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Agricultura Natural – Teoria e Prática da Filosofia Verde

Agricultura Natural

O livro com o título acima, de Masanobu Fukuoka, editora Nobel teve sua primeira edição no Japão em 1976, com versão para o inglês em 1985 e traduzido para o português em 1995, com revisão técnica da Fundação Mokiti Okada. Na capa temos: “A Agricultura Natural se baseia numa natureza livre da interferência e intervenção humanas. Ela se propõe a recuperar a natureza da destruição causada pela ação do homem.

No Japão, como em outras sociedades desenvolvidas, a industrialização invadiu a agricultura com herbicidas e inseticidas. Embora essa agricultura alimente milhões de pessoas com aparente eficiência, também está criando plantas fracas e dependentes dos produtos químicos e envenenando a terra, a água e o ar – adverte Masanobu Fukuoka, autor do livro. (Nota- pedimos autorização à Fundação Mokiti Okada para reprodução de algumas partes do livro, para divulgação em tipos de artigos).

Esta obra é fruto de sua experiência durante cinquênta anos em busca da harmonia com a natureza. A forma que Fukuoka preconiza não requer altos investimentos e proporciona aos agricultores mais tempo livre, além de ser mais lucrativa, já que é muito valorizada pelos consumidores conscientes, cujo numero vem crescendo em todo o mundo Agricultura Natural mereceu uma revisão técnica para adaptar os ensinamentos do autor à realidade brasileira.

Ele interessa a agricultores preocupados com o uso crescente de produtos químicos em seus campos e também a todos que buscam uma alimentação mais saudável. Nascido em 1913 no Japão, Masanobu Fukuoka formou-se em microbiologia com especialização em patologias de plantas. Tornou-s inspetor agrícola mas, aos 28 anos, começou a duvidar da “moderna agricultura” e passou a procurar um caminho de comunhão com a natureza.

Em 1988 recebeu o Prêmio Ramon Mogsaysay por Serviços Públicos, oferecido pelas Filipinas, prêmio esse que reconhece o esforço dos que contribuem significativamente para melhoria das condições de vida da humanidade. No prefácio da P.11 encontramos:

“A agricultura natural se baseia em uma natureza livre de interferência e intervenção humanas. Ela se esforça em recuperar a natureza da destruição causada pelo conhecimento e ação do homem e em ressuscitar uma humanidade afastada de Deus.

Quando ainda era jovem, uma série de acontecimentos me colocou no orgulhoso e solitário caminho de retorno à natureza. Com tristeza, não obstante, aprendi que uma pessoa não consegue viver sozinha.

Ela vive ou em associação com outras pessoas ou em comunhão com a natureza. Descobri igualmente, para meu desespero, que os homens não eram mais verdadeiramente humanos, e que a natureza não era mais verdadeiramente natural. A estrada honrosa que se ergue acima do mundo do relativismo era íngreme demais para mim estes escritos são o registro de um agricultor que, durante cinquenta anos, vem peregrinando em busca da natureza.

Percorri um longo trajeto e, mesmo que a noite caísse, ainda restaria um longo caminho a trilhar. Evidentemente, em um certo sentido, a agricultura natural nuca será aperfeiçoada. Ela não assistirá a sua aplicação integral, e servirá apenas como um feio para atrasar a violenta investida da agricultura cientifica.

Desde que comecei a propor a maneira de praticar a agricultura em harmonia com a natureza, procurei demonstrar a validade de cinco princípios fundamentais: sem aração, sem fertilizantes, sem pesticidas, sem capina e sem poda.

Durante os muitos anos que decorreram desde então, nunca duvidei das possibilidades de uma agricultura Durante muitos anos que decorreram desde então, nunca duvidei das possibilidades de uma maneira natural de praticar a agricultura que renuncia a todo e qualquer conhecimento e intervenção do homem.

Para o cientista convencido de que a natureza pode ser compreendida e usada por meio do intelecto e ação humanos, a agricultura natural é um caso especial e não possui universalidade.

