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História do Brasil com Empreendedores de Jorge Caldeiras

No livro com o titulo acima do historiador Jorge Caldeira encontramos novidades interessantes e importantes que vale apena reproduzirmos trechos para despertar o s interesse dos estudantes brasileiros na aquisição e leitura desta obra recente, publicada em 209. O livro revela conceitos novos da nossa historia desde o descobrimento do Brasil e principalmente do período de 1800 em diante.

Na capa encontramos: Jorge Caldeira é escritor, autor de “Mauá, Empresário do Império” (Cia. das Letras, 1995), “A Nação Mercantilista” (Editora 34, 1999_ e “O Banqueiro do Sertão” (Mameluco, 2006).

Introdução

Nas orelhas do livro temos: Considere um cenário, resultado de um volume cada vez maior de pesquisas sobre a história do Brasil colonial. Ele revela uma economia forte, flexível – e com uma taxa geral de crescimento superior a da Metrópole.

Por isso, atraia pessoas com vontade de melhorar de vida, que encontravam os meios de realizar seus anseios. Terra de empreendedores, que faziam diferença.

Claro, o retrato contrasta vivamente com o grande modelo explicativo da historia brasileira, aquela do latifúndio agrário-exportador.

Por esse modelo, o resultado da economia colonial seria transferido para o exterior, deixando um mercado interno ínfimo e uma sociedade dominada pela escravidão e injustiça.

Por isso, a primeira parte do livro analisa as razões da diferença entre as previsões desse modelo e os resultados de pesquisa encontrados. A fim de entender os imensos desvios para menos na avaliação do mercado interno e do enriquecimento de pessoas, é feito um percurso à raiz da categoria central, o latifúndio.

Nesse percurso se revela que essa é uma ideia altamente compartilhada PR uma obra marxista, de Caio Prado Júnior, e outra conservadora, de Oliveira Vianna. E esse uso comum é revelador daquilo que explica os desvios de avaliação.

A ambos faltam meios de análise para entender a formação de mercados a partir de trocas contratuais, trocas entre proprietários que geram um mercado – mesmo que esses proprietários nem conhecessem o sentido dessa definição.

segunda parte do livro contém uma analise da economia do Brasil colonial que leva em conta essa realidade. Mostra como as trocas , sobretudo entre produtores livre, foram gerando um mercado interno, caracterizado por uma produção mercantil sofisticada, mesmo quando praticamente não havia nem europeus nem moeda.

fazer isso na presença de escravidão, e contra a orientação que o governo dava à economia, toda ela voltada para favorecer a Metrópole, uma figura foi essencial: o empreendedor, capaz de articular a produção mercantil nessas condições difíceis.

Sua ação levou a economia até o ponto em que havia uma acumulação de capital nas mãos de burgueses comerciantes. Com esse capital, a economia do Brasil colonial ganhou autonomia e conseguiu financiar se crescimento num patamar mais elevado que a metropolitana.

Este livro traz a figura do empreendedor para o centro da história do Brasil colonial. Foca naquele que abandona tradição e sociedade nativa, busca o enriquecimento.

Essa figura, ligada à produção independente e à pequena propriedade, produziu uma economia dinâmica, que crescia em taxas mais elevadas que a da Metrópole – mesmo tendo de lutar contra a ação do governo.

Resultado: a economia brasileira, em 1800, era bem maior que a de Portugal.

Tal retrato não se encaixa na explicação que apresenta a economia colonial como produto do latifúndio agrário-exportador. Segundo essa explicação, a riqueza iria pra fora e deixaria um mercado interno mínimo.

História do Brasil com Empreendedores mostra que essa é uma interpretação comum a uma versão do marxismo e à grande tradição do pensamento conservador – nenhuma delas capaz de explicar os dados de desenvolvimento da Colônia, para o qual o empreendedor foi essencial.”

Um Cenário, duas Leituras 

P 7 Caro leitor, considere este cenário para o Brasil em torno de 1.800: Era um momento de grande expansão econômica, apesar da diminuição na produção de ouro, constatada desde 1.770. A base da expansão não eram as exportações coloniais, mas uma dinâmica que nascia do mercado interno da colônia.

