Meio Ambiente e Reflorestamento

Cultivo De Cogumelos – Fungos Que Geram Lucros

cogumelos

A revista “A Granja” de Novembro-2005 publicou interessante artigo com o título “Cogumelos- Fungo que gera lucro” que transcrevemos em parte. O cultivo de cogumelos deixou de ser considerado perfumaria ou coisa de japonês no cenário da agricultura brasileira. Iguarias apreciadas pelos gourmets nos restaurantes mais requintados do mundo, eles vêm ganhando espaço entre os consumidores pátrios e conquistando paladares exigentes, tanto pelo sabor quanto por seus valores nutricionais e medicinais. (José Renato de Almeida Prado).

Para atenderem o mercado, produtores rurais estão vendo na fungicultura uma fonte alternativa de renda aos seus negócios e, com o suporte da pesquisa, vão se aprimorando cada vez mais na atividade. Além de saborosos, hoje se sabe que podem ser importantes aliados no tratamento complementar de muitas doenças, como câncer, lúpus, HPV (Vírus do Papiloma Humano) e até da AIDS, já que estimulam o sistema imunológico.

Os cogumelos são alimentos muito nutritivos, com quantidade de proteínas quase equivalente à da carne e acima de alguns vegetais e frutas. São ricos em vitaminas e carboidratos e têm baixo teor de gordura. Suas propriedades medicinais vêm sendo investigadas desde a década de 70, especialmente no Japão, China, França e Estados Unidos.

Seu cultivo requer espaço físico pequeno, período de tempo curto para a produção e a utilização de materiais residuais da agroindústria, conforme a técnica empregada. Para a maioria dos cultivadores, a estrutura de produção é baseada em mão-de-obra familiar. Seja qual for a técnica ou a espécie escolhida, o importante é conhecer bem o fungo, que exige dedicação e treinamento. E nisso produtores e pesquisadores fazem coro: é importante ter muita noção e saber onde estão os riscos antes de entrar no negócio.

No Brasil, estima-se entre 500 e 800 o número de proprietários rurais que se dedicam à fungicultura. O Estado de São Paulo é o maior produtor e conta com cerca de 200 fungicultores, concentrados na região de Mogi das Cruzes. Há também cultivos expressivos nos Estados de Minas Gerais, Mato Grosso e no Sul do País.

Em média, o consumo per capita nacional é de 30 gramas/ ano, segundo informações da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, com sede em Brasília. Na Alemanha, o consumo chega a 4 kg por pessoa/ ano; na França, 2 kg; na Itália, 1,3 kg. A falta de tradição e o preço relativamente elevado dos cogumelos no mercado brasileiro são os principais fatores para seu consumo ainda restrito. Um quilo de cogumelo fresco custa, normalmente, mais do que um quilo de carne de primeira.

Comercializados frescos ou desidratados, os cogumelos são vendidos no mercado interno diretamente pelos produtores a restaurantes, hotéis. Mercearias, feiras e supermercados, e também para empresas que processam e industrializam a matéria-prima. As espécies de Champignon de Paris (Agaricus bisporus), Shiitake (Lentinus edodes), Shimeji (Pleurotus ostreatus) e o Cogumelo do Sol (Agaricus blazei). Também são cultivados em menor escala o Cogumelo Leão (Hericium erinaceus), Enokitake (Flamulina velutipes) e Auricularia polytricha.

Segundo a professora Marli Teixeira de Almeida Minhoni, coordenadora de Ciências Agrárias da Unesp de Botucatu, embora inexistam levantamentos por órgãos oficiais, estima-se a produção nacional de cogumelos em 8 mil toneladas anuais. Ela ressalta que a produção ainda é considerada uma atividade …que precisa ainda de desenvolvimento de pesquisa e de coleta de dados, em razão de investimentos escassos, pouca tecnologia e manejo inadequado do sistema.