No entanto, esses princípios básicos se aplicam em qualquer lugar. Árvores e gramas liberam sementes que caem no chão, onde germinam e se transformam em novas plantas. As sementes plantadas pela natureza não tão fracas a ponto de crescerem somente em campos arados.

As plantas sempre se desenvolveram através da semeadura direta, sem aração. O solo nos campos é trabalhado pelos pequenos animais e raízes, sendo enriquecido pelas plantas com adubação verde. Somente a cerca de cinquênta anos, os fertilizantes químicos começaram a ser considerados indispensáveis.

Na verdade, esta antiga prática de utilizar a adubação e o composto não ajuda a acelerar o crescimento da árvore, mas ela igualmente esgota a terra onde a matéria orgânica é tirada. Mesmo a agricultura orgânica, à qual todo mundo vem dando uma atenção exagerada ultimamente, é apenas um outro tipo de agricultura cientifica.

Tem-se muito trabalho para retirar matéria orgânica aqui e acolá, para processá-la e tratá-la. Mas quaisquer ganhos que se possa ter a partir de toda essa atividade são locais e temporais. Na verdade, quando observados a partir de uma perspectiva mais ampla, tais esforços para proteger a ecologia natural tornam-se destrutivos.”

“Embora milhares de doenças ataquem as plantas nos campos e florestas, a natureza encontra um equilíbrio; nunca houve qualquer necessidade de pesticidas. O homem ficou confuso quando atribuiu as doenças aos danos causados por insetos; ele criou com suas próprias mãos a necessidade de trabalho árduo.

O homem tenta igualmente controlar as ervas daninhas, mas a natureza não denomina arbitrariamente uma planta de erva daninha e a erradica. Uma árvore frutífera não cresce mais vigorosamente e dá mais frutos por ser podada. Uma árvore cresce melhor por estar no seu habitat natural; os galhos não se emaranham, a luz solar atinge cada folha e a árvore dá frutos com abundancia todo ano, não somente em anos alternados.

Muitas pessoas estão preocupadas atualmente com o ressecamento das terras cultiváveis e com a perda de vegetação em todo o mundo, mas não há dúvida de que a civilização humana e os métodos mal direcionados de cultivo, frutos da arrogância humana, são em grande parte responsáveis por essa difícil situação que já se generalizou.

A utilização em excesso de áreas para pastoreio por grandes rebanhos criados pelas populações nômades reduziu a variedade de vegetação, desnudando a terra. Do mesmo modo, as sociedade agrícolas , com a mudança para a agricultura moderna e sua grande dependência em relação aos produtos químicos de origem petrolífera, têm tido de se confrontar com o problema do rápido enfraquecimento do solo.

Quando assumimos que a natureza vem sofrendo danos em decorrência do conhecimento e comportamento do homem, e renunciarmos a esses instrumentos de caos e destruição, ela recuperará sua capacidade de alimentar todas as formas de vida.

Em certo sentido, meu caminho rumo à agricultura natural é o primeiro passo em direção ao restabelecimento da natureza. O fato da agricultura natural ainda não ter obtido uma ampla aceitação mostra a forma avassaladora com que a natureza tem sido atormentada pela corrupção do homem e a dimensão da ruína e da devastação que tomam conta do espírito humano.

Tudo isso torna a missão da agricultura natural muito mais difícil. Comecei a pensar que a experiência com a agricultura natural poderia ajudar de alguma forma, mesmo que em pequena proporção, para reflorestar o mundo e equilibrar o fornecimento de comida. Embora alguns consideram isso uma ideia estranha, proponho que certas sementes sejam plantadas nos desertos em bolinhas de argila, para ajudar a tornar verde essas terras estéreis.

Essas bolinhas podem ser preparadas, antes de tudo, misturando-se as sementes de árvores próprias para adubação verde – como a acácia –negra, que cresce, em áreas com precipitação pluviométrica anual de menos de 5 cm, com sementes de trevo, alfafa, Medicago sp e outros tipos de adubação verde – com sementes de grãos e vegetais.

