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Sem Açúcar Com Afeto de Sonia Hirsch

O Livro com o título acima, de Sonia Hirsch, Rio de Janeiro, 1984 e sub título “Como evitar um vício doce e mortal” resolvemos reproduzir trechos do mesmo dado a importância das informações sobre o assunto.

“Lenda, é? Pois sim. Contam que o Diabo ficou doente de inveja quando Deus criou Adão e Eva, seus seres mais perfeitos, e resolveu se vingar. Destruindo-os, é claro. Mas tinha que ser lentamente, de um jeito bem sutil, bem inocente, para ninguém desconfiar; e com alguma coisa muito gostosa.

Inventou o açúcar. E logo espalhou um pouco na terra, de forma que todos os seus rebentos tivessem um gostinho ligeiramente doce. Foi ai que aconteceu o episódio da maçã. Não tinha aquela história de fruto proibido, serpente e coisa e tal? Pois eram arte do Demo. E Eva não só seduziu Adão, como já na primeira mamada passou pro filho o prazer do doce na boca. Como comia frutas, a Eva!

Deus, que naqueles tempos ainda era meio sujeito a crises de mau humor, ficou danado. Falou, explicou lá da maneira dele que o amargor da vida é que era o quente, depois esbravejou, chegou a proibir a coisa, não conseguiu nada e acabou expulsando os três do Paraíso. Eles foram embora triste que só vendo.

Andaram, andaram e finalmente chegaram na Índia, embora também se diga que foi no Egito, e armaram um ranchinho ao lado de um canavial. Claro que o Diabo, esse imoral, estava por trás de tudo; um dia se disfarçou de pedra e esmagou uma vara de cana de um modo que o caldo foi espirrar bem na boca do Adão.

Cana, pra que te quero? Virava caldo, o caldo secava, sobravam umas peras doces no fundo. Às vezes ficavam cheias de formiguinhas e Adão reclamava um pouco, mas comia do mesmo jeito. Às vezes comia tanto que chegava em casa meio torto e Eva resmungava um bocado, se lembrando nessas horas de Deus e achando que ali tinha coisa.

Deus tudo via e tudo sabia. Só que tinha decidido deixar o barco correr. Não dera a eles o precioso bem da inteligência? Pois eles que se virassem. – Oh, Senhor! – protestavam os anjos. – Mas assim vai ficar tudo do jeito que o Diabo gosta!

Deus, nem te ligo. Se fazia de surdo. Mesmo porque andava muito ocupado planejando a era de Peixes, por coincidência esta que está terminando agora e que é curiosamente simbolizada por um bicho que morre pela boca.

— Terra à vistaaa!— grita o marujo lá do alto da gávea. – Ó Manoel, traz as mudinhas de cana! – grita o comandante lá do fundo do porão. Andavam com elas a bordo, os portugueses, por volta de 1500. O açúcar importado do Oriente era a droga mais cara e cobiçada da Europa. Tinham que encontrar outros solos tropicais para plantá-la. Ai descobriram a América.

Alcova, gemidos e sussurros, frufru de lençóis de seda. De repente um suspiro: -Aha…. – Que foi? — Eu queria mais um tiquinho… – Quê? Você tá ficando viciada! –Ah, bem, só mais um pouquinho… Uma fileirinha de nada… Dá? –Hum. — Só mais uminha, queridinho… Juro… É bom… – Tá bem, tá bem, mas é a última desta semana, entendeu? –Claro, meu amor… Dá logo!!!

ERA DROGA MESMO, como a cocaína é hoje: uma coisa refinada até mais não poder que vai direto para o sangue e causa uma série de alterações físicas e mentais no consumidor.

Alguém duvida de que o açúcar dá barato? Olha só os não-alimentos que a gente ingere por puro prazer: álcool, café, fumaça de tabaco e de outras ervas, chá, cheiro de perfume, ar puro de montanha, todos eles dão barato. Uns estimulam, outros acalmam, alguns aumentam a percepção.

Açúcar dá uma certa bobeira mental, cientificamente explicada pelo encontro da insulina com um aminoácido chamado triptofano que é rapidamente convertido no cérebro em serotonina, um tranquilizante natural. Madame está nervosa? dá água com açúcar pra ela que passa. Ou não é?