Esse mercado interno aquecido provocava elevações gerais de produção e preços por todo o território. No momento em que a onda de crescimento começou, a economia metropolitana, dependente de exportações da colônia, estava numa fase recessiva. Somente quando o crescimento brasileiro chegou às exportações, já na década de 1790, é que a economia portuguesa começou a se recuperar,na esteira do desenvolvimento colonial.

Além de intenso, o crescimento do mercado interno no período pós-ouro era geral, podia ser claramente observado capitania por capitania. Começando pelo Rio Grande do Sul: ali a base da produção era a pecuária, com destaque para as mulas, que compunham a espinha dorsal do sistema interno de transporte, dominado por tropas.

Pelo mesmo caminho terrestre que levava a produção de mulas e gado para o mercado interno, pelo interior da capitania em direção ao norte, vinham os principais produtos ali consumidos: fumo, açúcar e aguardente. Mas, na virada do século XIX, todo um novo conjunto de atividades se desenvolvia.

Em primeiro lugar, uma nova agricultura. As vendas de trio para o Rio de Janeiro estavam crescendo de maneira explosiva: 7 mil alqueires em 1780, para 213 mil, em 1800. Mas havia também uma nova indústria sendo instalada: a produção de charque, feita em grandes unidades concentradas na região de Pelotas.

A produção saltou de 26 mil arrobas, em 1791, para 213 mil, em 1808. Essa produção, diferentemente da tradicional exportação de gado, seguia de navio para os mercados consumidores (Rio de Janeiro e Salvador consumiam 86% do total embarcado).

Também de navio vinha o principal produto trocado por essas cargas: escravos. A força das vendas tinham impacto direto na demografia. O número de escravos saltou de 5,1 mil , em 1780, para 26 mil , já em 1814.

Sul Do Brasil

“Santa Catarina repetia o mesmo processo. A economia do interior girava em torno da rota de tropas que saiam do Rio Grande do Sul, com pontos de parada e engorda ao longo do território catarinense.

Mas a produção litorânea também conhecia a criação de novas atividades, concentradas em Florianópolis. Ali se instalaram armações pra caca de baleias, cujo óleo era exportado para o Rio de Janeiro. O principal produto recebido em troca eram também os escravos, que passaram a representar um quinto da população da ilha.

O mesmo acontecia no Paraná, com uma curiosidade. A economia ligada ao circuito tropeiro ali continuava florescente. Mas passou a dividir espaço com uma crescente produção de erva-mate – que tinha pouco mercado de consumo no Brasil. Quase toda era embarcada em navios e vendida em Buenos Aires como contrabando.

Por isso, não existem estatísticas confiáveis sobre o comportamento da produção, mas , por analogia, também se pode inferir o produto fornecido em troca de algo que seguia de navio para o mercado consumidor: a população escrava de Curitiba esta em crescimento, chegando a 16% do total.

Economia Paulista

A economia paulista também seguia o padrão. A maior atividade ainda era a Feira de Sorocaba, onde anualmente se negociavam algo em torno de 15 mil mulas e cavalo vindos do sul com tropeiros, para compor as caravanas comerciais que percorriam toda a colônia.

Aproveitando a ocasião, ali se montava um gigantesco mercado consumidor de insumos (arreios, bruacas, sela, cangalhas, etc.) e de produtos básicos (banha, farinhas etc.).

Era uma movimentação intensa, garantida por mais de uma centena de grandes atacadistas, que controlavam os negócios de mulas e fornecimentos. Nesse ponto, a rota única de trânsito vinda do sul se dividia, espraiando-se por todo o território.

Mas ao lado dessa rota tradicional, outros setores também se desenvolviam, igualmente ligados de forma direta ao comércio marítimo interno, Sua face mais visível era a produção de açúcar, concentrado em torno de Campinas e Itu.

A produção era embarcada em Santos, onde as saídas do produto passaram de 114,5 mil arrobas, em 1797, para 194 mil em 1818. Na via inversa de comércio, censos deixam claro o tipo de produto recebido em troca.

A população escrava de Campinas cresceu 150% nas duas primeiras décadas do século XIX, chegando a constituir 41% do total – a mesma proporção das áreas produtoras do Nordeste.

