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Piscicultura e Tilapicultura – A Multiplicação Dos Peixes

Globo Rural: Fevereiro/2019

Na capa temos: Com investimento em genética, o Brasil já é o quarto maior produtor de tilápia e se prepara para conquistar o filé do mercado global da aquicultura.

Da página 34 a 31 temos: Este é o “frango” dos peixes. Carne sem espinhos, bom rendimento de filé, velocidade de crescimento e ótima taxa de conversão fazem da tilápia a proteína do futuro. Texto Vinicius Galera, de Paranaiba (MS), Ilha Solteira (SP) e Londrina (PR). 

A piscicultura entrou definitivamente na era o globalismo. E nesse território o embaixador do país é a tilápia. O potencial de crescimento da espécie, que já foi queridinha dos pesqueiros, e se disfarçou sob o nome de saint peter nos restaurantes por quilo e nas gôndolas de congelados, desperta a atenção de grupos estrangeiros que veem na imensa reserva de água doce no país uma extraordinária oportunidade para elevar a produção de proteína mais consumida no mundo.

A frente desse movimento estão empresas como a Àquabel, produtora de alevinos sediada no norte do Paraná, adquirida em 2016 pelo grupo alemão EW, player mundial da piscicultura.

Os alemães decidiram investir no Brasil devido à demanda global e ao potencial de maior crescimento da atividade no país. “O Brasil hoje é o quarto maior produtor mundial de tilápias e tem perspectivas de se tornar o segundo.

Para isso, é preciso um muito grande nos próximos anos. Isso vai ocorrer de qualquer maneira. Não é uma possibilidade, mas uma necessidade”, diz o CEO da Aquabel, Ricardo Neukirchner, que fundou a empresa com sócio Claudio Batirola na década de 1990.

A história da Aquabel está ligada a história da produção da tilápia no país. Muitas inovações e regulamentações para os piscicultores foram possíveis graças ao trabalho dos sócios.

A criação começou como uma alternativas às áreas de arroz irrigado da fazenda da família de Ricardo na cidade de Rolândia (PR). A ideia era fornecer peixes para os pesqueiros que trabalhavam no sistema de pesque-pague, então em franca expansão.

Ricardo conta que naquela época o valor da produção de 1 hectare de peixe equivalia a 56 hectares de soja e milho. “Todo mundo começou entrar no peixe”, lembra. “Eu tinha 6 hectares de produção, mas não conseguia comprar alevinos. Como eu só fazia tilápia, decidi montar uma empresa para fornecer alevinos aos pequenos”

Segundo o empresário, o mercado piscicultor é muito informal. Desde o começo, Ricardo buscou interlocução com diversos governos para conseguir uma legislação mais efetiva para a atividade.

Com isso, acabou se tornando membro fundador de diversas associações de piscicultores, sendo a maior delas a Associação Brasileira de Piscicultores, a Peixe BR, onde hoje preside o conselho de administração.

Hoje, a Aquabel dispõe de dez unidades em seis Estados, onde cria alevinos (os filhotinhos), entre os quais se incluem os juvenis, como são chamados os peixes “adolescentes”, que pesam entre 20 a 80 gramas. A capilaridade permite a distribuição em praticamente todo o Brasil.

Os alevinos são o primeiro produto que um piscicultor pode comprar. Se ele não quer correr o risco maiores riscos de mortalidade ou quer diminuir o tempo dos peixes em sua propriedade, ele compra juvenis”, explica. Depois os juvenis, restam os peixes gordos, aqueles prontos para o abate e que são terminados em viveiros escavados ou em tanques-rede (gaiolas depositados em rios ou lagos).

Os preços do alevinos ou dos juvenis podem variar entre RS 120 e RS 650 o milheiro, dependendo do tamanho. Já a tilápia pronta é vendida por quilo. O peixe inteiro custa, em média, RS 5, enquanto o quilo de filé é vendido por RS 27.

A Aquabel investe muito em biossegurança, o que segundo Ricardo, não é muito comum na piscicultura nacional. A empresa desenvolveu uma incubadora artificial dos ovos de tilápia que simula as condições de nascimento dos alevinos.

Na natureza as fêmeas fazem o ninho onde depositam os ovos, que depois são fecundados pelos machos. As fêmeas então recolhem os ovos na boca, onde os mantém até depois do nascimento.

