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Discurso de Gilberto Freire – Despedida do Congresso

“Gilberto Freire, pensador, sociólogo e escritor brasileiro. Segundo Darcy Ribeiro (p.387) Aparecendo logo após o Modernismo, nesse rico período intelectual brasileiro, o sociólogo, através da trilogia central de sua obra, compreendida pelos livros Casa Grande e Senzala, Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso, reavalia o conjunto das tradições culturas que formaram o país, ilumina o passado que, por fundamental, se atualiza no momento presente e indica as linhas criadoras do sentido de um futuro possível. Ele mostra, assim, a vivacidade do tempo em numerosas perspectivas renovadoras para o povo brasileiro”

O discurso, foi feito em 8 de dezembro de 1950, no Congresso Nacional, é a sua despedida (ver Roberto Campos p. 501) ao final do seu mandato como Deputado Federal, não reeleito, por Pernambuco.

“Sr. Presidente, umas das vantagens dos que morrem nas batalhas simplesmente eleitorais, sobre os que tombam sem vida nas batalhas de fogo e de sangue é que o morto político pode fazer com a própria voz o auto-necrológico.

Sou dos que morreram já ao anoitecer da batalha. Mas aqui estou, menos para chorar os outros mortos que para saudar, como morto eleitoral ainda quente e talvez em nome de outros mortos eleitorais de agonia também lenta, os vivos e principalmente os recém-nascidos: esses recém nascidos do ventre misterioso das urnas, cuja responsabilidade será imensa nos dias turvos que a Nação já atravessava.

Quanto a mim, não morri em batalha de que desejasse, como individuo, participar; nem, em busca de vitoria que desejasse, como individuo, desfrutar. Sabem os pernambucanos que em 50 como em 45 só o excepcional das circunstancias me afastou de minha vocação, que é a de escritor, para lutar nas ruas e nos comícios por causa política, normalmente aos cuidados dos políticos.

A principio, em 45, em batalha que chegaram a ser sangrentas, ao lado da mocidade mais brava de minha terra; antecipando-nos , ela e eu, aos políticos, lutamos corpo a corpo contra o policialismo então desvairado. Depois em batalha quase burocraticamente eleitoral a que fui arrastado pela mão dos moços mais livres do Recife, como seu candidato a deputado federal. Candidato que não pediria um voto. Que, simples escritor e homem pobre, não saberia negociar votos co eleitores, nem confabular com donos de eleitores. P. 307

Este ano de 50, foram de novo os moços do Recife – estudantes, comerciários, operários – que me arrastaram à luta eleitoral, certos de que o excepcional das circunstâncias de novo exigia deles e de mim esse esforço e essa atitude. De novo fui candidato, sem pedir votos nem cotejar eleitores.

Queriam os moços bater-me pela minha reeleição, e só pela minha reeleição. Pelo meu nome, e só pelo meu nome. Não concordei. E consegui convencê-los de que a luta decisiva para Pernambuco não era a que ia travar –se em torno de nomes para as Câmaras, mas em torno de candidaturas para o governo do Estado. Consegui que eles me esquecessem um pouco, para todos nos lembrarmos principalmente da candidatura em perigo na cidade de Recife: a do Sr. João Cleofas ao Governo do Estado.

Mas não deve esquecer-me do caráter deste discurso: o de um auto-necrológico. O de palavras de um gladiador não que vai morrer e antes de morrer saúda César, mas que já morreu e saúda, não César, mas o anti-cesar, que é e tem que comunicar a ser entre nós o Parlamento. Principalmente a Câmara dos Deputados.

Deixarei esta Casa, Sr. Presidente, certo de não ter sido aqui de todo um inútil à gente brasileira. Mas a recíproca é verdadeira: o contato com esta Casa não foi para mim, de modo algum, inútil.”

“Dizem alguns puristas do estudo, sabendo-me homem mais de estudo do que de ação, que aqui só tenho feito perder tempo. Enganam-se. Aqui também se estuda o Brasil. Aqui também se descobre o Brasil. Aqui também se aprende a conhecer da natureza humana regiões que de outro modo se conservariam ignoradas dos estudiosos.