A mistura de sementes é coberta primeiramente com uma camada de solo, depois com uma de argila, a fim de formar as bolinhas de argila que contêm micróbios. Estas bolinhas poderiam então ser espalhadas manualmente nos desertos e savanas.

As sementes, que forem espalhadas dentro das bolinhas de argila endurecidas não brotarão até que a chuva caia e as condições sejam adequadas á germinação; e nem elas serão comidas pelos camundongos e pássaros.

Um ano mais tarde,, varias das plantas terão sobrevivido, fornecendo uma pista sobre o que é adequado ao clima e à terra. Em alguns países mais ao sul, têm-se registrado o crescimento de plantas que armazenam água em rochas e árvores. Qualquer experiência é válida se tivermos os desertos cobertos rapidamente com uma camada verde de grama. Isso trará as chuvas de volta.

Quando estive no deserto, cheguei de repente à conclusão de que a chuva não cai do céu; ela flui do solo. Os desertos não se formam porque não há chuva; ao contrário, a chuva para de cair porque a vegetação desapareceu. Construir uma barragem no deserto é uma tentativa de tratar os sintomas da doença, mas não é uma estratégia para aumentar a chuva.

Primeiramente, temos de aprender como recuperar as antigas florestas. Mas não dispomos de tempo para lançar um estudo cientifico visando determinar porque os desertos estão espalhando, em primeiro lugar.

Se tivéssemos mesmo que tentar, descobriríamos que não importa quão distante no passado formos em busca das causas, estas causas serão procedidas por outras causas numa cadeia interminável de acontecimentos e fatores interligados, que está acima do poder de compreensão do homem.

Suponha que o homem fosse capaz , dessa forma, de aprender qual planta foi a primeira a morrer numa terra gradualmente transformada em deserto. Mesmo assim, ele não saberia o suficiente para decidir se deve começar plantando o primeiro tipo de vegetação que vai desaparecer ou o último que vai sobreviver. A razão é simples: na natureza, não há causa e efeito.”

“A ciência raramente observa os micro-organismos para uma compreensão sobre as grandes relações causais. Na verdade, é possível que a destruição da vegetação tenha iniciado uma seca, mas as plantas podem ter morrido como resultado da ação de algum micro-organismo.

Todavia, os botânicos não devem ser incomodados pelos micro-organismos quando estes estão fora de seu campo de interesse. Reunimos um grupo de especialistas tão diversos que não sabemos mais onde começa e onde termina determinado domínio do conhecimento.

É por isso que acredito que a única abordagem eficaz que podemos ter para reverdecer essa terra estéril é deixar as coisas totalmente nas mãos da natureza. Um grama de solo na minha fazenda contém cerca de 100 milhões de bactérias fixadoras de nitrogênio e outros micróbios que enriquecem o solo. Sinto que o solo que contém sementes e esses micro-organismos poderia ser a centelha que recupera os desertos.

Criei, junto com os insetos em meus campos, uma variedade de arroz que chamo de “Happy Hill”. Trata-se de uma variedade resistente com a seiva de tipos selvagens, além de ser também uma das variedades de arroz com maior produtividade no mundo.

Se uma única espiga da espécie “Happy Hill” fosse enviada além-mar para um país onde a comida é escassa e lá fosse plantada numa área com mais de 10 m2, um simples grão produziria 5 mil grãos no período de um ano. Haveria grão suficiente para se plantar meio acre no ano seguinte, 50 acres dois anos depois, e 7mil acres no quarto ano. Isso poderia se tornar a semente de arroz ara toda uma nação.

Esse punhado de grãos poderia abrir o caminho para a independência de um povo que está morrendo de fome. No entanto, a semente de arroz deve ser distribuída o mais cedo possível.

Mesmo uma única pessoa pode começar. Eu ficaria imensamente feliz se minha humilde experiência com a agricultura natural fosse usada com esse propósito. Meu maior medo atualmente é que a natureza se torne um joguete do intelecto humano.