Ainda assim, é uma entusiasta. Para Marli, um dos aspectos fantásticos do cultivo de cogumelos é o uso de resíduos agrícolas e agroindustriais, que muitas vezes têm sido causa de poluição de sistemas. São materiais ainda ricos de energia, mas não disponíveis à alimentação humana ou animal. “Os cogumelos têm a capacidade de transforma-los para uma forma prontamente utilizável e ainda enriquecida em sais, aminoácidos, vitaminas, proteínas e, como se isto não fosse o bastante, tem-se ainda os compostos bioativos, como o KS-2, o lentinian, ácido hirsútivos, volvatosina, flamutoxina, ganoderan, beta glucanas, entre outros”, comenta. Os materiais são serragem de madeiras não-resinosas, bagaço de cana-de-açúcar, pilhas de braquiária e farelos. A formulação pode ser flexível em função da disponibilidade na região e dos custos.

Fazenda Dos Cogumelos

Fazenda Guirra, localizada em São João Xavier, distrito de São José dos Campos, no Vale do Paraíba, interior paulista, é uma referência nacional na produção de cogumelos. Com área de 217 há, sendo 130 há representado por mata nativa e áreas inaproveitáveis, 77 há de reflorestamento de eucalipto e 10 há de áreas efetivamente ativas, a propriedade, que é conhecida como “Fazenda dos Cogumelos”, é a maior exportadora do produto no País. Atrai diariamente desde turistas a candidatos a fungicultores interessados nos curos ministrados por seu proprietário, o zootecnista Carlos Abe.

Além da teoria, os alunos aprendem na prática como montar estufas, inocular as toras de eucalipto, desenvolver compostos para o cultivo de outros gêneros de cogumelos, além de aproveitar os resíduos em hortas orgânicas. Os cursos acontecem nos finais de semana e reúnem grupos de 60 a 70 pessoas. Segundo Abe, o cultivo do cogumelo é atraente devido o baixo investimento e à lucratividade.

A empresa conta com laboratório de produção de sementes, área de compostagem, estrutura completa para todas as fases de produção. “Fazemos desde a semente até a exportação” diz. A Guirra cultiva hoje apenas três espécies de cogumelos: o shiitake… por semana, o Agaricus blasei, que tem 90% de sua produção, cerca de 750 kg/mês, exportada para o Japão, e o champignon, cultivado predominantemente no inverno.

Carlos Abe diz que cada cogumelo é uma espécie diferente com exigências diversas. Todas, desde que bem conduzidas, podem trazer rentabilidade aos fungicultores. No caso do shiitake, segundo ele, para obter uma produção ideal, é importante que o produtor tenha madeira, o que vai baratear bastante. Ou que, pelo menos, esteja próximo de um reflorestamento.

Embora a produção possa ser feita por outras técnicas, o cultivo em toras de madeira é o mais difundido e indicado para iniciantes ou para quem conta com áreas de reflorestamento, caso da Fazenda Guirra. “Tenho eucalipto e floresta: se for fazer composto para produzir shiitake, vou perder dinheiro”, afirma. “É melhor cortar toras e alojar embaixo da floresta, o que é muito mais econômico para mim. ”

As sementes do shiitake são introduzidas em madeiras de eucalipto recém-cortadas, com diâmetro máximo de 15 cm. Após a semeadura, essas toras são empilhadas na mata ou bosque e aguardam por 8 a 12 meses até a primeira frutificação. Ao entrar no período produtivo ocorrem de 3 a 4 frutificações, com intervalo de 2 a 3 meses. O ciclo total é de um ano e meio.

Segundo Abe, em 140 metros quadrados de mata é possível alojar 4 mil toras (equivalente a 50 metros cúbicos de lenha). Essa quantidade de madeira produz cerca de 2.600 quilos de cogumelos shiitake frescos, que são vendidos em média pelo preço de R$15,00/kg, obtendo, então, uma receita bruta de R$39.000,00, sendo o custo aproximado de R$4.600,00. “Portanto, lucro líquido de R$34.400,00, ou seja, o equivalente a R$1.911,11 / mês.”. O produtor informa que se essa madeira fosse vendida como lenha, renderia apenas R$ 750,00.

