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Panteão Dos Heróis de Curar do Dr. Júlio Sanderson

Um livro interessante, com o título “Panteão dos Heróis de Curar”, do Dr. Júlio Sanderson, publicado em 1995, quando o autor era Diretor Cultural da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, no Biênio 1994/1995 nos despertou para reproduzir extratos da literatura publicada, pois traz informações e comparações muito importante para os dias atuais, como:

Apresentação 

Ainda que a magnificência da vida dos Heróis da Arte de Curar, nos acarretasse a obrigação de escrever um livro nas dimensões de uma enciclopédia, o texto despretensioso que ora publicamos, como reverência à obra de valor universal, pode ser didático para quem se inicia, como primeiro estágio de uma leitura que deve se ampliar com o avanço dos conhecimentos. Para os que já sabem mais, não restringe o saber; para os que ainda não cuidaram do assunto, pode ser um prefácio.

Mas perseguiremos um interesse mais ambicioso: dar força à ideia de se erigir um panteão em praça pública, em homenagem aos que se empenharam pela preservação da vida – médicos, químicos, físicos, pesquisadores, cientistas enfim – de todas as épocas, de todos os lugares.

Em praça pública – a praça é do povo, como o céu é do condor”- onde já estão os monumentos aos heróis das guerras, armas em punho, para que as crianças e jovens saibam que também salvar vidas é heroísmo que merece exaltação. O presente texto oferece um roteiro para esse Panteão, como o libreto é o texto da ópera.

Essa ideia já ganhou forma, nas pranchetas do arquiteto Antônio de Pádua Mendes, desenhos iniciais de Luis Seixas, seguido de outro desenhista Mario Jacy. O engº. José Eduardo Queiroz de Andrade completou o plano de execução da obra, calculando os elementos da materialização do projeto arquitetônico.

Também colaboraram com a realização desse livro, Francisco Kapps, na organização; Catharina da Conceição Antunes, com trabalho datilográfico, promoção da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro e apoio do Banco Boston.

Prefácio 

A ideia é simplesmente uma imagem que se imprime no meu cérebro. Portanto podemos dizer que todas as nossas ideias são imagens”.

Há muito sonhamos libertar, para o convívio com a humanidade, os seus heróis eclipsados pelos pregadores da guerra sempre a trombetear seus feitos.

O último brinquedo engendrado pelo consumismo para o lazer dos “menores” é a espingarda que atira no adversário uma bala plástica, à guisa de projétil. O menino se diverte, fingindo que mata e se habitua, banaliza a morte desejada, provocada, ainda que simulada. Um programa de televisão – Fantástico – apresentou uma guerra simulada: promovia a guerra, não a paz.

Era o que dizíamos há meses atrás, antes da inútil guerra do Golfo Pérsico: hoje o despótico Saddam continua vivo, com armas nucleares, como também seus adversários. A guerra veio e fez heróis de matar. Uma grande farsa em torno do cobiçado petróleo do Kwait, com morte, fome, desabrigo e doença.

Vejamos a guerra sob o ponto de vista médico.

Introdução 

O médico terá que ser o protagonista da sua própria história. É um conselho kantiano, pinçado em sua ética do Formalismo, que nós estendemos à situação do médico.

Dois pecados capitais devem ser proscritos da vida médica: o medo e a alteração. Só há um meio de evitar que as minorias empolguem o poder: é levar as maiorias ao poder.

Isso não se faz com medo do risco ou com alteração no comportamento. Faz-se com fé, acreditando na força da mobilização, acreditando na sensibilidade do médico. Os novos carecem da solidariedade dos mais velhos, com superação do preconceito de conflito de gerações. A cultura humana é uma progressão sem fim e pertence a todas as gerações.

Afirma-se que o jovem médico está atolado no pragmatismo, com natural desdobramento para o imediatismo. É possível que exista uma certa influência consumista em sua conduta, já que atingido pelo hedonismo dos dias que passam, quando o bom se confunde com o útil.

Mas não podemos injustiçar os jovens. Os jovens, levados no roldão de uma vida aflita, mergulhada no consumismo, realmente se afastam um pouco da necessidade introspectiva de meditação e autocrítica. Em nosso julgamento sincero, não achamos que sejam totalmente alterados.

Acredito e por isto repito que o jovem pode ser jejuno em relação à problemática do médico em suas minudências, mas não é abúlico. Ele tem fome de conhecer. Ele deseja saber e ingressar na legião dos que constroem a cultura humana pensando, agindo e repensando. Só assim se enriquece o patrimônio cultural.

Que seja uma advertência, despretensiosa advertência, a nossa colaboração para a formação do cabedal do médico. O médico que volte à comunidade, escrevi há mais de 8 anos do advento da Nova República. P. 13

Dois personagens num mesmo episódio: o soldado e o médico.

Aos 40 anos do terrível aniversário da bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki, a televisão mostrou para todo o Brasil dois quadros de grande força didática. No primeiro, a condecoração do oficial que despejou a bomba sobre as cidades japonesas, no segundo, o Dr. Sasaki, um médico que acudiu os atingidos pela radiação, em entrevista, chorando e dizendo que se soubesse que a queimadura atômica acarretaria o câncer, não teria salvo algumas crianças.

O médico japonês não foi condecorado porque é um herói de curar e não tem nenhuma importância na visão belicosa do mundo.