Existe igualmente o perigo de o homem tentar proteger a natureza por intermédio do conhecimento humano, sem notar que ela pode ser recuperada somente se deixarmos de nos preocupar com conhecimento e com a ação, que nos têm colocado contra a parede. Tudo tem início ao renunciarmos ao conhecimento humano.

Embora talvez seja apenas o sonho insano de um agricultor que buscou em vão retornar a natureza e a Deus, gostaria de me tornar o lançador dessa semente. Nada me daria maior alegria do que encontrar outras pessoas com o mesmo pensamento. Nota do tradutor para o inglês.

Esta é uma tradução, com poucas revisões, do livro Shizen Nobo, publicado pela primeira vez em japonês em 1976. Todo esforço foi feito para permanecer fiel à essência e ao tom da versão japonesa.

O leitor observará que o livro trata quase que exclusivamente de assunto japoneses – práticas agrícolas, culturas, ervas daninhas, insetos e mesmo a história da agricultura -, muitos dos quais desconhecidos fora do Japão.

Este é um contexto das experiências pessoais de Masanobo Fukuoka,que servem de exemplo do que pode e tem sido feito com a agricultura natural por um agricultor na ilha japonesa de Shikoku.

Obviamente, como o autor sugere repetidas vezes no livro, a aplicação dos princípios discutidos assume uma forma diferente sob outras condições em outros ambientes, mas o fato de ser localizada não deveria diminuir a universalidade da mensagem.

Na tradução, os conceitos da terminologia estabelecida no primeiro livro de Fukuoka em inglês, The One-Straw Revolution, publicado pela Rodale Press, form seguidos na maioria dos casos . Dessa forma, por exemplo, a palavra japonesa “mugi”, que se refere genericamente a cevada e trigo, foi traduzida alternadamente como “grão do inverno”, “cevada” ou “cevada ou trigo”.

Em geral, o que é dito sobre cevada se aplica igualmente ao trigo, e vice-versa, embora cevada e, em especial, naked barley, sejam cultivadas mais amplamente no Japão. Nomes abstratos como “agricultura do nada fazer”, ou “conhecimento discriminatório”, “conhecimento não-discriminatório”, e Mu ®(® O Nada Cósmico. No texto, refere-se ao estado em que as ações humanas intencionais são postas de lado) são descritos ou definidos como aparecem.

As plantas que não possuem o correspondente em inglês foram foneticamente apresentadas segundo suas denominações em japonês. Os nomes científicos são apresentados no pequeno glossário no final do livro, que inclui igualmente outras palavras japonesas que aparecem nestas páginas.” Nota: Pretendemos continuar nas transcrições desta importante obra publicada no Japão, traduzida e reproduzida em diversas línguas e países do mundo.

Introdução

Qualquer um pode ser um fazendeiro de 1.000 m2. Neste pomar de laranja, no topo de uma colina de onde se contempla o mar Seto-Naikai, temos diversos casebres de barro. Aqui, jovens das cidades, alguns de outros países, vivem uma vida rude, simples, praticando a agricultura.

Levam uma vida de auto-suficiência, alimentando-se de arroz integral e vegetais, sem eletricidade nem água encanada. Esses jovens, desencantados com a vida na cidade, ou com as religiões, andam através dos meus campos vestidos apenas com calções. Depois de uma busca frustrada pelo pássaro azul, acabaram vindo para minha fazenda num canto da cidade de Iyo-shi, estado de Ehime, onde aprendem como se tornar fazendeiros de 1.000 m2.

Aqui, no pomar de laranjas cultivadas com agricultura natural, galinhas andam soltas e vegetais, que se transformaram em variedades rústicas, crescem entre os trevos. Já não podemos ver as paisagens bucólicas do verde do cereal de inverno® ,(® Cevada ou trigo. O cultivo de cevada é predominante no Japão, mas toda citação feita sobre a cevada neste livro se aplica perfeitamente bem ao trigo.), de flores de canola nos campos da planície Dogo, como há dez anos.

