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Erosão – Destruição Das Terras Pelo Homem de Jean Dorst

No livro “Antes que a Natureza Morra” de Jean Dorst, 1973, Ed. da Universidade de São Paulo, no capitulo 5, pagina 132 encontramos: A Destruição das terras pelo homem. “ Em relação ao que foi outrora, nossa terra transformou-se num esqueleto de um corpo descarnado pela doença. As partes gordas e macias desapareceram e tudo que resta é a carcaça nua”. Platão, Criticas, III.

1.- Erosão natural e erosão acelerada. O capital natural mais precioso é, indubitavelmente, o solo. A sobrevivência e a prosperidade do conjunto das comunidades biológicas terrestres, naturais ou artificiais, dependem em última análise do fino estrato que constitui a camada mais superficial da terra.

Como nos primeiros tempos da humanidade, e apesar dos progressos realizados pelas indústrias de síntese à base de produtos minerais, o homem extrai ainda do solo a quase totalidade das substâncias de que necessita, e a maioria das matérias-primas que servem para fabricação de seu vestuário e até mesmo de seus objetos usuais.

O solo não é estável, nem inerte; muito pelo contrário: constitui um meio complexo em perpetua transformação, submetendo-se a leis próprias que regem sua formação, sua evolução e sua destruição.

Forma-se um ponto de contato da atmosfera, da litosfera, e da biosfera; participa intimamente nesses mundos tão diversos , pois mantém relações constitutivas com o mundo mineral, assim como com seres vivos. Tal como estes últimos, os solos possuem um verdadeiro metabolismo.

A decomposição da rocha-mãe sob a ação de agentes físicos variados (fatores térmicos, ventos, precipitações atmosférica), e a sua transformação pelos seres vivos, constituem processos anabólicos que produzem os solos; em contrapartida, estes podem ser destruídos pelos mesmos agentes dinâmicos: o conjunto desses fenômenos, que se agrupam sob o nome de “erosão “, constitui um verdadeiro catabolismo das camadas mais superficiais do globo.

Se bem que comportando sempre as mesmas modalidades, a erosão apresenta, no entanto, intensidades diferentes, pois o homem pode modificá-la consideravelmente. Existe uma erosão natural, inevitável, evidentemente. Efetua-se em ritmos lento. O desparecimento de uma parte das matérias que constituem o solo é compensado, pela decomposição da rocha-mãe e por elementos alóctones carreados por forças físicas.

Assim, os solos encontram-se geralmente em equilíbrio, pelo menos nas condições médias que reinam atualmente à superfície do globo. Paralelamente, porém, a esse fenômeno geológico normal, que faz parte da própria evolução da terra, existe uma erosão acelerada, fenômeno artificial, consequência.

Desse modo não é esse o caso da erosão acelerada maus cuidados dispensados aos solos pelo homem; nesse processo acelerado as perdas já não são compensadas pelas transformações locais do substrato geológico ou pelas contribuições aluviais.

Essa forma brutal da evolução dos solos é a consequência direta da modificação profunda, ou mesmo da destruição total, dos habitats originais, que já não estão protegidos por uma cobertura vegetal suficiente.

Diz-se do que é transportado de uma região para outra: o que é originário de outra região.

A erosão natural está na origem da fertilidade do solo. A modificação das rochas-mãe produz solos “vivos”. As matérias mobilizadas pelos ventos e pelas chuvas enriquecem os locais onde se acumulam em camadas de vasa extremamente fértil.

Um exemplo clássico é o das lamas arrastadas pelo Nilo, durante as enchentes, que fizeram a prosperidade do Egito: o único solo cultivável deste país, concentrado no delta e numa estreita faixa ao longo das margens, foi trazido pelo rio dos planaltos etíopes.

Será preciso relembrar, como disse o geógrafo grego Hecataeus, de Mileto, no século VI antes de Cristo, que o Egito é uma dádiva do Nilo? Todos os meios naturais do globo devem sua prosperidade a esses processos erosivos que estão na origem de toda e qualquer forma de vida.

Naturalmente o Nilo, que enriquece certas regiões depositando os materiais trazidas por suas águas , esta continuamente empobrecendo outras regiões, das quais retira os referidos materiais que transporta para depositar no seu delta e numa estreita faixa ao longo de suas margens.

Para que tenha ideia da importância do trabalho das águas nesse setor, lembremos o caso do Amazonas, que lança ao mar, com suas águas, algumas centenas de milhões de toneladas de nutrientes minerais e de matéria orgânica, anualmente. P.133

Tais valores, determinados nas condições naturais da região, seriam aumentados de forma alarmante, atingindo cifras que nem podemos prever, caso o homem viesse a interferir, em larga escala, na natureza, por exemplo destruindo a floresta em grandes extensões (nota do Coordenador).

