito metros, apresentam parte de suas copas se interpenetrando. Esta região de contacto das copas não é produtiva. A planta exige a exposição de toda a copa ao sol. Sugere-se de 10 a 12 m de distancia entre os pés quando o plantio não é adensado.

Em plantio adensado sugere-se 5-6 m entre as mudas até que as copas se toquem e haja a eliminação de pés alternados. Kavati sugere a distância de 10 a 12 m entre as árvores na mesma linha e de 14 m entre as linhas, para melhor circulação de máquinas para os tratos culturais. Como a nossa região é montanhosa, o plantio será sempre feito em curvas de nível com distância mínima de 10 metros entre as linhas e entre as mudas na mesma linha.

Entretanto, se a encosta for muito inclinada, talvez seja conveniente um afastamento entre linhas de 12 a 13 m, mantendo-se, na mesma linha, a distância mínima de 10 m. É importante se ter em mente que o distanciamento na projeção horizontal deverá ser no mínimo de 10 metros. É também conveniente que o plantio nas curvas de nível seja intercalado, de forma que se formem triângulos isósceles com as mudas nos vértices. Isto afasta mais as copas entre as linhas e permite melhor circulação de trabalhadores quando as árvores estiverem adultas.

O plantio em distanciamento 10 m x 10 m com as plantas em formação de triângulos isósceles, permite de 103 a 116 mudas em 1 ha. No presente projeto, considerando as facilidades de circulação pela área com as plantas adultas, assumiremos o plantio no distanciamento de 12 m x 12 m. Nestas condições, 100 plantas (103 a 116) ocuparão 1,44 ha. O plantio deve ser feito na encosta em que a árvore receba o máximo de insolação. Encostas sombreadas devem ser evitadas. Não plantar em lugares encharcados. Um solo com umidade adequada ao café é também adequado à Lichia.

Na Universidade Federal de Viçosa experimentos estão sendo feitos com plantas distanciadas de apenas 7 m mantendo-se podas periódicas. Estes estudos não estão concluídos. É mais seguro para produtores iniciantes seguir as orientações tradicionais, ou seja, com distanciamento mínimo de 10 m.

OBS: Patrícia Carvalho (Globo Rural dez. 2002) informa que produtores de São Paulo consideram ideal o espaçamento de 13 m entre linhas e de 10 m entre plantas.

O Proprietário do Rancho Chedas em Mutum, sugere como espaçamento ideal 10 metros entre as plantas e a mesma distância entre as linhas.

Com o propósito de base para o Projeto, assumiremos:

– Plantio em curva de nível;

– Mudas de alporque;

– Distância entre as linhas de 12 m

– Distância entre as covas por linha de 12 m;

– O plantio deve ser tal que as plantas entre duas linhas formem um triângulo isósceles. No plantio com este espaçamento cabem cerca de 116 mudas em 1,44 ha ou 70 árvores por ha. (10.000 m2 = 1 hectare).

– Assumiremos, como proposta de Projeto, o espaçamento de 12 m x 12 m, o que representa o plantio de 100 árvores em 1,44 ha. Entretanto, o interessado poderá escolher outros espaçamentos, mantendo o mínimo de 10 m x 10 m. Nesta condição de espaçamento mínimo cabem 100 mudas (até 116 mudas) em 1 ha.

Antes do plantio, o produtor deve realizar a análise química do solo para o planejamento adequado das quantidades de corretivos e adubos a serem incorporados.

As covas devem ter, no mínimo, as dimensões de covas para café, mas, de preferência com profundidade de 60 cm. Portanto as dimensões deverão ser, no mínimo, de 40 cm x 40 cm x 60 cm.

Em termos gerais, a cova deve ser adubada com 20 a 40 L de esterco de curral bem curtido e, segundo Kavati, com 0,5 a 1 kg de superfosfato simples ou termofosfato. Carvalho & Salomão recomendam 20 L de esterco bem curtido e 100 g de P2O5 (cerca de 560 g de superfosfato simples). Para a obtenção de uma cova bem-feita, mistura-se a terra retirada da abertura da cova com o esterco e o fertilizante fosfatado. A mistura é utilizada no seu reenchimento.  A cova assim preparada deve ficar em repouso por uns 30 a 60 dias para que ocorra total fermentação da matéria orgânica e a compactação natural do material de reenchimento. Períodos chuvosos podem reduzir este tempo.

É conveniente que as mudas sejam plantadas nas épocas de chuva, em dias nublados e com boa umidade no solo. As mudas apenas devem ir para o campo quando houver bom sistema radicular ocupando a embalagem da muda, além de já estarem ambientadas ao sol. As mudas no campo devem receber uma proteção ao excesso de sol. O plantio prévio de milho no espaçamento entre as covas pode criar esta proteção. Também, podemos proteger (sombrear) a muda com um muro de bambu ou com folhas de palmeiras.