Os campos baldios e os fardos de palha deteriorados retratam o caos das técnicas agrícolas e a confusão reinante no coração dos agricultores. P 15 – Em meio a tudo isso, apenas meu campo de agricultura natural se cobre do verde do cereal de inverno. Ele não foi arado uma vez nestes trinta anos.

Tampouco utilizei fertilizantes químicos ou compostos e, também, nunca apliquei pesticidas. É uma agricultura do “nada fazer”, mas ainda assim colho dez sacas de cevada e dez sacas de arroz (600 kg) pr 1.000 m2.

Meu objetivo é atingir uma tonelada. Os métodos da agricultura natural são simples e claros. Ates da colheita de arroz, no outono, espalho sementes de cereal de inverno e de trevo por cima dos cachos maduros de arroz.

Guando o cereal de inverno e de trevo brota e atinge alguns centímetros de altura, colho o arroz, pisando sobre o cereal de inverno. Após deixar o arroz secando por três dias no chão, bato e espalho a palha, sem picar, sobre todo o campo. Se tiver esterco de galinha, coloco-o sobre a palha. Mais tarde faço bolinhas de argila, misturando semente de arroz, e as espalho sobre a palha, antes do Ano-Novo.

Com o cereal de inverno plantado e a semeadura de arroz feita, não é necessário mais nada até a colheita do cereal de inverno. Numa área de 1.000 m2, se for apenas para plantar e colher, o trabalho de uma ou duas pessoas é mais do que suficiente.

Mais ou menos no dia 20 de maio, época de colheita do cereal de inverno, noto que os trevos estão bastante desenvolvidos e, por entre eles, brotos de arroz que emergiram das bolinhas de argila já atingiram alguns centímetros.

Depois de colher, secar e bater o cereal de inverno, jogo toda a palha, não picada, sobre o campo. Inundo o campo por quatro ou cinco dias. O trevo enfraquece e surgem, sobre a terra, os brotos de arroz. De junho a julho deixo sem irrigação e, em agosto, deixo a água correr pelas valas de drenagem uma vez por semana ou a cada dez dias.

Isso é, essencialmente, tudo sobre esse método natural de agricultura que chamo de “semeadura direta, não cultivada, sucessão de cereal de inverno e de arroz, com cobertura de trevo”.

Agricultura do “nada fazer”.P 16 Se dissesse que todo o meu método de agricultura se reduza simbiose do arroz e da cevada ou do trigo com o trevo, provavelmente seria repreendido com o seguinte: “Se isso é tudo que há em cultivar arroz, então os agricultores não estariam trabalhando tanto em seus campos.” Mesmo assim, isso é tudo sobre o assunto.

De fato , com este método, tenho conseguido melhores resultados do que a média conseguida pela maioria. Por isso, a única conclusão possível é que deve haver algo com as práticas agrícolas que requerem tanto trabalho desnecessário. P 16 Os cientistas estão sempre dizendo: “Vamos tentar isso, vamos tentar aquilo”.

A agricultura a exemplo de outras áreas, se torna presa dessa conversa inútil. Novos métodos que requerem despesas e esforços extras dos agricultores são constantemente introduzidos juntamente com novos pesticidas e fertilizantes. No meu caso, tomei a direção oposta.

Eliminei todas as práticas e despesas desnecessárias, dizendo a mim mesmo: “Não preciso fazer isso, não preciso fazer aquilo”. Praticando esse conceito durante trinta anos, consegui reduzir o meu trabalho e “espalhar “ as sementes e a palha do cereal.

O esforço humano é desnecessário, porque é a natureza e não o homem que faz crescer o arroz e o trigo. Se pararmos para pensar sobre isso, toda vez que alguém disser:”Isso é útil”, “aquilo tem valor” ou “você deve fazer isso ou aquilo” é porque o homem estabeleceu anteriormente as condições que tornam essas afirmativas verdadeiras.