Não é esse o caso da erosão acelerada que constitui um impacto mais sério do homem sobre o seu meio, aquele que até hoje teve consequências mais pesadas. Após os primeiros estágios da modificação dos biótopos climáticos pelo homem – fase que já evocamos anteriormente a humanidade em perpétuo crescimento, acentuou sua pressão sobre as terras emersas, transformando progressivamente os habitats naturais.

Certas porções do globo têm uma incontestável “vocação” agrícola; uma administração racional pode manter essa fertilidade num nível muito elevado, e talvez mesmo aumentar a produtividade natural (fertilidade adquirida). Práticas de cultivo mal concebidas, no entanto, provocaram a ruína, por vezes irremediável, de uma parte considerável do globo.

O homem desbravou então novos territórios, levado por uma “fome de terra” resultante do aumento das suas populações e da destruição das zonas anteriormente convertidas em terras de cultura, mas já estéreis; o estimulo do lucro e uma espécie de necessidade instintiva de moldar a superfície da terra segundo os seus desejos constituíram também poderosas motivações.

Desse modo, o homem invadiu terras marginais, sem “vocação“ agrícola, e cuja produtividade e equilíbrio só podem ser assegurados pela conservação das biocenoses naturais, pelo menos no estado atual dos nossos conhecimentos. A destruição de certos habitats originais conduziu a situações desastrosas, evidentes tanto para o “protetor da natureza” quanto para o economista.

As terras profundamente erodidas em consequência da ação do homem ocupam superfícies espantosas. Em 1939 Bennett calculou que durante 150 anos, aproximadamente, a história dos Estados Unidos, nada mais nada menos que 114 milhões de hectares de terras cultiváveis foram arruinadas ou seriam empobrecidos; a erosão acelerada eliminou , numa superfície de 313 milhões de hectares adicionais , uma parte considerável dos horizontes superficiais que constituem a terra arável.

A degradação estendia-se, na época, num só dia, sobre 600 ha aproximadamente (120 dos quais de terras cultivadas) ou seja, 220.000 hectares por ano. Cada ano, a erosão levava 2,7 bilhões de tonelada de materiais dos campos e das pastagens dos Estados Unidos, 650 milhões de toneladas só para o Mississipi.

Mesmo se se descontarem os efeitos da erosão natural, essas cifras impressionantes dão ideia da grandeza do empobrecimento de um país, quase intacto há um século e meio; os prejuízos dessa erosão alcançaram 2.400 milhões de cruzeiros (1939), sem contar os danos secundários (regime das águas, navegação, inundações, etc).

Semelhantes considerações podem ser estendidas a quase todas as partes do mundo, especialmente a região do mediterrâneo, maltratadas desde épocas tão remotas, e mesmo na Europa Ocidental e Central, onde, no entanto, práticas de cultivo seculares e altamente conservadoras, deveriam ter limitados os danos.

Assim, na França, 5 milhões de hectares, dos quais 2,8 milhões estão situados ao sul que liga Andorra a Modane, apresentam sinais de erosão (500 ha são afetados pela erosão eólica, o resto por efeitos das precipitações), não apenas devido a um empobrecimento em matéria orgânica, mas também pelo fato da camada arável ter sido deslocada (inquérito do Ministério da Agricultura; Paris- 1950). P.134

A erosão acelerada é mais perceptiva ainda nas regiões intertropicais, onde, ao contrário do que se pensa geralmente, os solos são muito menos férteis e infinitamente mais frágeis do que nas regiões temperadas.

Em Madagascar, por exemplo, os desflorestamentos e as queimadas que são praticados de há 5 e mesmo 20 séculos , para cá, nos planaltos, comprometeram gravemente a fertilidade da ilha, assim como sua flora e sua fauna selvagens: Humbert (1959) calcula que numa superfície total de 58 milhões de hectares, apenas 5 milhões estão ainda cobertos com vegetação primária, enquanto que 4/5 da ilha sofreram as consequências de uma erosão ativa.

Trata-se portanto, de um mal generalizado que assumiu proporções catastróficas devido aos meios técnicos utilizados pelo homem moderno.

O problema capital do futuro da humanidade e da sobrevivência dos habitats naturais não pode ser tratado aqui em profundidade, pois constitui objeto de uma ciência particular, a pedologia.

Traçaremos apenas um quadro rápido da degradação das terras e de suas modalidades, sobre as quais foram publicadas obras já clássicas. Uma volumosa literatura é consagrada a esse assunto todos os anos.