A muda deve ser levada ao campo e plantada com muito cuidado para que não haja quebra do torrão danificando as raízes.

Logo após o plantio, deve-se regar abundantemente a cova, construindo-se uma bacia de contenção suficiente para cerca de 40 litros de água. Com este cuidado, eliminam-se bolsões de ar e compactam-se os enchimentos das covas.

As regas subsequentes devem ser realizadas com menores quantidades de água, mas tendo-se o cuidado de verificar a umidade do solo, uma vez que a muda nova ressente-se da falta de água, podendo paralisar o crescimento ou mesmo morrer.

Em pequenos pomares, de até uns 500 pés, não há necessidade de irrigação. A rega pode ser feita com auxílio de mangueiras 1 ou 2 vezes por semana, conforme a umidade da terra. Este cuidado deve ser mantido até, pelo menos, 2-3 anos, quando as plantas terão copas que cobrirão a maior parte do sistema radicular e já terão resistência para aguentar a estiagem. Por sob as copas, bastante fechadas, o mato não se desenvolve e o terreno mantém a umidade. Folhas que caem das árvores formam um tapete sob a sua copa, cobertura esta que deve ser mantida para reter a umidade do solo.

Nos primeiros anos é conveniente manter a planta tutorada com bambu (para se desenvolver com o porte ereto) e, no seu entorno, com cobertura morta.

Os ventos excessivos prejudicam a cultura. Deve-se evitar o plantio em locais com muito vento ou, utilizar quebra-ventos.

Culturas intercaladas para os primeiros anos de plantio

A lichieira apresenta um período de formação, improdutivo, bastante longo. São necessários 6-7 anos para o início de produção, que aumenta de ano para ano, mantendo a alternância bienal, até atingir a produção máxima aos 11-12 anos. A produção inicial é pequena, aos 8-9 anos já atinge 60 kg/pé e aos 12-13 anos produz cerca de 120-150 kg/pé. Segundo o produtor de Mutum, uma suposição realista permite estimar uma produção de plena carga de 100 kg/pé em lavouras bem conduzidas.

Uma coroa capinada com o afastamento de até um (1) metro da copa é conveniente nos primeiros anos do plantio. Esta coroa deve ser mantida com cobertura morta. Conforme a planta vai crescendo, por sob sua copa não nasce mato. Caso nenhum consórcio seja mantido com a cultura da Lichia, convém que se roce o mato ao entorno da coroa capinada. Isto evitará que chuvas fortes lavem a terra nua, particularmente em terrenos inclinados como os da nossa região. Entretanto, para baratear a manutenção da cultura da Lichia nesta fase improdutiva e enquanto há espaço suficiente entre as mudas, culturas consorciadas de curto e médio ciclo podem ser realizadas. Após o período de consórcio, a área entre as árvores poderá ser plantada com leguminosas, de preferência, cujas sementes foram inoculadas com rizóbium.

Segundo o proprietário do Rancho Chedas, em Mutum, pode-se consorciar a cultura de maracujá, fruta que apresenta boa aceitação no mercado, particularmente atendendo às indústrias de suco. Na região de Mutum é uma cultura vantajosa. Entretanto, em regiões mais frias, podem ocorrer problemas de antracnose nas flores e frutos, prejudicando o produto final. Segundo o proprietário do Rancho Chedas, a praga é convenientemente controlada com aspersão de Biopirol um fertilizante organo mineral que também combate o fungo e, com Calda-bordalesa.

Duas fileiras de plantio de Maracujá são possíveis nas lavouras novas. Mais tarde, com o crescimento da árvore, deve-se manter apenas uma fileira que, finalmente será eliminada deixando a área apenas para as Lichieiras. Entretanto, segundo o prof. Cláudio Hoerst da Universidade Rural de Viçosa, o cultivo de maracujá não é o mais indicado para a nossa região por produzir menos que em regiões quentes e por ter a safra coincidente com a dos grandes produtores do norte fluminense, quando o preço da fruta é baixo.

Outros consórcios são possíveis, como culturas de ciclo curto como de inhame, milho, feijão, etc. A cultura de consórcio, entretanto não deve disputar com a lichieira os seus nutrientes. Por isto, deve ser plantada de forma que suas raízes ou ramas fiquem afastadas da copa da árvore pelo menos 1,0 m de distância.

O plantio de inhame pode ser vantajoso nos primeiros anos da lavoura, entretanto, quando as árvores aumentarem suas copas (e o sistema radicular da árvore acompanha aproximadamente a projeção horizontal da copa) outra cultura deve ser considerada, pois o inhame exige revolvimento da terra, o que pode prejudicar as raízes da lichieira.   Feijão e milho também podem ser considerados. Entretanto, sobre consórcios na nossa região nada temos de informação. Profissionais da área agrícola podem auxiliar nesta escolha.