Criamos uma tal situação que necessitamos de algo que, na verdade , nem precisamos, e para sairmos dela tentamos todas as práticas que nos parecem descobertas precursoras do progresso. Inundar um campo com água e revolve-lo com arado faz com que a terra fique dura quanto gesso. Se o solo morre e endurece, então ele deve ser arado todo ano, para que fique macio.

Com isso, tudo que estamos fazendo é criar condições para que o arado se torne útil e nos alegar com a utilidade da ferramenta. Nenhuma planta na face da Terra é tão fraca que só consiga germinar em solo arado. Não há necessidade de o homem arar e revolver a terra, pois os micro-organismos e pequenos animais o fazem naturalmente.

Matando o solo com o arado e fertilizantes químicos e apodrecendo as raízes através de prolongadas inundações no verão, os agricultores criam pés de arroz fracos e doentes, que requerem o auxilio de fertilizantes químicos e a proteção de pesticidas. O arrozal saudável não necessita de arado ou produtos químicos.

O composto orgânico não precisa ser preparado se a palha de arroz for colocada nos campos meio ano antes de o arroz ser semeado. Cada ano que passa o solo se enriquece por si mesmo, sem que o homem tenha de levantar um dedo.

Por outro lado, os pesticidas arruínam o solo e criam problemas de poluição. Nas vilas japonesas, os santuários são, geralmente, cercados por um bosque de árvores altas e fortes. Elas não cresceram com ajuda da ciência nutricional nem foram protegidas por leis ecológicas.

A salvo do machado e do serrote, essas árvores cresceram e se tornaram grandes por sua própria conta. P 16 Para ser exato, a natureza não está nem vivendo nem morrendo.

Também não é nem pequena nem grande, nem fraca nem forte, nem débil nem vicejante. Aqueles que acreditam só na ciência é que chamam um inseto de praga ou predador e alardeiam que a natureza é um mundo contraditório e violento, onde os fortes se alimentam dos fracos.

Noções de certo e errado, de bem e mal, são estranhas à natureza. A natureza mantém uma grande harmonia sem tais noções, desenvolvendo plantas e árvores sem a “ajuda” da mão do homem. O biossistema vivo e holístico que é a natureza não pode ser dissecado ou tratado por partes.

Uma vez quebrado, ele morre. Ou melhor, aqueles que quebram um pedaço da natureza têm em mãos algo que está m,orto e, sem saber que o que eles estão examinando não é mais o que pensam que é, reclamam que não entendem a natureza.

O homem comete um grave erro quando coleta dados e descobertas pequenas mas numa natureza fragmentada e morta e diz que “conhece”, “usa” ou conquistou” a natureza.

Por ele partir de premissas falsas sobre a natureza e adotar uma abordagem errada para compreende-la, por mais racional que seja seu pensamento, tudo termina errado.

Devemos estar cientes da insignificância do conhecimento e da atividade humana e começar compreendendo suas inutilidades e futilidades. P 17 Seguindo os trabalhos da natureza.

Falamos muito em “produzir alimentos”, mas os agricultores não produzem os alimentos da vida. Apenas a natureza tem a capacidade de produzir algo do nada. Os agricultores dão, meramente, assistência à natureza.

A agricultura moderna é apenas uma outra industria que usa energia do petróleo na forma de fertilizantes, pesticidas e maquinários para manufaturar alimentos sintéticos, que são pobres imitações do alimento natural. O agricultor de hoje se tornou mão-de-obra empregada da sociedade industrializada.

Ele tenta, sem sucesso, fazer dinheiro na agricultura com químicas sintéticas, uma proeza que sobrecarregaria até mesmo os poderes da Deusa dos Mil Braços da Misericórdia.

Não é surpresa, então, que ele esteja rodando como um pião. A agricultura natural, a forma verdadeira e original da agricultura, é o método da natureza, é a maneira inalterada de Bodhidharma.

Embora tenha uma aparência frágil e vulnerável, é potente, pois traz uma vitória sem luta. É a maneira budista de praticar a lavoura, que é limitada e lucrativa e permite que o solo, as plantas e os insetos interajam à sua maneira. Quando ando no meu campo, as aranhas e os sapos se misturam, gafanhotos pulam e nuvens de libélulas pairam sobre minha cabeça.