Estudaremos brevemente os modos de ação da erosão acelerada e os seus sintomas; em seguida, examinaremos como o homem provoca essa erosão, evocando também as possíveis soluções para essa catástrofe. Um agravamento desse fenômeno significaria, sem dúvida, o fim da humanidade, ou, pelo menos, da civilização contemporânea. P. 139

2- Modalidade da erosão acelerada. – Sem entrar no pormenor dos diferentes tipos de erosão, relembramos que esse fenômeno é de origem eólica: os ventos provocam a remoção das partículas soltas, cujo diâmetro se situa entre 0,1 a 0,5 mm, e a suspensão dos elementos de diâmetro inferior a 0,1 mm. As partículas arrastadas são sempre relativamente finas, pois o vento efetua uma seleção local, abandonando rapidamente as parte mais grosseiras, por evidentes razões mecânicas.

As poeiras mais tênues podem ser levadas a grandes altitudes, e transportadas, deste modo, a distâncias considera, antes de tornarem a cair sobre o solo, por vezes sob a precipitações de lama.

O agente de destruição dos solos mais poderoso é, no entanto, constituído pelas chuvas violentas que provocam a ruptura dos agregados e a dispersão dos cimentos. A erosão pluvial reveste formas diversas.

A erosão que se faz por camadas descama uniformemente, sobretudo nas vertentes suaves e regulares, a camada superficial, rica em humos, sem modificar o aspecto geral ou relevo, durante os primeiros estágios.

Em geral pouco visível no início, portanto particularmente perigosa, traduz-se apenas por imperceptíveis modificações na cor do solos e pelo aparecimento de pedras que permanecem no local enquanto que os materiais mais finos m que elas estavam imersas vão desaparecendo.

O elemento que estabelece a ligação entre os vários constituintes do solo, assim como as partículas finas, são retiradas, provocando um rápido empobrecimento das terras em elementos nutritivos e uma baixa capacidade de retenção da água, com todas as consequências previsíveis sobre a vegetação, cujo desaparecimento progressivo agrava os efeitos da degradação.

Essa forma de erosão, por vezes lenta e insidiosa, assume em certos casos proporções consideráveis: nos Estados Unidos (Connecticut), apenas numa semana, as chuvas levaram 20 mm de solo de um campo de tabaco (perda de 300 toneladas de solo por hectare; no Quênia, um furacão de algumas horas eliminou uma camada uniforme de 25 mm (Haikey, in Harroy 1944). P.140

Frequentemente, porém, as chuvas agem de forma menos regular devido aos efeitos do escoamento das águas, visíveis, essencialmente, no caso de terrenos acidentados.

A água que não penetra no solo reparte-se em filetes que escorrem segundo linhas de maior declive, determinando uma rede de pequenas ranhuras paralelas, por onde descem minúsculas torrentes formando a jusante, cones de dejeção em escala proporcional. Essas torrentes, rápidas e impetuosas, arrastam partículas cada vez maiores. Dá-se a esse fenômeno o nome de erosão em sulcos.

Rapidamente a evolução acentua-se, pois esses sulcos aprofundam-se, acabando por se transformar em ravinas (burraco) profundas, por vezes mesmo em pequenos vales, onde a cada chuva , se precipitam torrentes cujos efeitos são consideráveis.

A formação de ravinas ou erosão em ravinas é, sem dúvida, a mais rápida e a mais espetacular forma desse fenômeno, sobretudo nas regiões submetidas a chuvas intermitentes e violentas, particularmente na região do Mediterrâneo e em regiões tropicais.

Uma pequena depressão do terreno pode, em apenas alguns anos, transformar-se numa ravina de várias dezenas de metros para onde convergem as águas que se acumulam numa bacia de vasta superfície. Não apenas o solo é retirado, como também a rocha-mãe fica profundamente corroída.

A erosão pode, igualmente manifestar-se por movimento de massa, o solo deslocando-se em blocos e não mais grão a grão. Esses deslocamentos são motivados por um desequilíbrio do solo, consecutivo a um desgaste ou à saturação das terras, quer na superfície, quer em profundidade, acima de um horizonte impermeável (nesse último caso, um bloco de solo como que se desliza sobre uma superfície lubrificada).

Tais movimentos apresentam-se sob diversos aspectos: escoamento de lama, deslize de terreno, reptação, erosão subterrânea, desmoronamentos. Por vezes lentos, adquirem frequentemente uma velocidade considerável.

Diversos tipos de erosão muitas vezes apresentam-se combinados. Os movimentos de massa não excluem de forma alguma , por exemplo, uma erosão em camadas entre ravinas, etc.

Eng Agr Ruy Gripp

 

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