Adubação e calagem

A lichieira desenvolve-se bem em diferentes padrões de solo. Entretanto, é conveniente uma análise do mesmo, assim como uma análise foliar em épocas adequadas, para orientar o agricultor numa possível necessidade de adubação. O tipo de adubo, quantidade e freqüência da adubação devem ser escolhidos segundo esta orientação. Pode ser necessária a adubação com micronutrientes. Entretanto, a literatura propõe algumas tabelas de adubação em função da idade da planta.

Há tabelas indicando adubações no Havaí e África Subtropical, conforme apresentadas por Carvalho & Salomão. Ivo Manica também apresenta tabela de adubação em função da idade da planta. No trabalho apresentado em 1996, em Campinas, Kavati indica, como regra, a seguinte adubação de formação, no período improdutivo, segundo a idade da muda, até o 6º ano do plantio. A tabela refere-se a quantidade aplicada por ano na fase de formação do pomar.

Adubação de Formação

Idade da Planta

Anos

N

Gramas por planta

P2O5

Gramas por planta

K2O

Gramas por planta

0-1 50 0 0
1-2 100 0 50
2-3 250 50 100
3-4 300 50 200
4-5 300 100 200
5-6 300 100 200

A Tabela 2.1 nos dá alternativas para uso de diversos tipos de adubos. Como base de projeto, assumiremos que usaremos Sulfato de Amônio como adubo nitrogenado, Superfosfato Simples como adubo fosfatado e Cloreto de Potássio como adubo potássico, uma vez que os cafeicultores já têm bastante experiência com estes nutrientes. A Tabela 2.2 corresponde à Tabela 2.1 com os compostos propostos.

Tabela 2.2- Adubação de Formação

Idade da Planta

Anos

Sulfato de amônio

Gramas por planta

Superfosfato simples

Gramas por planta

Cloreto de potássio

Gramas por planta

0-1 250 0 0
1-2 500 0 86
2-3 1250 278 172
3-4 1500 278 345
4-5 1500 556 345
5-6 1500 556 345

Da Tabela 2.2 podemos concluir que plantas com mais de quatro anos podem receber, anualmente a adubação de 1,5 kg de sulfato de amônio, 0,556 kg ( 0,5 kg) de superfosfato simples e 0,345 kg ( 0,3 kg) de cloreto de potássio. Esta adubação anual permanecerá até o início de produção e, como base de cálculo, pode ser considerada a adubação necessária para sustentar a planta adulta desconsiderando-se a produção. A Tabela 2.3 apresenta, segundo esta suposição, a adubação necessária para sustentar a planta adulta.

Tabela 2.3- Adubação necessária para o sustento da planta adulta sem frutificação

Idade da planta Sulfato de amônio

kg/planta

Superfosfato simples

kg/planta

Cloreto de potássio

kg/planta

Planta adulta 1,5 0,5 0,3

A aplicação do superfosfato simples deve ser feita de uma única vez no início da estação chuvosa, distribuindo o fertilizante uniformemente na área coroada da planta.

A aplicação do sulfato de amônio e cloreto de potássio é feita em 4 vezes, em parcelas iguais, desde o início da floração (agosto-setembro), com a terceira adubação no fim da colheita (cerca de início de janeiro) e a última no fim de abril, e espalhadas numa faixa ao redor da copa e encobertas, como se faz com café.

Pode-se simultaneamente aplicar esterco no período de chuvas, independentemente dos fertilizantes minerais. Esta aplicação melhora o desenvolvimento das plantas. Usam-se 20 litros de esterco de curral ou 2 litros de esterco de galinha aplicados na cobertura, como se faz com o adubo fosfatado. Inclusive, para melhorar a distribuição do fosfato, este pode ser bem misturado ao esterco e, então, espalhado por sob a copa e ultrapassando a mesma por cerca de meio metro.

Ivo Manica informa que, embora sem nenhum resultado validado por pesquisa, no Brasil, recomenda-se para lichierias em frutificação uma adubação anual por planta, com a mistura: 25-40 L de esterco de curral bem curtido; 300 g de nitrocálcio ou sulfato de amônio; 400 g de farinha de ossos; 200 g de superfosfato; 200 g de cloreto de potássio.

Kavati indica que na fase de produção a adubação para sustentar uma produção de 100 kg de fruta por planta pode ser feita segundo a Tabela 3.

Tabela 3- Adubação na fase de produção plena (a partir de 11 anos)

Idade da planta Sulfato de amônio

kg/planta

Superfosfato simples

kg/planta

Cloreto de potássio

kg/planta

À partir de 11 anos 3,0 1,0 1,0

Lembramos, entretanto, que é conveniente, pelo menos uma vez por ano, no período pós-produção, uma análise foliar e uma análise do solo, inclusive para verificar necessidade de micronutrientes.