Sudeste Brasileiro

Parece também claro que a mesma produção conhecia um grande desenvolvimento no Vale do Paraíba, sendo embarcada no porto de Parati. Nas últimas três décadas do século XVIII, vários aglomerados foram transformados em vilas: Lorena, Cunha, Guaratinguetá, São Luiz do Paraitinga e São José dos Campos. Antes simples pousos de tropeiros a caminho do Rio de Janeiro e Minas Gerais, essas vilas começaram a crescer em torno de alguma produção de açúcar – e importação de escravos.

O contingente de cativos na população de Guaratinguetá saltou de 11,9%, em 1775, para 37,1% em 1801, numa evidência importante de que a expansão açucareira começara antes do crescimento das exportações.

Dado o cruzamento com o mercado das tropas, também ali cresceu expressivamente a produção de milho, feijão, toucinho e farinhas – levadas majoritariamente para o Rio de Janeiro.

Antes de falar da economia da capital da colônia, vale retomar o circuito tradicional de abastecimento interno, em seus ramos que saiam de Sorocaba. De todos eles, apenas um tinha forma diversa da caravana animal: as monções.

Nesse caso, produtos de abastecimento como fumo e farinhas, além de escravos, eram embarcados em canoas, na vila Porto Feliz, com destino a Cuiabá, em Mato Grosso, numa viagem que levava seis meses.

As monções (época ou vento favoráveis a navegação) atingiram o auge no período minerador – mas desapareceram mais lentamente que este. A razão central era que a economia de Mato Grosso continuou consumindo escravos, enquanto reconfigurava sua produção.

Embora a proporção de escravos diminuísse em relação ao total da população,as comprar se mantiveram , como o emprego de cativos para a produção de açúcar em pequenos engenhos – e sobretudo a criação de gado. As novas atividades, especialmente a venda de gado, feitas por terra, acabaram gerando uma nova articulação da economia, dessa vez com o circuito de tropas.

Centro Oeste Brasileiro

Essa articulação aconteceu em Goiás. Durante o período da mineração, ali era o grande centro consumidor dos produtos trazidos de mula. Com muita cata de aluvião, em pontos dispersos e distantes entre si, o abastecimento dependia inteiramente de tropeiros nos primeiros tempos.

Em meados do século XVIII, ele passou a ser dividido com os envios de Salvador, quando vendedores de gado do Vale do São Francisco vararam o sertão para vender sua produção.

Com a decadência da mineração, a pecuária passou a ocupar um lugar cada vez maior na economia. E o indicador maior de manutenção das trocas mercantis era a proporção de escravos, que se manteve alta mesmo com a queda da mineração: 42% da população, já em 1819.

As economias de Mato Grosso (via Madeira-Mamoré) e de Goiás (via Araguaia-Tocantins) também se articulavam com a produção amazônica. Mas esta tinha uma característica especial naquele momento: a baixa proporção de escravos na população.

A rigor, quase toda a produção mercantil era obtida em caravanas fluviais em que os índios escravizados era os trabalhadores – e os nativos ainda livres, os produtores com quem comerciavam.

Afora os escravos índios que estes vendiam, o variado produto dessas trocas recebia o nome genérico de “drogas do sertão” e era inteiramente concentrado no porto de Belém.

Dali se faziam embarques diretos para Lisboa, de modo que toda a produção regional tinha baixa conexão com o restante do mercado interno colonial. Ali, o ritmo da economia estava diretamente ligado às exportações.”

Rota de da Zona da Mata de Minas, ligada ao abastecimento do Rio de Janeiro

“O próprio caminho tinha uma economia relevante. Apenas na parte baiana do circuito havia cinco grandes regiões mineradoras (Jacobina, Rio das Contas, Aracuaí e Fanado, além da Chapada Diamantina).

Embora os dados específicos dessas regiões sejam escassos, parece claro que a cultura do algodão ali estava se expandindo na virada do século XIX, quando a mineração perdia força. Havia negócios inclusive com tropeiros de São Paulo – e um dos mais ricos paulistas do tempo, Antônio da Silva Prado, fez ali , naquele momento, sua fortuna inicial.

“A rota terminava em Minas Gerais, onde a diminuição da produção de ouro levou á construção de uma economia inteiramente nova, baseada não apenas no mercado interno, mas especialmente na pequena produção.