Sempre que ocorre uma grande reprodução de cigarras cicadelídeos, as aranhas também se multiplicam, infalivelmente. Embora a produção deste campo varie de ano para ano, há geralmente trezentos cachos de grãos por metro quadrado, e cada cacho possui cerca de duzentos grãos, o que representa colheita de quinze sacas (900 kg) por cada 1.000 m2.

Aqueles que vêem cachos de arroz robustos crescendo no campo se maravilham com a força e o vigor das plantas e sua grande produção. Não importa se existem insetos e pragas aqui.

Desde que seus inimigos naturais também estejam, presentes, um equilíbrio natural fica assegurado. Por ser baseado e, princípios derivados de uma visão fundamental da natureza, a agricultura natural se mantém aplicável em qualquer época. Embora antiga, é também sempre atual. É claro que tal maneira de praticar a agricultura deve ter condições de resistir às criticas da ciência.

Filosofia Verde

A pergunta de maior importância é se esta “filosofia verde” e maneira de plantar têm força para criticar a ciência e guiar o homem no caminho de volta à natureza. As ilusões da agricultura científica moderna – Com o aumento, ultimamente, da popularidade dos alimentos naturais, pensei que a agricultura natural também seria estudada ao menos pelos cientistas e receberia a devida atenção.

Infelizmente, eu estava errado. Embora estejam sendo feitas algumas pesquisas sobre a agricultura natural, a maior parte delas permanece estritamente limitada à agricultura cientifica, praticada nos dias de hoje.

Essas pesquisas adotam a estrutura básica da agricultura natural, mas não preconizam a menor redução quanto ao uso de fertilizantes químicos e inseticidas, e mesmo os equipamentos usados têm aumentado mais e mais.

Porque as coisas tomaram este rumo? Porque os cientistas acreditam que, acrescentando know-how técnico à agricultura natural que “não faz nada” e já colhe mais de 600 kg de arroz por 1.000 m2, eles irão desenvolver um método bem melhor e obter produções mais elevadas. Embora tal raciocínio pareça fazer sentido, ninguém pode ignorar a contradição básica que ele traz.

Até o dia em que as pessoas compreenderem o que significa “nada fazer” – o objetivo final da agricultura natural – elas não irão abandonar a fé na onipotência da ciência. Quando comparamos a agricultura natural e a agricultura cientifica, podemos ver imediatamente as diferenças entre os dois métodos.

O objetivo da agricultura natural é a “não-ação” e um retorno à natureza; é centrípeta e convergente. Por outro lado, a agricultura cientifica se afasta da natureza com a expansão da ambição humana; é centrífuga e divergente. Por essa expansão aparente não poder parar, a agricultura cientifica esta condenada a extinção.

O acréscimo de nova tecnologia apenas a torna mais complexa e diversificada, gerando trabalho e despesas sempre crescentes. Em contraste, a agricultura natural não só é simples como também economicamente rentável e reduz o trabalho.

Porque isso acontece? Mesmo quando as vantagens são tão claras e irrefutáveis porque o homem se sente incapaz de se afastar da agricultura cientifica? As pessoas pensam, sem duvida, que “nada fazer” é derrotismo, que isso afeta a produção e a produtividade. E mais: a agricultura natural prejudica a produtividade? Longe disso.

Na verdade, se basearmos nossos números na eficiência de energia utilizada na produção, a agricultura natural mostra ser o método mais produtivo de lavoura que existe.

A agricultura natural produz 60 kg de arroz – ou seja m 200 mil calorias por kg . Isto é aproximadamente cem vezes o investimento de qualquer outro material. Isto é aproximadamente cem vezes a ingestão diária de 2 mil calorias /kg por agricultor em uma dieta de alimentação natural.