Na Índia, alguns séculos antes de Cristo, os médicos usavam o açúcar como remédio, provavelmente para ele conduzir mais rapidamente no organismo as substâncias às quais era adicionado. Mas aquele tempo o processo ainda era artesanal. Foi só ali pelo ano 600 que os persas bolaram a rapadura, que podia ser transportada, e ai começou o tráfico.

Na Europa não tinha açúcar, era tudo importado do Oriente e custava uma fortuna, de modo que só os nobres podiam comprar. Os pobres se contentavam com mel e as frutas, frescas ou secas como as passas, as tâmaras, os figos, as ameixas.

Nada de drogas para os pobres. Os ricos, em compensação, mandavam navios e mais navios para o Oriente em busca de seda, metais preciosos e “especiarias”. Especialmente açúcar.

Em 1450 os portugueses e suas grandes navegações já estavam ficando ricos com esse comercio. Nada mais natural, portanto, que em 1532 Martim Afonso de Souza instalasse em São Vicente o primeiro engenho de açúcar no Brasil. Movido a escravos, é claro –20 milhões de africanos dançaram nessa brincadeira multinacional.

E eis que a Inglaterra se torna o maior freguês: em 1665 já importava 8 milhões de quilos de açúcar por ano. Por coincidência, nesse mesmo ano a chamada peste bubônica mata em Londres 30.000 pessoas que apresentavam inchações nas axilas e nas virilhas.

Pessoas que tinham acesso açúcar, porque no campo, entre os pobres, não se sofreu nada. E ninguém desconfiou da relação entre a nova doença e o espantoso consumo de açúcar? Que, como se sabe, predispõe o corpo a infecções? Desconfiou, mas ficou calado. Afinal, o poder econômico britânico estava florescendo no açucareiro e seria crime de lesa-magestade insinuar que a Coroa enriquecia às custas de um vício pernicioso, não é mesmo?

100 anos mais tarde as importações inglesas se multiplicavam para 60 milhões de quilos por ano. A vizinha França, onde tudo sempre foi muito fino, tinha técnicas excepcionais para refinar o açúcar bruto trazido pelos navios das nações amigas, de modo que no século XVIII, essa era sua exportação mais rendosa, Aí Napoleão resolveu a fazer guerras. Ah, é?, disse a Inglaterra, e revidou com um bloqueio naval que impedia o açúcar bruto chegar lá.

Teve gente que gostou: seria queda de Napoleão e a saúde do povo francês. Mas o tiro saiu pela culatra, pois apareceu um cientista chamado Benjamin Delessert que conseguiu, soai trombetas!, extrair o açúcar da beterraba. Bravo! Napoleão lhe espetou no peito a Legião de Honra, mandou o povo plantar beterrabas e em apenas um ano a França produzia 4 milhões de quilos dessa coisadoida chamada açúcar. Estavam salvos Napoleão, a pátria e os escravos do setor canavieiro francês.

É nessa altura que os americanos do norte, last but not least, entram no clube. Inventam o motor a vapor; a panela de pressão, e um método revolucionário de produzir carvão com ossos de animais; isso tudo misturado joga no mercado um açúcar não só mais branco como também mais barato.

Com sotaque latino e mão de obra escrava, já que 90% da cana vinha de Cuba. Não há registro, mas o lema devia ser “Açúcar para Todos”, pois em 1893 os norte-americanos consumiram sozinhos mais açúcar do que o mundo inteiro refinou em 1865.

E ninguém dizia nada? Dizia. Desde 1600 as autoridades inglesas sabiam que boa coisa não era, tanto que proibiram severamente o uso do açúcar para apressar a fermentação da cerveja. Em 1792 os melhores cientistas da Europa fundaram uma sociedade anti-sacarita.

Em 1912 o Dr. Robert Boesler, dentista norte-americano, escrevia que “a moderna fabricação do açúcar nos trouxe doenças inteiramente novas. O açúcar comercial nada mais é do que um ácido cristalizado. No passado seu preço era tão alto que somente os ricos podiam utilizá-lo, então ele não provocava, do ponto de vista da economia nacional, nenhuma consequência.