Uma economia de características próprias, percebidas inicialmente num importante estudo pioneiro de Amilcar Martins Filho e Roberto Martins, publicado em 1983. Suas conclusões resumidas:

“A fazenda, o sítio, a roça de subsistência ou a propriedade de criação pecuária formaram o núcleo da vida econômica de Minas Gerais. Mas, sendo essencialmente pouco conspícua e deixando poucos registros para a posteridade, esse complexo agrícola vem sendo ignorado pelos historiadores. (…)

A sobrevivência e crescimento do sistema escravista em Minas Gerais mostra que a condição essencial para a existência da escravidão não foi a plantation escravista, mas a existência de terra livre. Não havia suprimento voluntario de trabalho assalariado em Minas Gerais porque a fronteira agrícola era imensa e estava sempre aberta; assim os camponeses livres sempre encontravam terra para sobreviver com independência.

Nesse contexto, proprietários que não trabalhassem só poderiam existir sobre a base do trabalho obrigado. Havia muita gente em Minas Gerais, mas para desespero dos que queriam empregar, sempre faltaram trabalhadores assalariados. Os camponeses livres até aceitavam trabalhos ocasionais, como o de limpar a terra, ou o engajamento como vaqueiros e tropeiros, mas era muito difícil convencê-los a trabalhar para outros de modo permanente.

Não havia oferta de trabalho voluntário porque a maior parte das terras ainda não havia conhecido apropriação privada ou, como Marx colocou, o processo de acumulação primitiva não havia ainda completado. (…) A maior parte do território não tinha proprietários privados; mesmo nas partes tituladas, a propriedade era mais nominal que efetiva.”

Essa percepção, de uma transição de uma economia minerador em decadência para uma economia agrária de proprietários independentes em expansão, permite entender como era a única região brasileira onde a produção interna crescia, apesar da diminuição do número de escravos no total da população – caiu de 48% do total , em 1786, para 33,5%, em 1823.

Mas, apesar da queda relativa, em nenhum momento o número absoluto de escravos decresceu, passando de 174 mil para 189 mil; no mesmo período, a população livre passou em números absolutos, de 181 mil para 375 mil habitantes. O crescimento se concentrou essencialmente na Zona da Mata, ligada ao abastecimento do Rio de Janeiro.

Com isso se entende claramente por que a principal rota de comercio interno brasileira daquele período era a ligação terrestre entre Rio de Janeiro e Minas Gerais via Juiz de Fora.

E ali se mostrava um forte padrão de crescimento. Uma rota basicamente mantida por tropas e boiadas de toda espécie. As principais vendas par a capital eram de porcos, toucinho, algodão e tecidos. O aumento das vendas foi superior a 100% nas duas primeiras décadas do século XIX. P 14

 O Ouro Desclassificado

O ouro ocupa um lugar muito secundário na obra de Caio Prado Júnior. Todo o efeito econômico dele no século XVIII é tratado marginalmente em Evolução Política do Brasil, e esgotado em uma dezena e meia de páginas de Formação do Brasil contemporâneo.

Tais páginas, no entanto, trazem uma relação direta entre categoria geral “sentido da colonização” e a realidade histórica da economia colonial. Ali existe uma definição capaz de dar um novo peso a toda discussão apresentada até aqui.

A atividade mineradora é descrita como uma aventura ilusória, uma febre de ambição que provoca delírios, um desvio no eixo agrícola permanente, que seria o centro da produção colonial.

A exposição do breve capítulo que trata do assunto começa diretamente elas causas da decadência da mineração: jazidas superficiais, exploradas com pouca técnica por “aventureiros passageiros” que iam de um ponto ao outro.

Como resultado, nada de riqueza, mas apenas a “prodigiosa destruição de recursos naturais”, que seria fruto da “ignorância, rotina, incapacidade de organização nesta sociedade caótica instalada nas minas”.

Esse processo, pelo qual ignorantes destroem sem construir, torna-se então o centro do capítulo: é minuciosamente relatado, capitania por capitania. O restante do texto traz a descrição dos procedimentos jurídicos e tributários aplicados pelo governo aos metais e pedras preciosas, com uma ênfase na evolução do Distrito Diamantino. E é isso.