Com o Agaricus blasei, espécie nativa e silvestre que se desenvolve nos campos (pastagens) em diversas regiões do Brasil, não é necessária essa área de mata. Seu cultivo exige resíduos- bagaço de cana, braquiária, palhas – para fazer a compostagem. O produtor vai precisar de uma área de 1.500 metros quadrados para fazer o composto e outros 500 metros quadrados para a área de estufas. Conforme Abe, é possível alojar 5 mil quilos de composto em estufa de 5 x 25 m com três canteiros.

Essa quantidade de composto produz em média de 60 a 70 kg de cogumelos secos que, vendidos ao preço médio de R$ 170,00 / kg, pode gerar uma receita de R$ 11.050,00, sendo o custo em torno de R$ 4.400,00 (comprando o composto),e em torno de R$ 2.650,00 (fabricando o composto), portanto um lucro entre R$ 6.650,00 e R$ 8.400,00 em 125 metros quadrados. A Guirra compra a produção de fungicultores cadastrados e treinados pela própria fazenda.

O trabalho que fazemos na fazenda Guirra é integrado: produzimos o composto aproveitando o resíduo do bagaço de cana de alambiques, pegamos palha de braquiária ou capim-elefante, cultivamos o cogumelo, e depois da produção, esse resíduo colocamos tudo nas hortas. ” O shiitake da Fazenda Guirra é vendido fresco e o agaricus blasei, desidratado e exportado em pó ou em pedaços.

Os produtores estão descontentes com o mercado interno no que diz respeito à comercialização do produto em pó, como já é feito em todo o mundo. Carlos Abe afirma que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não criou uma norma para a comercialização do cogumelo em cápsulas dentro do Brasil. “Há vários outros produtos, como berinjela, guaraná, que estão com a venda liberada em pó, em cápsulas, mas o agaricus balsei, não”, diz Abe, protestando pelo fato de o governo não ter nem sequer justificado a razão da proibição. “Como não conseguimos obter uma licença pra formalizar um indústria no Brasil, não conseguimos certificar essa empresa para fazer a exportação ao Japão na forma de cápsula, que seria uma forma de agregar valor. ”

Jun-Cao

A Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia tem divulgado por meio de cursos, livros e palestras uma técnica de cultivo chinesa que barateia o cultivo de cogumelos, por utilizar substratos de gramíneas e resíduos orgânicos, em vez de toras de madeira e serragem como os meios de cultivo tradicionais. O método de produção, conhecido como Jun Cão (Jun= fungo- Cão=gramínea), permite que o cultivo do fungo seja muito mais econômico, contribuindo para ampliar os mercados consumidores. A técnica foi adaptada para o Brasil, pela pesquisadora Araildes Fontes Urben, em 1995.

Segundo a pesquisadora, que é bióloga, fitopatologista e micologista, o substrato utiliza o capim ou gramíneas como principal componente, adicionando o farelo de arroz ou de soja, de trigo ou sorgo, e gesso agrícola. Diversas espécies de gramíneas e outros resíduos agrícolas apresentam potencial para utilização como substrato para o cultivo com técnica, como o andropogon, braquiária, resíduos de folhas de bananeira.”É possível misturar duas espécies de capim, palha de milho, casca de algodão, mas vai depender muito das espécies com as quais se está trabalhando.”

Aos resíduos vegetais secos e triturados em pequenos fragmentos, entre 0,5 e 1,0 cm, são adicionados os outros componentes, nas seguintes proporções: 78% de capim; 20 % de farelo; 2 % de gesso agrícola; e uma média de 8 a 9 litros de água para cada 5 kg da matéria seca. Pode ser acrescentada à mistura um pouco de serragem, caso o cogumelo seja do tipo que se desenvolve em cascas de árvore, ou seja, lignícola, para garantir maior produção. O substrato é acondicionado em sacos plásticos de polipropileno e esterilizado a 120 graus durante uma hora e meia.