Mas hoje seu preço baixo está provocando a degeneração dos seres humanos e é hora de insistir num esclarecimento geral. A perda de energia provocada pelo consumo de açúcar no século passado e na primeira década deste não poderá ser reposta, tendo já deixado a sua marca na raça humana.

Por milhares de anos o álcool tem sido usado sem causar a degeneração de toda uma ração. O álcool não contém ácidos destrutivos. Mas aquilo que foi destruído pelo açúcar está perdido e não pode ser recuperado.

Tadinho do Dr. Boesler, deve ter morrido arrancando os cabelos, porque nesta época a grande moeda americana era lançar coisas doces no mercado, inclusive a cocacola. Que originalmente era um xarope à base de cocaína, noz de cola e açúcar indicada contra dor de cabeça, vejam só. Se cocaína podia, porque não poderia o açúcar?

Mas os médicos, farmacêuticos e paladinos da saúde estavam preocupados, sim: com uma nova doença mortal chamada diabetes mellitus, que fazia as pessoas eliminarem o açúcar pelo urina, ou seja, vazarem pelo ladrão. Não faltou quem financiasse pesquisas.

Finalmente descobriram o x da questão: era o pâncreas das pessoas afetadas, esse incompetente, que produzia quantidades insuficientes de um hormônio chamado insulina. Palmas para o Dr. Frederico Banting, que em 1923 ganha um Prêmio Nobel por inventar um jeito de extrair insulina do pâncreas de animais mortos para injetar na veia dos animais vivos!

Sinal verde para todos comerem açúcar sem culpa! E adiantou ele a avisar, desesperado, que a insulina não cura e que o único meio de vencer a diabete é “parar com essa perigosa embriaguez de açúcar”? Nada. Cada vez morriam mais pessoas diabéticas, acionistas extremamente confortáveis para a indústria farmacêutica. Como se vê, o açúcar era um bom negócio para todos.

E melhor ainda durante a Lei Seca, quando era ilegal beber álcool nos Estados Unidos. A diabetes é a terceira doença que mais mata nos Estados Unidos e o consumo de açúcar subiu às alturas.

Hoje existem 6,5 milhões de diabéticos oficiais no Brasil. Morrem 300.000 por ano nos estados Unidos. A diabete é a terceira doença que mais mata, depois do câncer e dos problemas cardíacos. Das crianças que nascem agora, uma em cada cinco vai ser diabética: e entre jovens e adultos, três em cada cinco têm hipoglicemia – estágio pré-diabético em que o pâncreas produz insulina demais em resposta ao açúcar ingerido.

Em comparação com uma pessoa sadia, o diabético tem 25 vezes mais chance de ficar cego, 17 vezes mais problemas renais, 40 vezes mais tendências a gangrenas e amputações, 2 vezes mais propensão a problemas coronários.

Os efeitos menores do açúcar podem ser enxaquecas, gastrite, pressão descontrolada, fadiga, acidez, gengivas sangrando, impotência, infecções crônicas, glaucoma, catarata, descolamento da retina, cegueira, obesidade, problemas intestinais, disfunções hormonais, hemorroidas, cáries, dificuldade de concentração e aprendizado, ansiedade, depressão, neuroses. Fora as infelicidades sem diagnóstico.

Mas não se pode viver completamente sem açúcar! – Protesta alguém no meio da multidão perplexa. Verdade. E mais que verdade, não se pode absolutamente viver sem açúcar.

Mas seguramente não se trata de açúcar refinando, esse cristal de sacarose 99% pura; não se pode viver é sem glicose, um tipo de açúcar produzido pelo organismo a partir de quase tudo o que a gente come – cereais, legumes, verduras. Esse é o que dá energia.

É todinho preparado pelo aparelho digestivo para esse fim. Sem ele a gente não anda, não pensa, não funciona. Já com açúcar refinado, que nos rouba minerais, vitaminas e proteínas, afeta o sistema nervoso e altera todas as funções físicas e mentais, a gente anda, a gente pensa, a gente funciona – mal.