A apresentação do ouro como atividade apenas extrativa, variante menor da agricultura de exportação, é muito explícita: Não fosse por consideração de simples ordem de exposição, deveria ter-me ocupado da mineração logo depois da grande lavoura.

É que participa do mesmo caráter econômico desta ultima e pertence à mesma categoria. Ambas se destinam à exploração de produtos que tem por objetivo unicamente a exportação, em função da qual, se organiza e matem a exploração; são atividades que se desenvolvem á margem da necessidades próprias da sociedade brasileira.

Donde seu caráter precário no que diz respeito aos interesses fundamentais desta ultima, sua impropriedade como base econômica e de vida para a comunidade que nelas se apóia.

Essa frase, que parece conter um despretensioso argumento de ordem apenas literária ou expositiva, capaz de reforçara ideia de “sentido da colonização”, contem, na verdade, uma assertiva teórica de altíssima relevância.

Tão relevante que serve diretamente como verificação do processo econômico de “mandar riqueza para fora” afirmado para a atividade mineradora. Em outras palavras, a frase é suficiente para que possamos depreender se o texto do livro que fala do ouro trata de realidades históricas empiricamente verificáveis ou apenas afirma normas ideológicas que não tem relação com a história real.

Para verificar o ponto em discussão, a afirmação da mineração como “uma atividade á margem das necessidades próprias da sociedade brasileira”, não é necessário mais que um único caso empírico.

Padre Guilherme Pompeu de Almeida

Um exemplo simples, mas rico: “O padre Guilherme Pompeu de Almeida nasceu em 1656. Filho de um dos homens mais ricos da capitania de São Paulo, o capitão-mor Guilherme Pompeu de Almeida, teve uma educação á altura de sua vocação e da fortuna que seu pai amealhara com uma fundição.

No final da adolescência, foi mandado para estudar no Colégio dos Jesuítas, em Salvador. Naquele tempo, esse era o mais elevado privilégio educacional a que moradores brasileiros podiam aspirar na terra onde viviam. Na escola lecionavam padres vindos de lugares da Europa – num tempo onde Antonio Vieira era presença constante nos debates.

O jovem aluno destacou-se neste ambiente. Em 1675, com apenas dezenove anos, concluiu sua licenciatura com brilho. Tanto brilho que foi convidado – e o convite era a única possibilidade de acesso – para fazer o doutoramento em Teologia.

Esse chamado abria uma possibilidade muito especial para um jovem que queria ser padre: era a porta aberta para a admissão na Companhia de Jesus, e já no grau de pregador, o segundo mais elevado da hierarquia interna.

Apenas um ou dois alunos recebiam o convite a cada ano, pois ele exigia, do padre que fazia o convite, a autoria de um relatório onde demonstrasse, de modo cabal, o “talento insigne e um elevado grau para pregar ou governar” do candidato. Só depois do relatório aprovado internamente na hierarquia era possível convidar o escolhido.

Mas um acontecimento entre convite e conclusão do curso mudou o destino do jovem: uma filha, muito provavelmente tida com uma escrava índia. Para cuidar dela, ele teve de desistir do vislumbrado sonho jesuítico, mesmo concluindo o curso.

Em 1679, com 23 anos, recebeu borla e diploma de doutor em Teologia diretamente das mãos do Governador Geral, seguiu em desfile pela cidade até uma cerimônia que movimentou Salvador – pois um doutor brasileiro era uma raridade tal que toda a elite colonial comemorava.

O jovem doutor saiu da cerimônia com o alto governo direto para a boca de sertão de Voturuna, em Sanatana de Parnaíba, vilarejo paulista. Como ninguém ali ligava para aparências, vários moradores juraram pela pureza e castidade do jovem, de modo que ele pode se inscrever e passou num concurso.

Virou funcionário público de baixo escalão: padre secular, obrigado á carreira sem proteção de uma ordem nem salário. Em vez de pregar para reis, como jesuítas de alto grau, estava condenado a dizer sermões para os curibocas que se dispusessem a ouvir.

Para ganhar a vida, teve de entrar no mundo dos negócios. Começou como o pai, financiando incursões de terceiros pelo sertão – mas sem a fábrica de artefatos de ferro deste, que garantia freguesia e margens de lucros maiores.