Com base nas Tabelas 2.2 e 3 e admitindo correlação linear entre produtividade e necessidade de fertilizante, podemos fazer uma projeção para a adubação em função da frutificação para os anos iniciais de produção, antes da produção plena.

A produtividade de um plantio de Lichieira é dependente das condições climáticas anuais, do tipo de solo e práticas culturais. Desta forma é difícil dispor-se de uma tabela geral de produtividade em função da idade da planta. Entretanto, valores médios são disponíveis na literatura, onde, pelas razões expostas, encontramos informações variadas sobre a produtividade da Lichieira em função dos anos de plantio. O folheto da CENIPA permite a elaboração da Tabela 4.1 de produção por planta nos primeiros anos produtivos:

Tabela 4.1- Produção anual por pé, segundo trabalho da CENIPA

Ano produtivo Produção  mínima (kg/pé) Produção máxima (kg/pé)
1o ano produtivo 15 20
2o ano produtivo 30 40
3o ano produtivo 60 80
4o ano produtivo 80 100
5o ano produtivo

(planta adulta)

100 120

A Tabela 4.2 foi construída com base nos dados de Carvalho & Salomão:

Tabela 4.2 – Produção anual por pé, segundo trabalho de Carvalho & Salomão

Idade da planta (anos) Produção (kg/pé)
7-8 45
10 50-70
15 100
20-24 150-180

Baseados nos dados extraídos do folheto da CENIPA, nos dados de Carvalho & Salomão e nos dados colhidos com o proprietário do Rancho Chedas, em Mutum, assumimos, como base de trabalho, a produção apresentada na última coluna da Tabela 5.

Com base na expressão (1), com valores propostos de produção (valores aproximados de produção esperada – ver Tabela 5), nos dados das Tabelas 2.2 para fruteiras com 6 anos e na Tabela 3 para produção máxima anual de 100 kg de fruta por pé, podemos propor um plano de adubação para os anos iniciais de produção da Lichia. A Tabela 5 apresenta este plano.

Tabela 5- Plano de Adubação para os anos iniciais de produção (kg/planta)

Idade

 

(anos)

Sulfato de amônio

 

 (kg/planta)

Superfosfato simples

 

(kg/planta)

Cloreto de potássio

 

(kg/planta)

Quantidade de fruta produzida(*)

(kg/planta)

5-6 1,5 0,5 0,3 0
6-7 1,95 0,65 0,51 30
7-8 2,18 0,73 0,62 45
8-9 2,40 0.80 0,72 60
9-10 2,70 0.90 0,86 80
10-11 2,85 0.95 0,93 90
Mais que 11 3 1 1 100

Ivo Manica indica uma outra tabela de adubação em função da idade da planta. Os valores por ele apresentados não são muito diferentes dos aqui propostos.

Da mesma forma que para a adubação no período de formação, o superfosfato simples será aplicado de uma única vez por cobertura, e os adubos sulfato de amônio e cloreto de potássio serão aplicados em três ou quatro parcelas iguais numa faixa em torno da projeção horizontal da copa da planta. A adubação começa na floração, com penúltima parcela logo após a colheita e termina em fins de abril.

Note que se a colheita prevista for maior que 100 kg por pé, a adubação anual pode ser também calculada pela expressão (1) como mostrado no Exemplo 3.

O esterco de curral deve ser espalhado anualmente sob a copa na quantidade de 20 a 40 litros ou, o esterco de galinha na quantidade de 2-4 litros.

Após a colheita, é sempre interessante que se faça uma análise foliar para o acompanhamento do estado nutricional das plantas. É possível que em anos de baixa produção a terra esteja muito adubada e possamos reduzir o adubo do ano. Convém, portanto que se faça periodicamente uma análise de solo para melhor orientar a adubação.

A fruteira adapta-se bem a solos com pH na faixa de 5,5 a 6,5. A literatura consultada indica que a planta suporta ainda solos mais ácidos e alcalinos com boa produtividade. Entretanto, a faixa de pH indicada deve ser mantida. A análise de solo deverá indicar a calagem necessária. Entretanto, a literatura sugere a aplicação anual de 2 kg de calcário dolomítico por planta, mas espalhada na área total da lavoura. Por exemplo, se a lavoura for de 100 pés de Lichia, então se aplicará 200 kg de calcário em toda a área. Se esta área é de 1,44 ha, então teremos 138 kg de calcário/ha. A aplicação do calcário deverá ser feita no final do período chuvoso.

Irrigação:

Embora a precipitação média da nossa região se enquadre na faixa exigida pela Lichia para um desenvolvimento adequado, na realidade pode acontecer que o início da floração ocorra ainda no período de estiagem. Desta forma, até que as chuvas cheguem e se regularizem, é conveniente a irrigação das plantas. Em pequenos pomares, com até 500 árvores, as plantas podem ser regadas com auxílio de mangueiras. Em pomares maiores, pode ser necessário um sistema mais caro para a irrigação.