1984, BRASIL. Rodoviária do interior de Minas. Você pede um café amargo, não tem; já vem doce. Barraca de baiana, em Salvador, mingaus para tomar de manhã, algum de sal? Imagina. Tudo doce. Lanchonete em Fortaleza, um suco de manga, delicia da região. Já vem com açúcar.

São Paulo, o pão francês mais gostoso o Brasil. Também com açúcar. Qualquer conserva comercial leva açúcar, até os picles. Biscoitos cream cracker “integrais” levam açúcar, tá lá no rótulo. Cereis matinais levam açúcar “demerara”, que é açúcar do mesmo jeito. Os refrigerantes são 25% açúcar, a cerveja quase isso. Tabaco de cigarro que a gente fuma é curtido com açúcar. A tevê diz que o chocolate é gostoso e alimenta, então você agradece à Santa Nestlé por poder se alimentar com gordura e açúcar.

As filhas da Dina Sfat se empapuçam publicamente de um refresco que é puro açúcar com flavorizantes e colorantes, então porque as nossas filhas não podem? Danoninho vale por um bifinho; só que bifinho não tem açúcar. Catchup leva açúcar. Carnes defumadas levam açúcar. Pasta de dente leva açúcar. Drágeas de vitaminas levam açúcar.

Uma pessoa da classe média come em média 150 gramas de açúcar por dia. Pobre toma água com açúcar pra enganar a fome—e engana porque a reação ácida do estomago ao açúcar é tão forte que ele fica paralisado, para de contrair de fome.

E pasmem, naturalistas que se esforçam heroicamente para acostumar o paladar ao açúcar mascavo ele deveria ser um açúcar crú, melado cristalizado, mas infelizmente a maior parte do que se encontra por aí é açúcar branco com 10 a 15% de melado misturado pra ficar marrom.

Tenho um amigo que come mito açúcar. Um dia perguntei a ele se já tinha ouvido falar no Sugar Blues, de William Dufty, o melhor livro sobre açúcar que eu conheço. Ele disse que já. “Mas não quero ler, não”, explicou.

“É uma porrada muito forte. Eu adoro tudo o que é doce, bala, porcaria. No cinema gasto mais com os bombons, do que com a entrada. Em casa, quando não tem doce na geladeira eu fico louco. Já saí altas madrugadas rodando a cidade atrás de um pudim de leite. Agora: se eu leio um livro desse, tô perdido.

Porque eu vou ficar sabendo que faz um mal danado, vou me sentir obrigado a tentar parar e minha vida vai virar um inferno porque eu não vou conseguir. Pode crer. Não vou conseguir viver sem açúcar. P. 19

Comecei a me viciar aos 6 meses de idade, quando tomei a primeira mamadeira com açúcar. Depois foram as geleias, as sobremesas, as balas de leite da Kopenhagen, os bombons Sonho de Valsa, os tabletes de Diamante Negro e por aí afora.

Mamãe tinha sempre um chocolate na bolsa. Me levava para comprar sapatos e de quebra eu ganhava balas de alcaçuz e pedras de açúcar candy. Mas quem me aplicou na grande doçura da vida, aquela incomparável, capaz de satisfazer o âmago do meu insaciável desejo, foi meu irmão: dois furinhos na lata de leite condensado, por um entra o ar, e pelo outro a gente mama. Aí, Moça. Por sua causa meu irmão ficou diabético e morreu aos 41 anos num sofrimento atroz.

Meu pai punha açúcar nas frutas, antes mesmo de provar.” Mas meu bem, o mamão já está doce!” dizia minha mãe. “Pois vai ficar mais doce, ué!, respondia ele, que a partir de 70 anos teve que parar com isso porque, claro, diabético, etc.

Tomei gosto. Sempre guardava alguma coisa doce no quarto, na bolsa, na mesa da redação, no carro. Com 22 anos entrava numa doceira e comia seis delicias de uma vez—quindins, brigadeiros, cajuzinhos, fios de ovos, olho-de-sogra, mousse de chocolate, essas coisas. Pudim de clara, aí. Pastel de nata no Restaurante Leite, no Recife, hummm!! Torta de maçã com creme em Nova York, profiteroles na Brasserie. Lipp de Paris, After Eight em Londres. Bacci em Roma, não admira que sempre ficasse mio deprimida viajando. P.22

Programa de fim de semana: passar as tardes lendo e comendo bombons da Kopenhagen. Paria? Pelo menos dois picolés de coco e um de chocolate.