Nessas circunstancias, seus clientes eram os que não tinham outra alternativa: parentes bastardos da mãe, filhos do avô (o “terror dos Índios”) com índias e filhos destes com outras índias.

Gente rude, dura, violenta – e que pagava quando podia e com o que podia. Entre primos europeizados, filhos de casamentos estáveis, somente os muito necessitados recorriam a seus financiamentos. Negociando com essa gente, perdeu dinheiro sem parar, até um ponto onde estava praticamente falido.

Então, em 1697, fez uma romaria para beijar os pés do Bom Jesus de Iguape. E aconteceu o milagre: Vários sertanejos a quem fiava armações havia muitos anos, arrastando dívidas, começaram a voltar do sertão com uma nova mercadoria para liquidar pagamentos, ouro em pó.

A torrente começou com o padre Pascoal de Santo Estevão, que entregou 276 gramas. A partir daí as entradas vão se acelerando e multiplicando, até chegar um ponto onde o padre Guilherme, muito comedido em seus registros, resolve fazer a soma. Só nessa conta foram registrados 97,744 quilos – isso mesmo, quilos- de outro.

Tal fortuna não mudou a atividade do padre, que continuou gastando seus finais de tarde em jogos de cartas com vigário e seus dias sendo tão empresário como sempre fora.

Mas outro alterou radicalmente tanto os métodos de negócio como sua abrangência. Para começar, a antiga clientela de necessitados de dinheiro havia se transformado em gente com muito ouro para gastar. Manter as relações com pessoas agora tão distintas exigiria o fornecimento de coisas mais interessantes que peças de ferro para o escambo, sal e pólvora.

Atilado, o padre Guilherme Pompeu de Almeida logo percebeu que, aos donos do ouro embrenhados no sertão faltava de tudo – e tratou de providenciar, de modo que agora seria necessário.

Até a véspera, sobravam homens dispostos a fazer escambos. Num minuto, os que sabiam fazer negócios no mato estavam em outro negocio, bem mais lucrativo.

Foi preciso improvisar. João Pinto, um escravo, foi transformado em comerciante. Mandado para as minas com mercadorias, juntou tanto ouro com vendas que foi preciso mandar reforço armado para escoltá-lo de volta.

Como também faltava gente, João Mameluco e Sebastião Tecelão, igualmente escravos, ganharam escopetas fabricadas na fundição e foram para as minas fazer o trabalho pioneiro – e claro, entregar também outras tantas mercadorias. Valeu a pena. O ganho físico da expedição foi de 8.491 gramas de ouro, com um lucro de 237% sobre o valor investido. Os tempos da pobreza, do fiado – e do crédito apenas para parentes – haviam acabado.

Também mudaram outros costumes, na mesma velocidade. Apenas para lembrar, estes foram os muitos papéis desempenhados por um dos escravos no negócio: “João Pinto recebeu as mercadorias, chefiou a expedição, fez gastos na jornada, vendeu a carga, conferiu o teor do ouro em pó, cuidou de providenciar uma situação segura para os lucros e trouxe o ouro de volta.

Não assumiu apenas uma posição financeira, mas também as funções de comandante militar e comercial da expedição, antes reservada aos parentes recebedores de crédito”.

Para que não se avalie apenas de maneira estamental as relações entre senhor e escravo na presença maciça de ouro, é preciso dizer ainda que João Pinto ganhou em proporção ao risco: foi pago com a liberdade e uma parte dos lucros.

Na nova condição de homem livre, tornou-se logo em seguida sócio nos negócios do antigo senhor. Como esses cresciam em velocidade espantosa, logo estava rico, mantendo contas de valores ainda maiores que muitos mineiros.

Dos oito quilos de ouro que vieram das minas, sete e meio foram mandados para Curitiba, dessa vez nos alforjes de um parente até então pobre, Pedro Frasão de Brito. Note-se que, até a véspera, ninguém mandava dinheiro para o sertão –antes, donos de mercadoria corriam atrás do raro dinheiro.

