Alto Jequitibá construiu o primeiro coletor solar da região em 1978
Por Adelino Sathler Filho
Em 1978, gozando de férias em Alto Jequitibá, minha querida cidade natal, tive o privilégio de conversar, por longo tempo, com o agrônomo Dr. Ruy Gripp, homem culto e de visão, querido amigo.
Nesta conversa, o Dr. Ruy me relatou uma observação que fez em relação à temperatura da água preferencial do gado da região. Disse-me que os animais preferiam uma água mais morninha para beber. Ele chegou a essa conclusão ao verificar que, ao passarem por riachos com água fria, os animais não bebiam, mas ao se depararem com uma poça d’água nas estradas, paravam e bebiam fartamente.
O desafio do aquecimento da água
Continuando a conversa, ele manifestou a inviabilidade de se colocar uma água mais quente nos currais, pois seria necessário instalar um sistema de aquecimento, e o custo da energia elétrica para tal sistema não seria favorável.
Como eu havia acabado de participar, no Rio de Janeiro, de um simpósio sobre Energia Solar, um tema pouco conhecido no Brasil naquela época, ofereci-me para construirmos, em parceria, um coletor solar que pudesse viabilizar a proposta. Ele aceitou prontamente a ideia e sugeriu que fizéssemos o projeto na chácara de seu pai, Sr. Eduardo Gripp.
Em duas semanas, compramos os materiais e, com a ajuda de um colaborador cedido pelo amigo, construímos o coletor solar. No entanto, ao ligarmos a água que passaria pelo coletor, veio a decepção: a água entrava fria e continuava saindo fria, com apenas um grau de diferença. Vistoriei algumas vezes o projeto, mas não conseguia identificar o erro.
A solução encontrada por um amigo
Certo dia, o Dr. Ruy sugeriu levar o coletor para a casa do Sr. Rubens Gripp, na cidade, onde ele poderia nos ajudar. No início, pensei que ele iria abandonar o projeto, mas sabia que o Sr. Rubens era um homem muito inteligente e poderia nos auxiliar.
Numa manhã fria e nublada, o Sr. Rubens me ligou pedindo que fosse até sua casa. Ao chegar, ele olhou para a caixa d’água e me perguntou se eu pretendia fazer uma serpentina. Respondi que sim, era exatamente o que precisávamos. Então, ele disse: “O que está aqui nesta caixa não é uma serpentina, mas se quiser, posso desmontar a tubulação e refazer tudo”. Confesso que fiquei emocionado com sua atitude. Aceitei sua ajuda, agradeci e pedi que me ligasse quando estivesse pronto.
O sucesso do primeiro coletor solar
Alguns dias depois, Sr. Rubens me chamou para ligarmos o sistema. Ele explicou o que havia feito e como funcionava a serpentina. Ligamos a água e, mesmo com o dia nublado, acreditei que, se o projeto estivesse correto, a água esquentaria.
Ao abrirmos o registro, a água começou a circular pelo coletor e, ao sair, foi um momento de grande euforia. A água, que entrava com 18°C, saiu com 72°C. Quase não conseguíamos colocar as mãos de tão quente!
O projeto ficou por muito tempo no quintal do Sr. Rubens, e várias turmas de estudantes foram levadas pelos professores para conhecerem o poder da energia solar. Muitos moradores da cidade e até de fora também foram conhecer o coletor solar. O Sr. Rubens e o Dr. Ruy, sempre humildes, diziam que o projeto era meu, demonstrando caráter e ética.
Este projeto só foi possível graças a esses visionários e brilhantes homens de Alto Jequitibá. Sou muito grato pela oportunidade que o Dr. Ruy me deu de aprender grandes lições com este projeto, tanto técnicas quanto humanas, que marcaram minha vida.
Uma rápida consulta que fiz naquela época mostrou que não havia outro coletor solar na região, tornando esse o primeiro coletor solar de Alto Jequitibá.
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