Pelo vade mécum de Betty, que era minha melhor amiga e estudava psicologia, o meu caso era neurose maníaco-depressiva com traços esquizoides. Mas eu, no fundo, achava que era maluca mesmo, sem tirar nem pôr. Uma hora estava bem, de repente ficava muito mal, num momento os caminhos brilhavam claros e possíveis na minha cabeça, no outro já me sentia sem rumo e prestes a cair no choro.

Casei, descasei, atravessei crises, fiz análise, um dia larguei tudo e fui morar no sítio.

Ah, viver no campo! Bom que dói. Parei de comer carne; era arroz integral, feijões, legumes, verduras, frutas frescas, café com rapadura, aipim com melado, maconha e leite condensado. Banho de cacheira, subida de morro, passeio de bicicleta, olhar perdido nas borboletas silvestres, por aí.

Eu só não entendia por que não era feliz. Andava mole, negativa, sem perspectivas.

Um dia acordei me sentindo toda entorpecidas. As juntas dos dedos grossas. Braços e pernas dormentes, formigando. A cabeça pesava, me sentia deprimida. Muita preguiça, muito calor, os olhos cheios de secreção, vontade de continuar dormindo. Dormi. Acordei mais deprimida ainda. Nas semanas seguintes o quadro foi piorando e achei que ia morrer.

Quem me salvou foi Pai José das Almas, preto velho de um terreiro de umbanda que olhou para mim e disse: “Suncê tá pensando que tá miluca, filha? Mas não tá não, suncê tá é com o sangue doce. Suncê tem que pará com esse sucri. O branco, suncê esquece. O preto e o mel, só de vez em quando.” E Vovó Catarina, ali do lado, de pito na boca, ensinou um truque: “Já tomou chá da folha de jamelão nega? Pruque você não toma, nega? É bom, limpa o sangue de suncê…

Simples, não? Nada de laboratório, exame de sangue, teste de tolerância à glicose: simples como tudo foi simples na medicina natural, que se examina pelos olhos, pelos resto do rosto, pelos pulsos, pela postura, pelas vibrações que você emite.

Não pensei das vezes, não pensei nem uma, estava decidido: o açúcar tinha que sair da minha vida, porque era ele ou eu. A leitura de Sugar Blues reforçou o que o Velho tinha dito—a maior parte das pessoas pré-diabéticas não sabe que é pré-diabética.

A hipoglicemia tem uma constelação de sintomas que bem podem ser confundidas com milhares de outras coisas, inclusive neurose maníaco- depressiva com traços esquizoides.

E vendo isso me lembrava dos meus tempos de análise com uma sensação que nem sei como definir — porque antes de subir para o consultório sempre parava na esquina pra tomar um milk-shake de chocolate, aí começava a sessão dizendo que estava ótima e meia hora depois entrava na maior ansiedade. A terapeuta, claro, interpretava isso dentro dos padrões psicocôisicos, e eu sabia que não era por ali mas não tinha como contestar. P.24

Já sei como me sentia: traída. Bastava um milk-shake pra me derrubar.

Psicólogos do mundo, psiquiatras, psicanalistas, uni-vos – a nós. Nem só de palavras vive o homem. E muito mais pode haver entre o divã e a cabeça do que supõe a nossa vã filosofia. Fígado tem a ver com humor, pulmões e intestinos com melancolia, açúcar com grilos mentais. Mens sana in corpore sano, vocês se lembram?

A lata de leite condensado ficou intacta na geladeira durante um ano, até ser jogada fora. Fácil? Nada. Tinha de tomar o chá de jamelão todo dia, fazer exercícios, prestar muita atenção no que comia porque um queijo salgado, por exemplo, puxava a irresistível vontade de traçar um pacote inteiro de banana passa –natural, mas ainda assim prejudicial pela quantidade.

Qualquer desbunde desse tipo me deixava frágil, vulnerável, sentimentaloide. Aprendi na marra que a macrobiótica tinha razão: yin atrai o yang, yang atrai yin; se você come carne ou ovos, que são extremamente yang, o corpo vai pedir algo extremamente yin como açúcar, álcool e muitas frutas num movimento natural de equilibrar as coisas. É a gangorra.