Mas a novidade pareceu mais que esperada: houve uma fila de gente disposta a trocar bois por ouro nos sertões do Paraná, de modo que Frasão voltou com uma centena de cabeças Quando chegou com a boiada em Santana de Parnaíba, encontrou muitas novidades.

Estavam ali, esperando-o para viagem às minas, além do novo comerciante João Pinto, sócio do padre no carregamento tradicional de provisões e artefatos de ferro, um certo Pedro Barros da Silva, mandado de Salvador juntamente com um lote de escravos africanos comprados pelo padre.

A carga total valia tanto que foi mandada uma forte escolta de escravos armados com as escopetas produzidas na fundição. Na volta da viagem, o lucro do padre foi de 9 contos de reis – num ano em que os gastos de toda a diocese do Rio de Janeiro, do salário do bispo à manutenção dede a catedral com seu coro até a mais humilde capela – foram de 6,7 contos.

E o traficante vindo da Bahia juntou o suficiente para se casar com a filha do padre, Inês de Lima, e tornar-se mais um dos sócios de negócio do sogro – que , além de tudo, se tornara um grande cliente para comprar os escravos que trazia.

Enquanto isso os clientes antigos do padre Guilherme Pompeu de Almeida, cada vez mais ricos, tinham agora suas necessidades especiais – uma delas, a de guardar o ouro em lugar seguro.

O padre – empresário não economizou na solução: começo a construção de um grande castelo cercado de muros. Empregou o ouro para contratar os melhores empreiteiros, fornecedores e trabalhadores de construção (e todos esses trabalhadores até a véspera raramente recebiam em dinheiro).

Mandou para Lisboa ouro suficiente para comprar luxuosas louças da China, talheres de prata, lençóis do melhor linho. A infinita lista de compras incluía até perucas de cabelo natural para imagens sacras – pois o bom padre não se esqueceu de construir uma capela para Nossa Senhora da Conceição. Nela se destacava uma lâmpada, em cuja construção foram empregados nada menos de 13,7 quilos de prata.

Empreendimento

Montou uma estrutura de serviços à altura do empreendimento. Os hóspedes apeavam no portão, onde escravos os esperavam para carregar as tralhas. Umas vez dentro, havia comida e bebida para todos, o tempo todo.

Não faltavam nem mesmo as grandes solenidades. No dia da padroeira, 8 de dezembro, os portões eram abertos para uma festa – com direito a música cantada pelos corais de todas as ordens religiosas paulistanas, trazidos de 50 quilômetros sertão a dentro.

A constante renovação de sócios nos negócios de abastecimento das minas- foi se tornando uma necessidade, imposta pelo crescimento econômico. Os mais antigos iam ficando ricos e se instalando em pontos avançados do sertão.

Pedro Frazão de Brito, por exemplo, tornou-se um dos comerciantes mais abastados das minas. Mandar mercadorias para todos exigia um fluxos de novos parceiros, arranjados como se podia – e a mercantilização da economia e a mobilidade social se transformavam em regra cada vez mais presente nas relações.

O papel essencial da família na concessão de credito, marca dos tempos antigos do resgate, foi desaparecendo; os registros contábeis mostravam uma importância crescente de sócios- empreendedores sem relação familiar direta.Concomitantemente, crescia muito o plantel de escravos africanos comprados por um padre que antes fora senhor apenas de índios, mamelucos e alguns castelhanos.

Para encerrar o exemplo, é preciso dizer que Guilherme Pompeu de Almeida morreu muito rico, em 1713.

Com esse exemplo em mente, já se vê com clareza o ponto crítico para avaliar uma formulação de Caio Prado Junior : a definição do ouro como “produto que tem por objeto unicamente a exportação, em função da qual se organiza e mantém a exploração”.

Basta seguir mentalmente os muitos gastos em ouro de nosso sacerdote para sentir também algum desconforto com a descrição da mineração como “atividade que se desenvolve à margem das necessidades próprias da sociedade brasileira”, com sua “impropriedade como base econômica e de vida para a comunidade que nela se apóia”. P 140

Nota

Do livro citado, de Jorge Caldeira, Editora Mameluco , 1º Edição, São Paulo – 2009. Pretendemos continuar com este assunto da história colonial do Brasil, em torno de 1.800.

Engº Agrº Ruy Gripp

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