Nos, deputados, somos todos fatias ou retalhos da chamada realidade brasileira recortados do todo como exame de laboratório; somos portadores de micróbios característicos menos de cada um de nós que de nossas regiões e áreas de origem ou de residência; somos amostras, exemplos, somos sínteses de sub-grupos e sub-regiões que compõem a contraditória totalidade brasileira, tão difícil de ser estudada fora daqui em alguns de seus contrastes, uns junto dos outros, como nesta Casa.

Como brasileiro constantemente preocupado em conhecer o Brasil, aqui muito aprendi. Como naturalista empenhado em estudar a natureza humana, também. E também como aprendiz eterno de Humanidades, interessado em considerar no Homem o que é humano e como tal superior à pura natureza.

Aprendiz também eterno, da arte e da ciência de historiador, aqui vi de perto como se faz história: a política, a econômica. História republicana. História democrática do Brasil. Tive a honra de assinar convosco uma constituição democrática e de até concorrer modestamente para que nela se estendesse os direitos dos brasileiros naturalizados e se definisse bem definida a valorização do trabalho humano, ao lado da liberdade de iniciativa necessária apo nosso desenvolvimento econômico de país americano e ainda jovem.

Não sou dos que aceitam de todo a generalização um tanto afoita de Wilde: a de que Mané-gostoso pode fazer historia, enquanto só conseguem escrevê-la grandes homens. Creio mesmo que o ideal para um homem capaz de verdadeira grandeza – tal como a concebem os povos de formação ibérica – é fazer historia e não apenas escrevê-la. O ideal realizado por Cervantes e Camões. O ideal que Antero de Quental tanto quis realizar. O ideal que Oliveira Martins quase realizou. O ideal realizado entre nos pelo José Bonifácio que escreveu, como homem de estudo, páginas ainda hoje preciosas de Historia.

Natural e Social do Brasil e, como homem de ação, agou com risco da própria vida a favor da independência brasileira, deixando assunto magnífico para a pena dos historiadores. O ideal realizado por Joaquim Nabuco que, tendo feito historia , também com risco de vida, nas ruas de Recife e nesta própria Câmara, ao defender a causa abolicionista e ao buscar as bases do verdadeiro trabalhismo brasileiro escreveu historia, e escreveu-a com mão de mestre ao traçar as páginas imortais de “Um Estadista do Império” e “de Minha Formação”.

O ideal realizado por Alfredo, Visconde de Taunay, que, tendo lutado na Guerra do Paraguai e não apenas administrado províncias do Império, fez historia e escreveu-a, traçando as páginas igualmente imortais da Retirada da Laguna.

Este o ideal. Este o ideal nem sempre possível de ser realizado por grandes homens, dos quais uns morrem, apenas grandes pelo estudo ou pela criação intelectual, outros só pela ação ou pela vida mil vezes arriscada nas batalhas ou nas revoluções, na catequese dos bárbaros, no combate às doenças, no desbravamento dos sertões, nas aventuras de vencer os mares e as distâncias. P.309.

“Dentro dos meus limites extremamente modestos, tenho sido um pouco, no também modesto cenário do Brasil de hoje, um pequeno homem de estudo, às vezes, alongado em homem também pequeno, mas sempre desinteressado, de ação ou de luta.

Na luta pela redemocratização do Brasil, que se iniciou de fato no Recife, e não no Rio – e no Recife com os moços generosos e bravos, e não como os políticos sagazes e cautelosos – lutei a peito descoberto ao lado dos moços, e até antes dos moços, contra uma política armada até os dentes e empenhada em esmagar, fosse como fosse, quem não se submetesse ao despotismo estadual de então.

Vi um dos meus mais queridos companheiros de luta tombar ao meu lado, a bela cabeça de adolescente furada por bala policial. Vi Elias, homem simples e do povo, cair perto de mim, assassinado também pela policia ironicamente chamada “civil”.

