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Discurso de Gonçalves Dias (1823-1854)

Continuando com o plano de divulgar alguns “”Discursos Históricos Brasileiros” publicados pelo historiador Carlos Figueiredo pela Editora Leitura, com a devida autorização, temos:

Antônio Gonçalves Dias, poeta maranhense, romântico e patriota, historiador e indigenista, é um dos primeiros a exaltar a natureza brasileira. Como diz o poeta Soares Feitosa, em seu Jornal da Poesia, “filho de pai português e mãe provavelmente cafuza, orgulhava-se de ter no sangue as três raças formadoras do povo brasileiro. Estudou direito em Coimbra, tendo voltado ao Brasil em 1845. Em 1862, seriamente adoentado, vai se tratar na Europa. Já em estado deplorável, em 1864 embarca no navio Ville de Boulogne para retornar ao Brasil. O navio naufraga na costa maranhense no dia 3 de novembro de 1864. Salvam-se todos a bordo, menos o poeta que, já moribundo, é esquecido em seu leito”

Nomeado pelo governo imperial, encarregado de investigar o estado da documentação histórica existente nas bibliotecas e arquivos do Maranhão, Pará e outras províncias do nordeste, encontra uma situação deplorável. As grandes bibliotecas e arquivos dos jesuítas haviam sido confiscadas e se dispersaram, sem que nada ficasse no Maranhão, Pará ou outras capitanias do Brasil.

O texto é o prefácio que fez à segunda edição da obra Anais Históricos do Estado do Maranhão, do Governador da Província do Maranhão (1718-1722) e historiador, Bernardo Pereira Berredo.

Dos portugueses vinham para o Brasil só os que não tinham suficiente coragem para se lançarem sobre a Ásia e África, cujos campos, cujas cidades, cujos impérios tantas vezes repetiram com terror o nome português. Foi esta a razão por que os reis de Portugal tiveram sempre os olhos cravados naquelas partes do Oriente onde a sua glória se pleiteava, deixando por tanto tempo o Brasil à mercê dos seus deportados e dos seus aventureiros.

Para Ásia e África, mandava Portugal a flor da sua nobreza; para o Brasil vinha o rebotalho da sua população: Havia exceções: mas estes vinham por engano, como veio Pedro Álvares Cabral. Os de lá adquiriam glória,- os daqui lucraram fortuna: aqueles eram heróis, estes comerciantes. De volta à metrópole, trocavam-se as partes; os primeiros que só podiam mostrar as cicatrizes, morriam nos hospitais, – os segundos que só tinham fortuna, construíam palácios.

– Como, pois, não haviam de buscar o Oriente as almas grandes de Portugal, que houve sempre e muitas; e como não haviam as almas interesseiras de afluir para onde se descobriam minas de ouro e diamantes ?

Eis PR que as primeiras paginas da história do Brasil estão alastradas de sangue, mas de sangue inocente vilmente derramado. O único motivo de quase todos os fatos que aqui se praticaram durante três grandes séculos foi a cobiça,- cobiça infrene, insaciável, que não bastavam fartar os frutos de uma terra virgem, a produção abundantíssima do mais fértil clima do Universo, e as mais abundantes minas de metais e pedras preciosas.

Se vos perguntam por que tantos riscos se correram, por que se afrontaram tantos perigos, por que se subiram tantos montes, por que se exploraram tantos rios, por que se descobriram tantas terras, por que se avassalaram tantas tribos: dizei-o – e não mentireis: – foi por cobiça!

Era por cobiça que os governadores vinham a estas terras tão remotas, onde nenhuma glória os esperava; era por cobiça que os próprios missionários deixavam a frisa e a orla roupetas nestas florestas sem caminho, porque tantas privações passaram, porque sofreram tantos martírios. Um deles escrevia a D. Afonso VI, encarecendo as obras da Companhia: – “Assim que, Senhor, vamos tomando conta destas terras pro Deus e para Deus”.

O primeiro tópico de que havemos de tratar na historia do Brasil é dos índios. – Eles pertencem tanto a esta terra como os seus rios, como seus montes e como as suas árvores; e porventura não foi sem motivo que Deus os constituiu tão distintos em índole e feições de todos os outros povos, como é distinto este clima de todo e qualquer outro clima do Universo.

