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Discurso de Marechal Lott (1894-1984)

Em continuação da divulgação de “Discursos Históricos Brasileiros” de Carlos Figueiredo, com autorização da Editora Leitura, vamos reproduzir o discurso do Marechal Lott, da P. 320.

“Henrique Duffles Teixeira Lott, militar e político mineiro, participou, em 1944, da organização da Força Expedicionária Brasileira (FEB) que lutou contra o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial. General, tornou-se Ministro da Guerra do governo Café Filho: ali,liderou o contra-golpe contra a tentativa do presidente em exercício em 11 de novembro de 1955, Carlos Luz, de impedir a posse do recém-eleito Presidente da Republica Juscelino Kubitschek (p. 316).

Projetado assim para a política apoiado por setores do PSD, Partido Democrático Brasileiro, ligados a JK e ao v ice João Goulart (p.341), Lott foi o candidato dessa coligação a Presidente em 1961, sendo derrotado por Jânio Quadros e retirando-se da política.

O discurso é o relato factual de contra-golpe vitorioso liderado por ele, que impediu a tomado do poder por setores militares, com a participação, entre outros, de Jânio (p.319), e Carlos Lacerda (p323). Nove anos depois, em 1964, o resultado foi diferente e os militares tomaram o poder, onde permaneceram por mais de 20 anos (ver João Goulart p. 341).

“A certa altura, o General Fiuza de Castro me chamou ao telefone. Perguntava-me se era verdade que havia movimento de tropas na cidade, pois fora informado disso. Respondi-lhe que sim, havia. Quis saber porque. Nesse passo, confesso que fui obrigado senão a uma mentira, pelo menos a uma restrição mental. Evidentemente, não poderia inteirá-lo do que passava. Disse-lhe então que eu ainda era o ministro da Guerra e, como tal, responsável pela ordem pública.

Estava tomando providências que as circunstancias impunham, para garantia da segurança geral, não se incomodasse. O General Fiuza, parece, acreditou na informação. E continuamos a receber informações de todo o país. As primeiras respostas eram , como prevíamos, satisfatórias. O Gen. Denys incumbia-se de fazer a movimentação das tropas de Minas de maneira a fazê-las cerrar sobre o Distrito Federal. Recebemos de Minas a informação de que quatro batalhões da Força Pública estavam à nossa disposição.

-Mandamos integrá-las sob o comando da Região Militar em Belo Horizonte. Por outro lado, acionávamos as tropas em torno de São Paulo. Foi nessa altura que recebi a informação de que o presidente Carlos Luz desejava falar-me, pessoalmente, ao telefone.

Respondi, por intermédio de meu ajudante-de-ordens, que estava muito ocupado naquele momento e não poderia atendê-lo. Algum tempo depois, soube que o dr. Carlos Luz , o deputado Carlos Lacerda, o almirante Pena Botto e outras figuras ligadas ao Governo tinham seguido a bordo do cruzador Tamandaré”, ou do “Barroso”, não se sabia bem.

Mais tarde, chegou ao meu conhecimento que o brigadeiros Eduardo Gomes voara para São Paulo e lá pretendia organizar a resistência do Movimento . O brigadeiro, como outros, contava com a cooperação da 2º Divisão de Infantaria, comandada pelo general Tasso Tinoco, amigo e primo de Eduardo Gomes. Esperavam também ter o apoio da Força Pública do Estado de São Paulo Diante dessa informação, a tropa de Minas, que já vinha deslocando no sentido de Três Rios e de Petrópolis, recebeu ordens para tomar o rumo de São Paulo. Foram deslocadas no mesmo sentido as tropas do Paraná e Mato Grosso.

Mais três divisões convergiam para São Paulo, além das tropas ali sediadas,e que nós sabíamos que se mantinham fies a nós. Não falei ao Governador Jânio Quadros. Mas entendi-me, por interposta pessoa com o cardeal Motta, pedindo-lhe que comunicasse ao governador que já detínhamos o controle militar da situação e que qualquer resistência viria derramar inutilmente o sangue dos brasileiros.

Apelava para o cardeal a fim de que fosse ao governador Jânio Quadros para com ele entender-se nesse sentido. O general Falconiere seguira para São Paulo e lá assumiu o comando, com o intuito de marchar sobre a base aérea de Cumbica, onde se concentrava a resistência do brigadeiro Eduardo Gomes. Quanto ao general Tinoco, tudo fugiu-lhe das mãos.

Por sua vez a Força Pública do Estado de São Paulo não era provável que se dispusesse, sozinha, a enfrentar a resistência suicida. Sabíamos que o dr. Carlos Luz pretendia desembarcar em Santos e instalar a sede de seu governo em São Paulo. Por isso deslocamos para Santos algumas forças, para impedir o desembarque, que se tornou impossível por falta de cobertura em terra, pois as tropas ali sediadas deram todas a sua adesão ao nosso Movimento.

Comuniquei-me com os presidentes do Senado, da Câmara dos Deputados e do Supremo Tribunal, pondo-os a par do que ocorria. Ao mesmo tempo enviei um emissário ao cardeal Jaime Câmara, para que também Sua Eminência ficasse ao corrente dos fatos. Dentro em pouco chegavam ao Ministério da Guerra os presidentes das Casas Legislativas. Fiz-lhes uma exposição franca. Estávamos com a situação consolidada, já não havia dúvida.

Pedi-lhes, então, que promovessem a substituição legal, estritamente de acordo com a Constituição, do presidente Carlos Luz, pois não queríamos assumir o controle do Poder Civil. Não era o nosso objetivo, e era preciso respeitá-lo, fazendo retornar o País, dentro do mínimo prazo possível, ao leito da normalidade constitucional e democrático.

De meu entendimento com as autoridades civis, surgiu, então, a solução de promover, por meio do Congresso, o impedimento do dr. Luz para continuar à testa do Executivo e indicar, como seu substituto legal, o senador Nereu Ramos, o que foi feito de manhã e horas seguintes do dia 11.

Estava plenamente vitorioso o Movimento de Retorno aos Quadros Constitucionais Vigentes. A legalidade tinha sido resguardada, com o sacrifício de algumas horas dramáticas, de profunda expectativa. Felizmente, pudemos tudo concluir sem que houvesse derramamento de sangue. Foi uma vitória do nosso espírito democrático.

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