Se há perigo, eles voltam para a proteção na boca da mãe. “A incubadora artificial imita a natureza fazendo com que as larvas de tilápia nasçam em laboratório, além de garantir o controle e a variabilidade genética dos lotes.”, diz Ricardo. Coletando os ovos das bocas dos peixes, é possível saber, do total de fêmeas acasaladas, quantas desovaram.

Na criação, os machos apresentam maior ganho de peso e têm melhor aproveitamento de filés. Por isso, depois de passarem pela incubadora, os alevinos, que nesse momento ainda não têm sexo definido, passam por um processo de reversão sexual por meio da alimentação, o que garante o fornecimento de praticamente 100% de tilápias do sexo masculino.

A partir de 2002, a Aquabel passou a investir mais seriamente no melhoramento genético. A entrada da genética na criação provocou uma mudança substancial. “Antes o melhoramento era feito pelo fenótipo.

Hoje, quem manda é o genótipo”. A empresa trabalha com alevinos de tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus). Para não depender de importação, desenvolveu uma linhagem chamada Tilápia Premium, dominando o mercado brasileiro.

Com os investimentos do EW Group, a Aquabel planeja vender algo entre 100 milhões e 120 milhões de alevinos neste ano, além de instalar novas unidades em Minas Gerais, Mato Grosso e Bahia. Para os próximos, a projeção é chegar a algo entre 300 milhões a 400 milhões.

“Vai depender de como o mercado caminha e de como a genética vai se comportar.” Ainda neste mês, a empresa deverá ser a primeira piscicultura brasileira a receber o certificado Best Aquaculture Practices (BAP), que reconhece a qualidade da produção e as condições sanitárias e trabalhistas. O selo garante melhores preços aos frigoríficos que exportam produtos certificados.

O potencial da produção brasileira, associado à boa imagem que o agronegócio do país ostenta lá fora, despertou o interesse de grandes grupos, que passaram a acompanhar e investir na tilapicultura nacional.

Depois de realizar consultas e visitas técnicas em 2016, o EW Group comprou 75% da Aquabel. O grupo é especializado em genética de aves como frango e peru.

Na área do peixe, tem uma empresa com atuação na Noruega e Chile que é líder mundial em genética de salmão e de truta. Em 2017, foi a vez de adquirir a GenoMar, empresa filipina líder na genética da tilápia. Segundo Ricardo, a entrada EW deve a tilapicultura. “Estamos fazendo algo sem precedentes”, diz. “É incrível o que vai acontece nesse mercado daqui a dois anos. Estamos passando do frango caipira para o frango industrial.”

A PRODUÇÃO DE TILÁPIA NO BRASIL EM 2017 FOI DE 357 MIL TONELADAS. A comparação com o frango não é a toa. Além da praticidade de uma carne sem espinhos, a tilápia atende a alguns requisitos considerados padrões para o melhoramento genético, como rendimento de filé, velocidade de crescimento, conversão e sobrevivência. Por isso, a espécie é considerada o “frango dos peixes”.

MERCADO –Os pescados são a proteína mais consumida no mundo. Estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, a FAO, estimam que em 2017ª produção de peixes de cultivo e de captura resultou em 172 milhões de toneladas.

A tilápia é segunda espécie mais cultivada. Fica atrás somente da carpa. No Brasil, em 2017, a produção fo de 357 mil toneladas. Foi naquele no ano, com um crescimento de 10%, que o país se tornou o quarto mercado produtor do mundo, superando criadores tradicionais com Filipinas e Tailândia.

Segundo os cálculos da Peixe BR, a participação da espécie no mercado brasileiro de peixes de cultivo foi de 52%, enquanto o IBGE estimou 58%. “Os números de 2018 ainda não estão fechados, mas podemos afirmar que a participação da tilápia no ano passado foi maior ainda”, diz o presidente executivo da Associação, Francisco Medeiros.

O posicionamento do Brasil no mercado da tilápia é um atrativo para os produtores. Por isso além de um trabalho para estimular o consumo interno, a Peixe BR estabeleceu uma parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Investimento (Apex-Brasil) para promover a tilápia e o tambaqui. De acordo com o relatório norueguês Introfish, e 2016 os Estados Unidos, maior comprador mundial, importaram USS 1 bilhão em tilápia. A espécie também foi a quinta mais importada pela União Européia em 2015, com 49.300 toneladas.

No ano passado a liberação da tilapicultura em Goiás, Mato Grosso e Tocantins potencializou ainda mais o promissor mercado brasileiro. O caso do Tocantins é especialmente celebrado pela cadeia do peixe. “A regulamentação libera para a produção de 200 mil toneladas de peixes de cultivo.