As sementes são inoculadas no substrato, que é acondicionado em sala escura, com 70 a 80% de UR, à temperatura de 25 a 28 º C. Quando o substrato estiver completamente miceliado (20 a 40 dias, dependendo da gramínea ou resíduo utilizado), é transportado para um galpão ou casa de vegetação. A primeira das três ou quatro colheitas ocorrerá com 10 a 15 dias após a transferência do substrato. A produção total do processo utilizando gramíneas e outras espécies vegetais como substratos é, em média, de 250 gramas/ kg de substrato úmido.

A produção de sementes é uma técnica à parte, que requer conhecimentos mínimos na área de biologia, embora a Embrapa e outras instituições ministrem cursos sobre o assunto. Tudo começa com o próprio cogumelo. Ele tem de ser aberto para a retirada de fragmentos da parte vegetativa, sem que se toque nas lamelas e na parte inferior onde estão situados os esporos. Esses fragmentos são levados a laboratórios e colocados em meio de culturas artificiais, em placas de petri, sob luz florescente, à temperatura de 25 e 28

º C. Quando a placa estiver totalmente colonizada e o fungo desenvolvido, ele é transferido para substratos com grãos de cereais. Segundo Araildes Urben, as sementes de cogumelo são, na verdade, grãos de cereais onde o fungo se desenvolve, um veículo de propagação. Os grãos, normalmente de sorgo ou de trigo, são cozidos, mas não podem ficar muito moles, e recebem a adição de carbonato de cálcio. Aí, então, esses grãos recebem fragmentos de fungo e está pronta a “semente”, para ser transferida para o substrato final, à base de capim. Se o candidato a fungicultor achou complicado o processo, pode adquirir sementes de um produtor idôneo, a R$ 6,00 o quilo.

Rendimentos

Experiências na própria Embrapa mostram que numa área de 54 metros quadrados, sem mencionar os gastos com luz e água, mas só com o substrato do capim e farelo, é possível obter R$ 9 mil mensais. Para entrar no negócio, o produtor vai precisar de uma picadeira para triturar o campi, um pequeno fogão de duas bocas, dois botijões de gás, um tambor de metal, com capacidade de 200 litros, uma desidratadora, um galpão, que pode ser uma estrutura feita de bambu ou madeira fina, coberta lateralmente por sombrite e, em cima, por plástico preto. Os investimentos iniciais, computada a aquisição de sementes, pode chegar a R$ 10 mil.

A produção de cogumelos é considerada de risco elevado, porque exige muitos cuidados no manuseio e no cultivo. O fungo está suscetível a fatores climáticos, como temperatura, umidade, luminosidade, que podem alterar o produto final, e fatores bióticos, como pragas, fungos, bactérias, nematoides, que também podem causar problemas. “Todo cuidado no manuseio, monitoramento é altamente importante”, comenta Araildes.

A temperatura ideal varia de espécie a outra. O shiitake tem linhagens para diversas temperaturas, mas a média fica entre 18 e 22 graus. Já o shimeji é muito cultivado a 18 gaus; o cogumelo-rei e o cogumelo-do-sol entre 25 e 28 graus. Para baixar a temperatura pode se valer de vários artifícios, utilizando ventilador, ar condicionado e umificador.

A Embrapa vem executando pesquisas com cogumelos para uso humano desde 1996. Foi organizado um Banco de Germoplasma de espécies de interesse alimentar e medicinal, através de coletas realizadas em diversas regiões brasileiras e da introdução, no País, de espécies exóticas. O banco conta hoje com cerca de 300 espécies / linhagens de interesse alimentar e medicinal.

O objetivo dessa coleção é disponibilizar informações acerca das características e propriedades dos cogumelos para a pesquisa agropecuária brasileira. Essas informações podem ser usadas em programas de melhoramento genético, visando chegar a soluções tecnológicas que promovam a saúde, melhorias nutricionais e a qualidade de vida da população. (Reproduzido de A Granja, novembro/2005 p. 58 a 61).

Nota

Indicamos a leitura deste artigo com 20 receitas sobre Cogumelos.

Eng Agr Ruy Gripp

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