As mudas recém plantadas também necessitam de rega. Como são plantadas em períodos chuvosos, estas regas podem ser espaçadas. As plantas novas devem ser regadas sempre que a estiagem for por período maior que uma semana.

Preparo da terra para o plantio:

Como a nossa região é montanhosa, o terreno para o plantio das mudas deve ser apenas roçado para evitar que a água da chuva escoe pela terra nua. No raio de 0,5 m em torno da muda a capina é recomendada. O uso de cobertura morta no círculo capinado é conveniente para refrescar o terreno.

Caso o plantio preveja cultura intercalada com feijão, por exemplo, é ideal que o terreno seja plano ou pouco íngreme, uma vez que necessitará ser capinado, o que pode, em época de chuva, ser prejudicial devido à lavagem do terreno. Após a colheita do feijão, se esta for realizada uma vez ao ano, o terreno deverá apenas ser roçado para evitar que o mato cresça demais. Na ausência de cultura de consórcio, é conveniente que a área entre as copas das árvores seja plantada com leguminosas rasteiras inoculadas com rizóbium.

Convém que antes do plantio seja realizado um controle de formigas cortadeiras na área prevista para o pomar.

Cuidados com a lavoura nova e a produtiva:

A lavoura até o início da frutificação, que ocorre depois de 6-7 anos, deve ter os cuidados comuns dispensados aos pomares. Assim, na época de chuvas apenas indica-se uma roçada baixa, mantendo-se uns 30 cm além da projeção da copa capinado. Conforme a planta vai crescendo a copa vai se tornando densa, reduzindo as ervas que ficam sob sua copa, mas as capinas continuarão a uns 30 cm além da projeção das copas.

O capim não deve se tornar muito grande abafando a planta, de modo que roçadas periódicas podem ser necessárias entre as plantas na época de chuvas. Durante o período de seca, o mato cresce menos e a roçada fica mais espaçada. Umas 3-4 roçadas por ano, com as devidas capinas em torno da muda podem ser necessárias na nossa região.

Quando a lavoura se tornar produtiva, os mesmos cuidados são necessários. Quando as copas estiverem com seus diâmetros máximos, as capinas podem se tornar desnecessárias, mas as roçadas devem continuar para controlar o mato evitando erosão. É claro que cuidados com as pragas e insetos já mencionados além de outros como abelhas cachorro, formigas, etc., devem ser contínuos.

Produção da Lichia:

A produção da Lichia é bienal, isto é, um ano é produtivo e outro não. Há técnicas que podem reduzir a alternância da produção. Para maiores informações, o interessado deve consultar o trabalho de Carvalho & Salomão. No ano produtivo, as árvores adultas, produzem em São Paulo, de 60 a 130 kg de fruta/pé por ano, em pomares bem conduzidos.

Em Mutum, as árvores provenientes de sementes, com cerca de 9-10 anos produziram na última safra cerca de 60 kg de fruta/pé. Segundo dados colhidos em Mutum e em Venda Nova do Imigrante e em Mutum, com boa margem de segurança, pode-se considerar, como base de projeto, uma produção média de 100 kg/pé em árvores adultas, pois geralmente a produção é maior.

Embora alguns autores informem que a produção começa geralmente aos 5 anos (ou menos) para alporques, assumiremos por segurança (e concordando com Kavati) o início de produção aos 6-7 anos, como foi observado para árvores provenientes de sementes, pelo produtor de Mutum. Com base na produção sem alternância apresentada na Tabela 5, podemos supor para os sete primeiros anos produtivos as cargas apresentadas na Tabela 6.

Tabela 6- Produção anual esperada para a Lichieira

Idade

 

(anos)

Previsão de fruta sem alternância

(kg/planta)

Previsão de frutas com alternância (kg/planta)
6-7 30 14
7-8 45 45
8-9 60 24
9-10 80 80
10-11 90 30
Período produtivo com mais que 11 anos 100 100
Período não produtivo com mais de 11 anos 30

Supondo produção sem alternância, teríamos como produção esperadas a segunda coluna da Tabela 6. Entretanto, como a produção é alternada, como base de cálculos, assumiremos a produção, no ano de baixa, de 30% da produção do próximo ano produtivo.

Desta forma, montamos a terceira coluna da Tabela 6 que será considerada a produção válida para os nossos cálculos. A produção do ano de baixa depende de diversos fatores e pode inclusive ser bem maior ou menor que a prevista no presente Projeto. Com poucas árvores em Alto Jequitibá, nunca observamos produções inferiores a 30% daquela do próximo ano. Assumiremos, para cálculos de Projeto, perdas de 25% na produção anual.