É praticamente um terço do que o Brasil produz, comemora Francisco. Segundo os piscicultores, o Estado tem uma temperatura excelente para a criação o ano inteiro. “As liberações são muito importantes porque além de serem regiões que tem muita água, elas também têm grande disponibilidade de grãos – 70% do custo de produção de peixes vem da ração.

Outra expectativa dos produtores é a liberação da piscicultura nos lagos das hidrelétricas. “Temos pedidos aguardando a liberação na Secretaria especial de Aquicultura e Pescado Ministério da Agricultura para a produção de mais de 3 milhões de toneladas de peixe.

Claro que, se isso entrar em produção, nós não temos mercado interno, o que torna mais importante o á exportação”, afirma o executivo. Segundo Francisco, novas fronteiras como o Pará e o Amazonas devem ficar em suspenso enquanto o setor espera pela definição da política ambiental do novo governo.

Em grandes quantidades, as fezes dos peixes de criação podem ser poluentes. Por isso, qualquer projeto só pode ser iniciado com autorização do órgão ambiental local. A Agência Nacional de Águas (ANA) tem uma metodologia de análise de corpo hídrico que determina o volume de peixes que podem ser criados no local de modo anão provocar impacto no meio ambiente.

GENÉTICA – O melhoramento genético do peixe é uma atividade recente quando comparado à produção de proteína de bois, porcos e frangos. A largada foi dada em 1988, com a Gift Project (Genetically Improved Farmed Tilapia , ou Criação de Tilápia Geneticamente Modificada, em tradução livre), conduzido a partir das Filipinas. A Ásia é um dos berços da piscicultura. O continente é o que mais produz e consome peixes no Mundo.

Os responsáveis pelo Gift capturaram quatro linhagens de tilápias cultivadas em Israel, Singapura, Taiwan e Tailândia e cruzaram com linhagens nativas de Egito, Gana, Senegale Quênia (a tilápia é um peixe originário da África). A idéia era formar a população base para o melhoramento genético da espécie. O programa acompanhou dez gerações de tilápias.

“Após o termino do projeto Gift, a empresa norueguesa GenoMar adquiriu os direitos de comercialização da genética desenvolvida”, diz o geneticista e diretor do Centro de Melhoramento Genético na América Latina, Diones Bender Almeida.

Normalmente, o abate comercial da tilápia é feito quando os animais atingem 1 quilo, o que equivale a um ciclo entre cinco a seis meses de vida. O tempo pode variar de acordo dom a densidade (número de peixes por metro cúbito), a qualidade da ração e a qualidade da água e o clima. Mas, nas Filipinas, os piscicultores trabalham com uma linhagem que tem rendimento maior. “Existem trabalhos que demonstram que essa linhagem pode atingir 1 quilo em 120 dias ou quatro meses.

A expectativa da Aquabel é trazer essa linhagem filipina, chamada GenoMar Supreme Tilapia, para o Brasil. Segundo a empresa, o processo da autorização está bastante adiantado. A conclusão deve sair ainda no primeiro semestre.

“O objetivo é adicionar um ciclo por ano. Hoje, o produtor faz dos ciclos. Com a nova linhagem, ele poderá reduzir o tempo de abate em dois meses. Assim, será possível produzir até três ciclos”, afirma Diones. Ricardo Neukirshner explica que a entrada dessa genética será divisor de águas na tilapicultura.

“O EW Group está buscando no genoma marcadores específicos para as características do peixe. Eles já dominam a genética do salmão há seis anos e isso vai causar uma revolução na tilápia. Os produtores terão mais renda e isso vai alavancar a economia.

EXPORTAÇÃO- Até março de 2020, o EW Group espera inaugurar em Palmas, no Tocantins, o GenoMar Genetics, que deve ser o principal centro de genética da tilápia do mundo.

A expectativa é que o centro, que deve receber investimentos entre RS 10 milhões e RS 12 milhões, possa oferecer um cardápio com opções como melhor rendimento de filé, maior resistência a doenças, maior aceitação de níveis de salinidade, maior conversão alimentar, mais resistência ao frio, entre outras alternativas.

O grupo poderá desenvolver linhagens para serem produzidas no Brasil e exportadas para outras empresas, países, e unidades que o EW pretende abrir na América Latina, como o caso da Colômbia, previsto para este ano. Além do mercado interno, os brasileiros esperam aumentar as exportações.