Você põe peso de um lado, tem que pôr o mesmo peso no outro. A grande jogada é equilibrar no centro dela, comendo coisas como cereais, legumes e verduras, que por si mesmas tem uma proporção de yin e yang adequada à estabilidade da gente.

Me agarrei no arroz integral. A bem da verdade, confesso que me empapuçava de arroz integral com gersal e salsa por conta de todos os brigadeiros e quindins que não comia. Levei anos pra entender que o negócio é comer pouco e bem, dentro dos limites da necessidade e do bem estar; levei anos também para saber que umas profiteroles de vez em quando – aquelas divinas bolinhas de massa finas recheadas com sorvete e cobertas por caldas quente de chocolate que no Rio só a Casa Suiça sabe servir – não matam.

Hoje eu entendo que saúde é principalmente uma questão de discernimento e paciência. Sobretudo se você está tentando se livrar de um vício sobre o qual ninguém avisou. Se as leis sobre drogas fossem inteligentes, a primeira a ser proibida teria que ser o açúcar. Come-se por compulsão, cria dependência, mata.

Sofri diante das vitrines e nas festinhas de criança, roubei pudim de leite escondida de mim mesma, devorei sub-repticiamente pacotes inteiros de biscoitos de chocolate. Tentei me iludir com os doces e bombons naturais, feitos com mel e mascavo, até me render à evidência de que um pâncreas sensível não suporta uma rotina de doces. Aprendi a duras penas que a diferença entre remédio e veneno está no dose.

Mas valeu – se não fosse assim eu hoje seria uma pessoa diabética, viciada em insulina, sexualmente insatisfeita, jogando toda a minha negatividade numa literatura angustiada e certamente caminhando a passos largos para a clínica onde minha tia Violeta, diabética, querida, morreu como esquizofrênica.

Açúcar é isso. Afeta o pâncreas, o baço, o estômago, a circulação, os pulmões, o coração, a pele, os intestinos, os ovários, a vagina, os dentes, os ossos, o fígado, os olhos, o cérebro e a alma.

E os canaviais estragam a terra. Do jeito que o Diabo gosta.

Você sabe que uma coisa vicia quando ela produz: 0- dependência física; 0- tolerância; 0-necessidade irresistível; 0-desejo adquirido; 0- psicotoxidez; 0-psicose na abstinência; 0-psicose na abstinência. Se já pensou no açúcar marque um X em todos os quadradinhos.

Até a página 27 das 116 páginas deste interessante e instrutivo livro. Os interessados em estudar toda a obra de Sonia Hirsch, poderão adquirir no endereço do livro, sendo essa a 6º Edição em 1984. – Caixa Postal 41.004 Cep. 20.242- Rio de Janeiro-RJ.

NOTA:

Neste site, entre as dezenas de artigos sobre alimentos integrais temos o artigo que publicamos em 1984 com o título “Melado –Alimento e Remédio” divulgando os testemunhos de várias pessoas da nossa região de Minas Gerais sobre as virtudes do melado da cana de açúcar.

Muitas focalizavam a dificuldade em encontrar o melado no comercio para ser adquirido. Então formulamos a explicação: melado, açúcar mascavo e rapadura é as mesma coisa, tem todos as mesmas propriedades e virtudes.

O melado é uma rapadura derretida e o açúcar mascavo uma rapadura esfarelada, moída. A diferença está na quantidade de água que é maior no melado. Também informávamos da possibilidade de comprar a rapadura no comercio e derrete-la na panela no fogão em casa.

Aproximadamente um copo d’água para cada rapadura de um quilo, podendo nesta ocasião purificar mais o melado coando num pano, caso tenha vestígios de impurezas do bagaço da cana.

Nunca afirmamos que diabéticos poderiam usar rapadura ou melado, mas que em igualdade equivalente de quantidade em relação ao açúcar branco, o mal seria menor por possuir as vitaminas e minerais existentes no caldo da cana, mas que são eliminados no processo de purificação para obter o do açúcar industrial.

Ruy Gripp- 06-05-2019

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