Assumiremos, para fins de custo de adubação, a produção sem alternância, conforme proposta na coluna 2 da Tabela 6.

Época e técnica de colheita

Em Alto Jequitibá, a florada começa nos meses de julho-agosto e a colheita é feita geralmente à partir da 2a quinzena de novembro e vai até fins de dezembro. Dependendo do cultivar, a colheita pode ir de dezembro a fins de janeiro. É uma fruta natalina, ocupando cada vez mais destaque nas festas de fins de ano no Brasil. No presente Projeto, assumiremos a colheita iniciando na 2a quinzena de novembro e terminando no fim de dezembro.

A colheita é feita com auxílio de tesouras de poda e os cachos da fruta são cortados com parte dos ramos contendo 2 ou 3 folhas. Este corte estimulará novas brotações e aumentará a produção na próxima safra. Também, os frutos permanecerão com as hastes evitando que, surjam injúrias que facilitem o seu apodrecimento. É necessário que as frutas estejam no auge da maturação, quando assumem coloração uniforme e vermelha, além de apresentarem as protuberâncias suavizadas.

A colheita exige o uso de escadas ou equipamentos apropriados. Em grandes plantios, com árvores de mais idade e muito altas, os frutos são colhidos com auxílio de gruas.

O colhedor, após a retirada dos cachos com os ramos, os coloca cuidadosamente em uma sacola de colheita presa em seu corpo. O conteúdo destas sacolas, quando cheias, é transferido cuidadosamente para caixas do tipo caixa de laranja para 20-25 kg, que são transportadas para o galpão de seleção e embalagem. Caso apenas parte das frutas do cacho estejam adequadas para a colheita, estas deverão ser recolhidas de forma selecionada, mantendo cerca de 0,3 cm de pedúnculo no fruto retirado. O restante do cacho deverá ser recolhido em outra colheita na árvore na ocasião oportuna.

Podas:

  • De formação: Carvalho & Salomão informam que as árvores provenientes de alporques têm tendência a formar uniões defeituosas entre os ramos e emitir brotações próximas do solo. É conveniente manter tronco único até uns 50 cm de altura, selecionando-se de 3 a 4 brotos vigorosos bem distribuídos e que formarão os ramos principais. “Ramos que formem ângulos muito agudos ou muito fechados com o eixo da planta devem ser eliminados, pois quebram-se com relativa facilidade. Esta pode realizar-se em qualquer época do ano, conforme o surgimento de brotações indesejáveis. ” Para uma boa produção, a planta deve desenvolver número suficiente de ramos terminais capazes de frutificarem. Carvalho & Salomão informam que a variedade Bengal “tem surtos de crescimento longo, formando assim, menos pontos de crescimento que outros. Por isso, recomenda-se o desponte de cerca de 30 cm da extremidade dos ramos antes da emissão de novo fluxo de crescimento. Com esta prática se consegue, em média, de dois a três ramos terminais por ramo podado. ”
  • Anuais no período de produção: Esta poda ocorre na fase produtiva e durante a própria colheita, retirando-se os cachos maduros, com auxílio de uma tesoura de poda, com uma parte dos ramos, contendo de 1 a 2 folhas. Isto estimula novas brotações anuais. Os ramos anuais são aqueles produtivos. As flores e, em consequência, as pencas de frutas ocorrem apenas nos extremos dos ramos anuais.
  • Anelamento dos ramos para redução da alternância de produção: Carvalho & Salomão descrevem um método utilizado para a redução da alternância na produção da Lichia. A técnica não implica em poda, mas em incisões nos ramos da planta para a indução artificial da florada. Como pode enfraquecer a planta e reduzir o tamanho dos frutos, não discutiremos esta técnica aqui. O interessado pode recorrer ao trabalho mencionado.
  • Para controle do crescimento da planta: Esta técnica é indicada para plantios relativamente adensados, e não será abordada aqui. O interessado pode recorrer ao trabalho de Carvalho & Salomão.
  • Para eliminação da ramos doentes: Podas mais drásticas podem ser necessárias também no caso do ataque de brocas, uma praga comum das lichieiras, como veremos.

Pragas e doenças

Embora a Lichia possa sofrer ataque de pragas e doenças bem como de agentes causadores de podridões pós-colheita, até o momento em nossas lavouras, estes males são perfeitamente controláveis química ou biologicamente. Informações colhidas em Venda Nova do Imigrante e, particularmente em Mutum, onde já existem agricultores com alguma experiência com a planta, os maiores problemas ali observados são as brocas dos ramos que podem ser reconhecidas no início de sua infestação pela seca de alguns ramos da planta. As áreas mais próximas às matas são mais atacadas pela broca.