Esta é uma visão canhestra, que nos cabe modificar pela mobilização para a paz, em torno do herói de curar.

Nós os médicos juramos defender a vida, só que estamos temerosos ante os fabricantes da guerra, que possuem o domínio da informática, que precisam manter um sistema financeiro injusto, anticristão, antiético, pragmático, em busca de dominação e da extorsão do terceiro mundo.

Através de séculos o homem dominou quase tudo na natureza, transformou a Terra em favor de sua permanência e de sua perpetuação como espécie. Contudo pouco se aperfeiçoou como ser humano, do ponto de vista da conduta pessoal na contenção do egoísmo.

Sempre busca o hedonismo, mesmo em prejuízo do seu semelhante. Amar o próximo como a si mesmo é um desafio que permanece vivo e intocável. O egoísmo se agiganta na alma do homem e lhe obscurece a razão. Entende-se porque o médico é tragado pelas labaredas do mercantilismo.

Evidentemente porque vive numa sociedade mercantilista que excita a cobiça e lhe tolda a consciência. “Nos últimos 50 anos cresceram dois gigantes na alma do médico – a Ciência e a Arte. Tenho medo que o conluio bastardo dos dois gigantes leve à morte o Sacerdote, que não deve desaparecer”, escrevemos em dezembro, 1987.

O homem tem a marca do seu tempo, é um animal temporal e histórico, vivendo numa sociedade que se transforma, que muda iterativamente e que não se repete. É necessário ser intolerante com o mercantilismo, e também, ríspido com a desídia do médico funcionário.

Ambos conspiram contra a maioria que é fiel à norma ética. Os mais ingênuos justificam os dois erros, alegando dificuldades econômicas, desemprego e injustiça social., esquecidos que toda a sociedade está sendo injustiçada: somente alguns privilegiados, 5%, vivem tranquilamente, do ponto de vista material.

O paciente também está sendo injustiçado e numa hora difícil, já que não escolheu a doença. A doença aparece ao acaso e a medicina por necessidade. A doença agrava todas as dificuldades do homem e o médico é o que melhor sabe disso.

O sacerdote não pode desaparecer. O lucro não é o estímulo. O estímulo é a cura, quando possível, e o apoio quando incurável a doença. O consolo, sempre. Sempre consolar quando for impossível fazer alguma coisa eficaz.

Moral e ética

A coexistência é uma imposição q que somos submetidos, sem que, de maneira direta e particular, sejamos cabalmente informados de onde viemos e para onde vamos, excluída a interpretação de fé. A coexistência é uma imposição, mas a convivência é uma necessidade. A coexistência é um imperativo, a convivência uma consequência.

O quinto pecado capital de Signorelli é a guerra, a insensata guerra cruel, guerra intensamente preparada pelas nações que aproveitam as vocações e despertam dentro do homem a necessidade de armar-se para matar, ainda dizendo que é para defender.

Eufemismo usado pelos dois lados na luta fratricida. Assim nos deparamos com o desespero da mobilização para a guerra. Passado a guerra a mobilização continua no culto aos heróis, que é o início da mobilização para uma futura guerra.

Que dirão os habitantes da Terra no futuro dos séculos, sabedores de que fabricávamos instrumentos de matar com mais afinco e vontade do que instrumentos de curar e conservar o corpo humano?

Os heróis das guerras são exaltados em todos os cursos de todas as escolas do mundo inteiro. Todas as crianças recebem permanentemente uma catequese destinada a criar um critério de valores, no qual o herói que mata, mesmo que defendendo, é o único e o maior herói.

Todas as crianças do mundo conhecem os heróis militares que comandaram as vitórias nas guerras e nas batalhas, onde os mais fortes na arte de vencer pela morte derrotaram os menos fortes.

O nosso herói, o herói de curar, é um opositor da morte. Para nós da equipe de saúde, a morte não é vitória, a morte é a derrota. A nossa estratégia não visa à eliminação do homem. Visa a manter o homem vivo, em pleno uso das faculdades que lhe permitam a vida, ainda que certo de que a morte é inexorável.

O futuro vai julgar nosso atraso. O homem aperfeiçoou tudo, mas não se aperfeiçoou a si próprio. Permanece matando na ilusão de que encurta a distância para chegar aos seus objetivos. Consegue iludir os jovens fazendo uma permanente apologia da guerra, nos brinquedos das crianças, nos filmes de guerra e até na compulsão das convocações militares.

As maiores figuras da história humana são facilmente esquecidas, quando não escondidas deliberadamente, porque representam a paz, e os guerreiros não toleram a paz e gritam logo: “Se deseja a paz prepare para a guerra” é ainda o grande lema da mobilização permanente. Hitler recolheu o livro “Nada de novo no front”, de Erik Rimarque, porque era um libelo contra a guerra.

Enquanto as crianças, na escola, ouvem a exaltação de guerreiros, entre clarins, bandeiras, tambores e marchas, levam para o subconsciente uma imagem do herói de armas na mão atirando nos chamados inimigos. Esmagá-los ao peso dos carros de combate, à espera do desfile de glórias no dia do armistício, que nunca é o único em cada geração.

Nunca foi tão oportuno, como neste resto de século, recriar para admiração das pessoas a imagem do verdadeiro herói, que é a um tempo o sábio e o santo, em síntese, o herói de curar. P. 22

Eng Agr Ruy Gripp

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