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Lindo Discurso Sobre a Bíblia de Danoso Cortês

Em Antologia da Eloquência Universal, de Péricles a Churchill, de Antônio Faustino Porto Sobrinho encontramos o discurso com o título “Sobre a Bíblia” de Juan Danoso Cortês (Político, orador e publicista espanhol, primeiro marques de Valdegamas, 1809-1853 que transcrevemos, da página 240 pela importância e beleza dos seus conceitos e referencias.

“O discurso de Danoso Cortês “Sobre a Bíblia” é um dos instantes de maior inspiração desse pensador católico e diplomata que fulgura, ao lado de Emilio Castelar, nas culminâncias da eloquência espanhola.

Ressalte-se haver um plágio IPSIS VERBIS do referido discurso, da responsabilidade de Alves Mendes, pregador português de nomeada, vivido na segunda metade do século passado.

De idêntica pujança estética e a oração que Danoso Cortês pronunciou, perante a Câmara espanhola, abjurando suas ideias liberais a favor de um absolutismo monárquico-cristão.

“Livro prodigioso aquele, no qual o gênero humano começou a ler, faz trinta e três séculos e, lendo nele todos os dias e todas a horas, ainda não acabou sua leitura. Danoso Cortês.

Há um livro, tesouro de um povo que é hoje fábula e ludíbrio da terra, e que foi, em tempos passados, estrela do Oriente, onde foram beber sua divina inspiração todos os grandes poetas das religiões ocidentais do mundo, e no qual aprenderam o segredo de emocionar os corações e de arrebatar as almas com sobre-humanas e misteriosas harmonias.

Esse livro é a Bíblia, o livro por excelência. Nele aprendeu Petrarca a modular seus queixumes; nele viu Dante suas terrorificas visões; daquela fornalha tomou o poeta de Sorrento os esplêndidos resplendores de seus cantos.

Sem ele, Milton não teria surpreendido à mulher em sua primeira fraqueza, ao homem em sua primeira culpa, a Luzbel em sua primeira conquista, a Deus em sua primeira ira; nem teria podido dizer às pessoas a tragédia do Paraíso, nem cantar, com canto de dor, a desventura e o triste destino dos seres humanos.

E para falar de nossa Espanha: quem ensinou ao mestre Frei Luiz de Leon a ser simplesmente sublime? De quem aprendeu Herrera sua entoação elevada, imperiosa e robusta?

Quem inspirava a Rija aquelas lúgubres lamentações, cheias de pompa e de majestade, plenas de tristeza, que deixava cair sobre os campos murchos e sobre os outeiros, e sobre as ruínas dos impérios, como um manto de luto?

Em que escola aprendeu Calderón a transportar-se às eternas moradas sobre as plumas dos ventos? Quem pôs diante dos olhos de nossos grandes escritores místicos os obscuros abismos do coração humano?

Quem pôs em seus lábios aquelas santas harmonias e aquela vigorosa eloquência, e aqueles improvisos sublimes e aqueles suavíssimos acentos de caridade e de casticismo amor, com que algumas vezes surpreendiam a consciência dos pecadores e outras levavam até o arrebatamento as puras almas dos justos?

Suprimi a Bíblia com a imaginação, e havereis suprimido a bela, a grande literatura espanhola, havê-la-eis, pelo menos, despojado de sus mais sublimes fulgores, o de seus esplêndidos atavios, de suas soberbas pompas e de suas santas magnificências.

E ainda mais que as literaturas se deslustrem, com a supressão da Bíblia ficariam todos os povos em trevas e nas sombras da morte. Porque na Bíblia estão escritos os anais do céu, da terra e do gênero humano: nela, como na divindade mesma, está contido o que foi, o que é e o que será.

Em sua primeira página, se encontra o princípio dos tempos. Começa o Gênesis, que é o idílio, e acaba com o Apocalipse de São João, que é um hino fúnebre. O gênesis é belo como a primeira brisa que refrescou os mundos; como a primeira aurora que se levantou no céu; como a primeira flor que brotou nos campos; como o primeiro sol que surgiu no oriente.