Em geral aparecem nos ramos altos. As folhas desses ramos tornam-se secas com cor marrom. O seu controle é a poda desses ramos e a queima dos mesmos. A broca dos ramos, se não combatida, pode secar toda a planta. O proprietário do Rancho Chedas, em Mutum diz ser muito eficiente para o controle da broca o Dipel PM, um produto contendo Bacillus thuringensis que é indicado contra larvas de insetos, e atua também contra a broca.

Quando há broca, cortam-se os galhos que são, então queimados. Pinta-se o tronco no ponto de corte com pasta-bordalesa e faz-se a borrifação com Dipel PM na copa e ramos. As brocas que roerem áreas borrifadas com Dipel PM, morrem. É muito eficiente. É aplicado duas vezes ao ano: na época de seca antes da florada, que é um período em que a planta é muito atacada pela broca e após a colheita. Acompanha-se periodicamente, no campo, a presença da broca, que não é a broca do café e nem a larva do besouro longicórneo serrador.

Havendo indicação da broca, cortam-se os galhos e borrifa-se o Dipel PM. Convém adaptar o tubo de cobre do seu aplicador para atingir distâncias maiores. Isto pode ser feito soldando-se um tubo de cobre com cerca de 1 m a 1,5 m e de diâmetro igual ao tubo do borrifador, de forma que ele fique intercalado no tubo do borrifador, mantendo os dois extremos originais do aplicador. Isto permite borrifar em maiores alturas, mesmo com o aplicador costal de 20 litros. Árvores muito grandes podem exigir equipamentos mais sofisticados ou o uso de escadas.

Em Alto Jequitibá foi observado, em poucas árvores adultas existentes em propriedades diferentes, o ataque por broca dos ramos. Foi também observado o ataque por broca de caule. Esta broca ataca os caules grossos da árvore deixando uma excreção aderente à superfície da casca e secando todos os ramos da planta, que, finalmente, morre. Embora não possamos garantir, aparentemente não é a larva do besouro longicórneo conhecido como “serrador”, pois nenhuma serragem foi observada junto ao local do furo de penetração da broca.

O controle da broca de caule geralmente é feito da maneira tradicional. Uma vez observada na árvore, raspa-se a casca para mostrar o orifício de penetração e injeta-se querosene ou gasolina com auxílio de uma seringa com agulha grossa. Obstrui-se o orifício com massa de argila ou massa de vidraceiro. Repete-se a operação em todos os orifícios. Após a operação, borrifa-se Folidol em toda área afetada e nos caules e ramos grossos.

Outra praga comum é uma espécie de ácaro que danifica as inflorescências e as folhas, tornando-as amareladas. O ataque de ácaros pode danificar os ponteiros e impedir a frutificação, reduzindo drasticamente a colheita. Segundo o produtor de Mutum, a praga é facilmente controlada com calda sulfocálcica que é borrifada pelo menos três vezes ao ano: depois da colheita, em março e em maio porque os ácaros serão eliminados antes da florada. A calda sulfocálcica é muito eficiente contra o ácaro. É um produto barato, encontrado no mercado e facilmente produzido, até mesmo na propriedade. São também indicados outros acaricidas específicos.

Em regiões mais quentes, as moscas das frutas também atacam as Lichias, mas podem ser controladas com iscas colocadas em garrafas plásticas.

Várias espécies de cochonilhas, com e sem carapaças, podem causar prejuízos. Normalmente o seu controle, em outras lavouras é feito com óleos solúveis. Entretanto, as folhas da Lichia são sensíveis a este tipo de tratamento que deve ser evitado. Kavati sugere o uso de inseticidas organo-fosforados como Folidol.

A antracnose também pode ser um problema para o florescimento da Lichia. Sua ocorrência é maior na presença de alta umidade. Fungicidas à base de Maneb e Mancozeb são utilizados para o controle da praga. Há ainda outros problemas como os pássaros que bicam os frutos maduros, um tipo de percevejo que também fura a fruta e vespas que atacam os ferimentos dos frutos.

Para os insetos, o uso de inseticidas organo-fosforados pode realizar o controle, mas para os pássaros, o controle é mais difícil. O prejuízo provocado por pássaros é mais sensível em pequenas lavouras. Com o aumento do número de árvores, o prejuízo se dilui, é menos observável. Não temos informações sobre o percentual da perda. O prejuízo deve ser considerado pelo agricultor como uma multa pelo mal que já fizemos a esses belos seres voadores. Como base de Projeto assumimos uma perda de 25% explícita na produção total.

No exterior detectam-se doenças radiculares mais sérias que podem matar as plantas. Na Austrália a Lichieira é atacada por Fusarium sp. e Botryodiplidia theobromae e na Florida por Cladosporium sp. No Brasil, segundo a CENIPA, não foi detectada a presença desses patógenos nas plantas.