Segundo Francisco Medeiros, da PeixeBR, a tilápia é comercializada em 140 países, mas a participação do Brasil nesse mercado é insignificante. O país exporta o filé de peixe para os Estados Unidos e Canada, além de alguns subprodutos, como pele escama para o Japão. “Todo mundo quer este mercado. Temos 137 países a serem conquistados.”

A Geneseas, empresa de aquacultura com unidades no interior de São Paulo, Mato Grosso do Sul e no Ceará, é uma das poucas produtoras brasileiras de tilápia que acessam o mercado americano com exportação de filés de tilápia frescos e congelados.

O trabalho foi iniciado há mais de 20 anos, segundo o CEO da empresa, Roberto Haag.” No começo, não vendíamos muito, mas todo ano mandávamos alguma coisa”. Em 2015, a empresa foi comprada pelo grupo de private equity Aqua Capital, o que potencializou os investimentos e o crescimento das exportações.

Roberto explica que a Genescas cresceu muito nos últimos anos e atravessa uma nova onda de expansão. “Estamos no meio de um projeto que vai dobrar a capacidade da planta de Aparecida do Taboado (MS) de 14 mil toneladas para 26 mil toneladas por ano”, afirma. Além disso, a empresa está investindo na engorda de tilápias na unidade de Santa Fé do Sul (SP) para aumentar volume de processamento.

Neste ano, as vendas externas devem corresponder por 20% do volume de tilápias produzidas pela Geneseas no Brasil. No ano passado o número correspondia a 10%. A expectativa de crescimento, de acordo com Roberto, reflete o aumento da produção nacional.

O executivo lembra que os brasileiros consomem, em média, cerca de 11 quilos de pescados por ano. “Há países que consomem mais de 30 quilos”, diz .” Temos planos de fomentar o crescimento da tilápia porque o setor é muito desestruturado no Brasil. Você não tem incentivo para a população, mas acreditamos muito no potencial da tilápia. É isso que dá embasamento para o plano de expansão.

Nota: Pelo exposto do Globo Rural, fevereiro de 2019 sobre o imenso potencial do Brasil na produção de peixe, devemos pensar na produção em nossa região. Tanto nos municípios mineiros como nos capixabas, situados no contorno do Parque Nacional do Caparaó existem ótimas condições para a piscicultura.

Possui abundante volume de água cristalina, com nascentes em minas d’agua dando origem a formação de vários rios, ótimas para a piscicultura domestica das centenas de pequenos propriedades existentes.

Nos referimos a uma exploração tecnicamente conduzida, com pequenas tanques escavados, onde as águas derivadas dos córregos seria represada, adubada, monitorada semanalmente. Este tipo de exploração praticamente não gasta água, exigida apenas para repor a água evaporada ou infiltrada.

Exige uma adubação correta e equilibrada dos elementos químicos para a produção do placton vegetal (algas) denominada fitoplancton que dá origem ao zooplancton animal.

As algas se multiplicam fixando energia solar na fotossíntese, liberando o Oxigênio existente na própria água. Mas tem que haver um equilíbrio de fertilizantes químicos na adubação com Nitrogênio e Fósforo, na relação 10/1 N/P, e a acidez corrigido pelo calcário para pH entre 7 a 8 (média de 7,5).

Nos excelentes livros que adquirimos em 2004 em Vitoria – ES, quando participamos lá de um importante encontro sobre piscicultura, do especialista no assunto, Dr. Fernando Kubitza, Ph.D. com os títulos Qualidade da Água no cultivo de peixes e camarões e Tilápia – Tecnologia e Planejamento na produção comercial encontramos respectivamente nas páginas 150-154 e na página 64 um quadro informativo e prático da adubação inorgânica ou quimia: aplicar por hectare de lamina d’água a quantia de 2 quilos de Nitrogênio e sempre 10% de Fósforo e relação N/P de 10/1.

Assim deduzimos: se é diariamente, por ano (365 dias x 2= 730 kg/ano/ha de N ) e 200 gramas de P/dia ou 73 kg do elemento fósforo por ano.

Nenhum outro livro sobre piscicultura, dos vários que possuímos traz informações bastantes claras, como nos livros citados. Alguns perguntam: e o Oxigênio? Necessário na água para o peixe respirar.

A informação técnica é que na fotossíntese da produção primaria das algas o Oxigênio é liberado na multiplicação e produção do fitoplâncton, dando origem ao Oxigênio livre, que é um dos componentes na água para a respiração dos peixes. Oportunamente iremos reproduzir as informações técnicas para obter e manter a boa qualidade da água.

Ruy Gripp – 02-04-2019.

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