Desfeita a ditadura que, em Pernambuco, se extremara em abusos tão grandes, julgara cumprido todo o meu dever de homem nunca resignado ao papel de intelectual chamado “puro”, embora orgulhoso sempre de minha condição de escritor, quando fui arrastado- perdoem que o repita – pelos moços do Recife à nova batalha: desta vez, não de sangue, mas de palavra. Porém igualmente necessária à redemocratização do Brasil.

Foi quando desapontei os políticos de carreira com uma vitoria inesperada e talvez ainda hoje imperdoada. Vitória de ágüem que não correra atrás do sucesso eleitoral. Vitoria não minha, que não pedi voto nem a irmão nem a amigo nem a vizinho, nem cortejei eleitor algum, nem negociei votos com dono algum de eleitores: vitoria dos moços, então, como hoje, meus guias de cego no escuro da política eleitoral: a mais escura, a mais turva, a mais traiçoeira das políticas. Aquela em que os amigos, desvairados pela fúria da competição, tornam-se, as vezes, piores que inimigos, e os inimigos chegam a parecer melhores que os amigos.

Foram os continuadores daqueles moços de 45 e eles próprios, reagrupados de repente em torno dos jovens de 50, que me julgaram obrigado pelas circunstâncias – perdoem ainda a repetição – a ser de novo seu candidato a deputado federal por Pernambuco, sem compromisso com partido algum, embora o apoio dos políticos à iniciativa dos jovens fosse de inicio o mais entusiástico , e sua promessa de votação no interior a mais formal.

Desta vez, ainda vencidos pelos homens mais ricos. Os jovens mais ingênuos foram superados pelos velhos mais sagazes. Questão de poucos votos, mas o suficiente para a derrota matemática do candidato dos moços românticos e dos pobres de brio. O bastante para a sua morte em batalha eleitoral, às vezes, degradada com competição mercenária. Batalha de papel impresso contra papel impresso. De cédula contra cédula.

São batalhas estas, ou as iguais a estas, que ameaçam tornar-se em algumas áreas do nosso infeliz Brasil pura competição entre ricos ou endieirados, com os pobres apenas a coonestarem com a presença o ato litúrgico da votação livre: tão bonito para o inglês ver, tão doloroso para o nativo sofrer.

Desta Câmara já se disse com alguma malicia e muita injustiça, que será na próxima legislatura uma Câmara de lordes no sentido brasileiro de lordeza, que é riqueza. Outros maliciosos poderão dizer com igual injustiça que será antes uma câmara no sentido pejorativo de “comuns”. Igual injustiça, porque aqui continuarão a zelar pelo Brasil alguns dos brasileiros mais incomuns pela virtude e pelo saber, ao mesmo tempo que honrosamente pobres, e não inexplicavelmente lordes.

Repelindo os dois extremos, de caricatura, sou dos que esperam dos vencedores de 3 de outubro na batalha para a representação nacional nesta e na outra câmara, ação construtivamente brasileira e afirmação de responsabilidade elevadamente democrática. A verdade, porém, é que foram tremendas sobre o eleitorado, na última corrida eleitoral, estas duas pressões: a do dinheiro e a da vulgaridade”.

Está feito, Sr. Presidente, o necrológico do morto eleitoral que deixa esta Casa honrado pelas atenções que aqui recebeu dos seus companheiros de representação, enriquecido pelas amizades que aqui formou entre brasileiros de várias regi]oes do Brasil, ilustrado pelas lições que aqui aprendeu. E que vai concluir, exclamando: “Ave, Câmara!” Mas “Ave, Câmara” anticésar, antidespotismo, antitirania seja de quem for, inclusive a pior de todas, que é a dos plutocratas. O cesarismo econômico. O cesarismo financeiro. O cesarismo do dinheiro.

Ave, Câmara anticésar; os que morreram nas eleições de 3 de outubro te saúdam!

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