Seleção, embalagem e envio para o mercado consumidor:

As frutas recém colhidas chegam ao setor de classificação, geralmente contendo mesas grandes, onde são retirados, cuidadosamente o excesso de ramos (deixando as frutas com pequenos “cabinhos”- cerca de 0,3 cm de pedicelo), os gravetos, as folhas, as frutas danificadas ou inadequadas à venda. Em seguida são submetidas a uma classificação manual, e enviadas para serem embaladas.

A embalagem para a entrega no mercado (CEASAS, CEAGESP, etc.) é, geralmente, em bandejas plásticas do tipo usada para morangos e cada uma é carregada com 0,5 kg de fruta. Na base de 0,21 g/fruta, cada bandeja de ½ kg contém 23-24 frutas.  Estas bandejas, recobertas com película plástica, são arrumadas, em grandes produtores, em caixas de papelão de 4 kg.

Entretanto, o produtor pode enviar as bandejas arrumadas em outros tipos de embalagem, apenas para a proteção das frutas. Estas embalagens (não as bandejas) podem voltar para o produtor após a entrega das frutas. É assim que o produtor de Mutum entrega a sua produção na CEASA de Vitória, ES., sem caixas de papelão, apenas com as frutas arrumadas nas bandejas plásticas.

Nos maiores produtores, as caixas de 4 kg são fechadas, geralmente por máquinas e enviadas para o mercado. As operações, desde a colheita até o transporte da mercadoria, devem ser realizadas rapidamente, de forma que no máximo em uma semana (de preferência bem menos) as frutas já estejam entregues no seu destino. O uso da membrana plástica na embalagem visa também a redução do oxigênio em contato com a fruta, reduzindo assim a velocidade no processo de oxidação da antocianina.

No Rancho Chaedas em Mutum, as frutas saudáveis que já passaram do estágio de maturação próprio para a venda, são enviadas para o setor de despolpamento, onde a polpa é embalada em saquinhos plásticos que são mantidos congelados em refrigeradores e vendidos no mercado local. A polpa em saquinhos é conservada desta forma, por meses, e mesmo anos. A polpa de frutas colhidas em dezembro de 2001 foi por mim utilizada em julho de 2003 em perfeito estado.

OBS: As frutas para a venda devem manter um “cabinho” (pedicelos), sem o qual sofrem rapidamente injúrias que as tornam inadequadas ao consumo.

Bibliografia:

  • Pio Corrêa, “Dicionário das Plantas Úteis do Brasil e das exóticas cultivadas”, vol. IV, Ministério da Agricultura, Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, reimpresso em 1984.
  • Gerson Ferreira Pinto, “Ervas, Arbustos, Arvoretas e Árvores Nativas e Introduzidas no Brasil – Plantas de interesse ornamental, medicinal, na fruticultura ou dendrológico”, trabalho não publicado.
  • Pimentel Gomes, “Fruticultura Brasileira”, Biblioteca Rural, Livraria Nobel S.A., SP, 1978.
  • Editora Europa, “Árvores Ornamentais”, Edição Especial da Revista Natureza, Editora Europa, São Paulo, 1997.
  • Eurico Teixeira da Fonseca, “Frutas do Brasil”, Ministério da Educação e Cultura, Instituto Nacional do Livro, R.J., 1954.
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  • Entrevista c/ o Eng. Agr.º Gustavo L. Perim em 04/06/2003 em Venda Nova, Espírito Santo.
  • Carvalho, P., “Sabor de Natal”, Globo Rural, dezembro, 2002.
  • Paiva, R., Gomes, G.A.C., Santana, J.R.F., Paiva, P.D.O., Dombroski, J.L.D., Santos, B.R., “Espécies frutíferas com potencial econômico: avanços no processo de propagação”, Produção e Certificação de Mudas de Plantas Frutíferas, Informe Agropecuário, EPAMIG, 23, no 216 (2002).
  • Entrevista com Sr. Luiz Luiz Carlos Silva dono da Firma “Rancho Chedas” de Mutum, MG., em 02/07/2003.
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  • Vieira, F.C., Wilder, A. “Fruticultura – Lichia”, págs. 38-39, março de 2000.
  • Sindicato Rural de Campinas, “Lichia: a fruta que veio da China”, Boletim Rural, ano XV, no 166, dezembro de 2001.
  • Carvalho, C. M., Salomão, L.C.C., “Cultura da Lichieira”, Boletim de Extensão no 43, Universidade Federal de Viçosa, MG, 2000.
  • http://www.diabetes.org.br/Diabetes/dicionario/dic_kl.html
  • Ivo Manica, “Frutas Nativas, Silvestres e Exóticas 2”, Cinco Continentes Editora LTDA, págs 367-458, Porto Alegre, 2002.
  • William Henry Chandler, “Frutales de hoja perene”, 1a edição em espanhol, versão do inglês por Jose Luiz de la Loma, Union Tipográfica Editorial Hispano Americana, págs. 310-323, México, 1962.

Professor Gerson Ferreira Pinto

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