O Apocalipse de São João é triste como a última palpitação da natureza; como o último raio de luz; como o último olhar de um moribundo. E entre este hino fúnebre e aquele idílio, veem-se passar, uma após outra, á vista de Deus, todas as gerações, e, um após outro, todos os povos.

As tribos passam com seus patriarcas; as repúblicas com seus magistrados; as monarquias com seus reis e os impérios com seus imperadores. Babilônia passa com sua abominação; Nínive com sua pompa; Mênfis com suas artes e heróis; Roma com seu diadema e com os despojos do mundo. Ninguém permanece, senão Deus; tudo o demais passa e morre, como passa e morre a espuma em que se vai desfazendo a onda.

Ali contam-se ou se predizem as catástrofes, e, por isso, estão ali os modelos imortais de todas as tragédias; ali se faz a recontagem de todas as dores humanas; por isso as harpas bíblicas ressoam lugubremente, dando os tons de todas as lamentações, de todas as elegias.

Quem voltará a gemer com Jô, quando, derrubado no monturo por uma mão excelsa que o oprime, enche com seus gemidos e umedece com suas lágrimas os vales de Iduméia? Quem voltará a lamentar-se como se lamentava Jeremias em torno de Jerusalém, abandonada por Deus e pelas pessoas?

Quem será lúgubre e sombrio, como era sombrio e lúgubre Ezequiel, o poeta dos grandes infortúnios e dos tremendos castigos, quando dava aos ventos sua arrebatada inspiração, espanto de Babilônia?

Contam-se ali as batalhas do Senhor, em cuja presença são vãos simulacros as batalhas dos homens; por isso, a Bíblia, que contém os modelos de todas as tragédias, de todas as lamentações, contém também o modelo inimitável de todos os cantos de vitória.

Quem cantará como Moisés do outro lado do Mar Vermelho, quando cantava a vitória de Jeová, a derrota de Faraó e a liberdade de seu povo? Quem voltará a cantar um hino de vitória como o que cantava Débora, a Sibila de Israel, a amazona dos hebreus, a mulher forte da Bíblia?

E se dos hinos de vitória passamos aos hinos de louvor, em que templo ressoarão jamais, como no de Israel, quando subiam ao céu aquelas vozes suaves, harmoniosas, consertadas com o delicado perfume das rosas de Jericó e com o aroma do incenso do Oriente?

Se procurais modelos da poesia lírica, que lira falará comparada com a harpa de Davi, o amigo de Deus, o que trazia aos ouvidos do homem as suavíssimas consonâncias e os dulcíssimos cantos das harpas angélicas; ou com a harpa de Salomão, o rei sábio e felicíssimo, que pôs a sabedoria em sentenças e provérbios e acabou por chamar de vaidade à sabedoria; que cantou o amor com seus prazeres e desgostos, e sua dulcíssima embriaguez e seus saborosos êxtases e seus eloquentes delírios.

Se procurais modelos de poesia bucólica, onde os encontrareis tão frescos e tão puros como na bíblia do patriarcado, quando a mulher, a fonte e a flor eram amigas, porque todas juntas e cada uma de por si eram o símbolo da primitiva simplicidade e da cândida inocência? Onde encontrareis senão ali os sentimentos puros e castos e o pudor dos esposos e a misteriosa fragrância das famílias patriarcais?

Livro prodigioso aquele, no qual o gênero humano começou a ler, faz trinta e três séculos e, lendo nele todos os dias e todas as horas, ainda não acabou sua leitura. Livro prodigioso aquele que vê tudo e sabe tudo; que sabe os pensamentos que se levantam no coração do homem, e os que estão presentes na mente de Deus; que vê o que se passa nos abismos do mar e o que sucede nos abismos da terra; que conta ou prediz todas as catástrofes dos povos, todos os tesouros da justiça e todos os tesouros da vingança e onde se encerram e entesouram todas as maravilhas da misericórdia.

Livro, enfim, que quando a terra desmaiar e o sol recolher sua luz e as estrelas apagarem-se, permanecerá ele apenas com Deus, porque é eterna sua palavra, ressoando eternamente nas alturas”.

Nota: Assim, reproduzimos esta belíssima página de Danoso Cortes sobre a Bíblia, contidas nas páginas 240 a 242 de Antologia da Eloquência Universal.

Eng Agr Ruy Gripp

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