Não digamos, como diz Berredo, que era um povo bruto e feroz; num o apreciemos pelo que hoje conhecemos. Não degeneraram ao contacto da civilização, porque esta não pode invilescer, mas embruteceram à força de servir, perderam a dignidade e caráter próprio e o heroísmo selvagem que tantos prodígios cometeu e prefez. – Vede o que fizeram e dizei se não há grandeza e magnanimidade nessa luta que sustentam há mais de três séculos, opondo a flecha à bala, e o tacape sem gume à espada de aço, refinado.

Eles foram o instrumento de quanto aqui si praticou de útil e de grandioso, – são o principio de todas as nossas coisas; são os que deram a base para o nosso caráter nacional, ainda mal desenvolvido, e será a coroa da nossa prosperidade o dia da sua inteira reabilitação. O índio primitivo naquelas festas de sangue, que eram o envelo das suas tabas (aldeias), quando do prisioneiros entoavam com voz segura o seu canto de morte, e caíam impávidos e ameaçadores sob os golpe da iverapema, – eram verdadeiros heróis.”

“Quando no meio das matas procuravam debalde alimento para matar a fome, quando depois das fadigas talvez de três dias consecutivos desesperavam do sucesso da sua empresa, deitavam-se tranquilos à sombra de alguma árvore, esperando resignados que Tupã lhes mandasse ali o de que careciam.

Quando prisioneiros, manietados, arrebanhados, são conduzidos para as cidades, quando os querem fazer mudar de vida, — quando lhes não dão os alimentos a que estão acostumados, quando lhes não permitem os exercícios a que estão afeitos,—quando lhes prendem os membros nesses nossos prosaicos vestidos tão mesquinhamente talhados — quando os encerram entre as paredes de uma casa — a eles cuja vida e desejos cifram-se todos no gozo de uma liberdade incircunscrita, — tornam-se indiferentes aos carinhos e às ameaças, aos mimos e aos maus tratos, resignam-se e morrem.

Improvidência, resignação, heroicidade: eis o índio.

E ao nosso homem do povo que lhe importa a vida? Se estende o braço, encontra frutos com que matar a fome; se dá um passo, encontra um regato onde apague a sede, para que pois curare do dia de amanhã? As fontes não seca nunca, e os frutos são de todo o ano. São por isso improvidentes.

Se olhando para cima vêem que os que lhe são inferiores sofrem, não murmuram de uns, nem defendem aos outros, e todavia conhecem o que é bem e o que é mal. Mas que lhe importa isso? Se a sua vida é miserável , se a sua condição é triste, se os vexam , se os perseguem, se os maltratam, mesmo se os desprezam — sofrem e procuram esquecer-se portanto resignam-se.

Se porém a esses homens tão descuidados, tão resignados, tão improvidentes, podeis dar um motivo, um incentivo qualquer, — se nessas almas que tão facilmente se afiam, se inflamam, se eletrizam, transbordando os mais generosos sentimentos, podeis derramar uma faísca de entusiasmo, vereis o que são, o que fazem, e de que são capazes: serão corajosos e infatigáveis, pertinazes no seu propósito, atilados na sua execução — quase sempre, poetas; heróis, algumas vezes.

Tudo isso é índio, tudo isto é nosso, e tudo isto está como perdido para muitos anos.

Sim, a escravidão dos índios foi um grande erro, e a sua destruição foi e será uma grande calamidade. Convinha, pois, que alguém nos revelasse até que ponto este erro foi injusto e monstruoso, até onde chegarão no futuro: eis a história.

Convinha também que nos descrevesse os seus costumes, que nos instruísse nos seus usos, e na sua religião, que nos reconstruísse esse mudo perdido, que nos iniciasse nos mistérios do passado como caminho do futuro, para que saibamos donde viemos e para onde vamos; convinha enfim que o poeta se lembrasse de tudo, porque tudo isto é poesia, e a poesia é a vida do povo como a política é o seu organismo.

Que imenso trabalho não seria este! Mas também quantas lições para a política, quantas verdades para a história, quantas belezas para a poesia!”

 

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