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Discurso de Frei Vicente do Salvador (1.554 – 1.635)

Padre franciscano, brasileiro, nascido na Bahia. Formado em Direito pela Universidade de Coimbra, escreveu uma das primeiras Historias do Brasil, a primeira com esse título.

No discurso, o frei verbera contra a troca do nome de Santa Cruz para Brasil, atribuindo a uma causa, no mínimo inusitada, as mazelas que vitimam nosso país ao longo de sua historia.

“No dia em que o Capitão–mor Pedro Álvares Cabral levantou a cruz, era e de maio, quando se celebra a invenção da santa cruz em que Cristo Nosso Redentor morreu por nós, e por esta causa pôs nome à terra que havia descoberto de Santa Cruz e por este nome foi conhecida muitos anos.

Porém, como o demônio com o sinal da cruz perdeu todo domínio que tinha sobre os homens, receando perder também o muito que tinha sobre as coisas desta terra, trabalhou que se esquecesse o primeiro nome e lhe ficasse o de Brasil, por causa de um pau assim chamado de cor abrasada e vermelha com que tingem panos, do qual há muito, nesta terra, como que importava mais um nome de um pau com que tingem panos que o daquele divino pau, que deu tinta e virtude a todos os sacramentos da Igreja, e sobre ela foi edificada e ficou firme e bem fundada como sabemos.

E por ventura por isto, ainda que ao nome de Brasil ajuntaram o de estado e lhe chamam estado do Brasil, ficou ele tão pouco estável que, com não haver hoje cem anos, quando isto escrevo, que se começou a povoar, já se hão despovoados alguns lugares e, sendo a terra tão grande e fértil como ao diante veremos, nem por isso vai aumentado, antes em diminuição.

Disto dão alguns a culpa aos reis de Portugal, outros aos povoadores: aos reis pelo pouco caso que hão feito deste tão grande estado, que nem o titulo quiseram dele, pois, intitulando senhores de Guiné, por uma caravelinha que lá vai e vem, como disse o rei do Congo, do Brasil não se quiseram intitular; nem depois da morte de el-rei D. João Terceiro, que o mandou povoar e soube estimá-lo, houve outro que dele curasse, senão para colher as suas rendas e direitos.

E deste mesmo modo se hão os povoadores, os quais, por mais arraigados que na terra estejam e mais ricos que sejam, tudo pretendem levar a Portugal e, se as fazendas e bens que possuem souberem falar, também lhe houveram de ensinar a dizer como aos papagaios, aos quais, a primeira coisa que ensinam é: papagaio real para Portugal, porque tudo querem para lá. E isto não têm só os que de lá vieram, mas ainda os que cá nasceram, que uns e outros usam da terra, não como senhores, mas como usufrutuários, só para a desfrutarem e a deixarem destruída.

Donde nasce também que nem um homem nesta terra é repúblico, nem zela ou trata do bem comum, senão cada um do bem particular. Não notei eu isto tanto o vi notar a um bispo de Tucuman da ordem de São Domingos, que por algumas destas terras passou para a corte. Era grande canonista, homem de bom entendimento e prudência e assim ia muito rico. Notava as coisas e via que mandava comprar um frangão, quatro ovos e um peixe para comer e nada traziam, porque não se achava na praça nem o açougue e, se mandava pedir as ditas coisas e outras muitas às casa particulares, lhes mandavam. Então disse o bispo: verdadeiramente que nesta terra andam as coisas trocadas, porque toda ela não é república, sendo-o cada casa.

E assim é que, estando as casas dos ricos (ainda que seja à custa alheia, pois muitos devem quanto têm) providas de todo o necessário, porque em escravos, pescadores e caçadores que lhes trazem a carne e o peixe, pipas de vinho e de azeite que compram por junto, nas vilas, muitas vezes, se não acha isto de venda. Pois o que é fontes, pontes, caminhos e outras coisas públicas, porque, atendo-se uns aos outros, nenhum as faz, ainda que bebam suja e se molhem ao passar dos rios ou se orvalhem pelos caminhos, e tudo isto vem de não tratarem do que há aqui de ficar, senão do que hão de levar para o reino.

Estas são as razões por que alguns com muita dizem que não permanece o Brasil nem vai em crescimento; e a estas se pode ajuntar a que atrás tocamos de lhe haverem chamado estado do Brasil, tirando-lhe o de Santa Cruz, com que pudera ser estado e ter estabilidade e firmeza.”

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