Dez vezes mais energia seria gasta na agricultura tradicional, usando cavalos e bois para arar os campos. A energia investida em calorias seria novamente dobrada com a adoção de mecanização de menor escala, e seria dobrada ainda mais uma vez com a mudança para mecanização de grande escala.

Geralmente a alegação é feita observando-se que a mecanização tem aumentado a eficiência do trabalho. Todavia, os agricultores precisam usar as horas extras longe de seus campos para conseguir mais dinheiro para ajudar a pagar seus equipamentos.

Tudo o que eles têm feito é trocar seu trabalho nos campos por um emprego em alguma indústria; eles barganharam a alegria de trabalhar ao ar livre nos campos abertos por horas monótonas de trabalho fechados numa fabrica.

As pessoas acreditam que a agricultura moderna pode tanto melhorar a produtividade como aumentar os rendimentos. Puro engano.

A verdade é que os rendimentos proporcionados pela agricultura cientifica são menores que os rendimentos conseguidos com a força total da natureza.

Práticas de alto rendimento e métodos científicos de aumento da produção nos fazem pensar que aumentaram os rendimentos sobrepujando a produtividade natural da terra, mas não é bem assim.

Elas são meros esforços feitos pelo homem para restaurar , artificialmente, a total produtividade depois que ele cortou o tendão da natureza e, por isso, ela não pode mais exercitar seus poderes plenamente. O homem cria condições adversas e, mais tarde, se regozija com suas “conquistas” sobre a natureza.

As tecnologias de alto rendimento não são mais que tentativas glorificadas de adiar as reduções de produtividade Também a ciência não é uma parceira, em termos de qualidade, para ajudar a natureza a criar alimentos. Desde que o homem se iludiu pensando que a natureza pode ser compreendida, através de sua subdivisão e análise, a agricultura cientifica tem produzido alimentos artificiais e deformados.

Agricultura Moderna

A agricultura moderna nada tem criado a partir da natureza. Melhor dizendo, fazendo mudanças qualitativas e quantitativas em cercos aspectos da natureza, conseguiu apenas fabricar alimentos sintéticos que são grosseiros, caros e ainda alienam o homem da natureza.

A humanidade deixou o seio da natureza e, recentemente, começou a ver com grande alarme sua difícil situação de órfã do universo. Além disso, mesmo quando tenta retornar à natureza, ela descobre que não sabem mais o que é a natureza e, além disso, destruiu e perdeu para sempre a natureza à qual tenta retornar.

Os cientistas visualizam as cidade do futuro, nas quais aquecedores enormes, condicionadores-de-ar e ventiladores proporcionarão condições confortáveis de vida por todo o ano.

Eles sonham em construir cidades subterrâneas e colônias o fundo do mar . Mas os habitantes das metrópoles estão morrendo. Eles se esqueceram dos claros raios de sol, dos campos verdes, das plantas, dos animais e da sensação da brisa suave que acaricia seu corpo.

O homem pode viver uma vida verdadeira apenas com a natureza. A agricultura natural é um método agrícola budista que se originou na filosofia de M.u ou seja, o nada, e retorna à natureza do “nada fazer”.

Os jovens que moram no meu pomar carregam com eles a esperança de, algum dia, resolver os grandes problemas de nosso mundo, que não podem ser resolvidos pela ciência e pela razão. Meros sonhos talvez, mas eles têm a chave para o futuro. P. 22 Parte

Uma agricultura enferma em uma época enferma. P. 23 O homem não consegue conhecer a natureza. O homem se orgulha de ser a única criatura na terra que tem a habilidade de pensar. Ele diz conhecer a si mesmo e ao mundo natural, e acredita que pode usar a natureza da maneira que lhe apraz.

Além disso, está convencido de que a inteligência é força e que qualquer coisa que deseja está ao seu alcance. Como avançou rapidamente, realizando novas conquistas nas ciências naturais e expandindo vertiginosamente sua cultura materialista, o home cresceu afastado da natureza e terminou construindo uma civilização por conta própria, como uma criança caprichosa que se rebela contra a mãe.

Engº Agrº Ruy Gripp

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