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Ferrovia Transcontinental: EF 354 (do Atlântico ao Pacífico) – I.

Ilustração de uma pequena estação ferroviária e trilhos em curva entre montanhas e vegetação.
Ilustração gerada por inteligência artificial; não representa trecho identificado nem comprova a construção da EF-354.

Artigo histórico de Ruy Gripp, assinado em 22/08/2009. Nesta primeira parte, o autor apresenta e transcreve trechos da reportagem de Ricardo Beghini publicada no jornal Estado de Minas em 25/05/2009. As previsões, os valores e as informações reproduzem o contexto daquele período. O texto original, os créditos e a assinatura foram preservados, com revisão de digitação e espaçamento.

Engº Agrº Ruy Gripp

O jornal “Estado de Minas”, de 25-05-2009 trouxe ampla notícia sobre o projeto da ferrovia ligando um porto no norte do Estado do Rio de Janeiro (Oceano Atlântico) passando por Minas Gerais, Brasília, Goiás, Mato Grosso até o Estado do Acre para depois atingir um porto no Perú, já no oceano Pacífico. Reportagem de Ricardo Beghini que reproduzimos parte a seguir:

“Caminho Aberto para o Pacífico”

O sonho brasileiro de ligar os oceanos Atlântico e Pacífico por ferrovia passando por Minas Gerais vai se tornar realidade. O estado, de história fortemente vinculada à locomotivas e vagões, receberá o segundo maior trecho dos 4,4 mil quilômetros de trilhos a serem assentados da Estrada de Ferro 354 (EF 354) que se conectará ao sistema ferroviário do Perú (veja mapa). Embora ainda no papel, o projeto, batizado de Ferrovia Transcontinental, com custo estimado em R$ 10 bilhões, revigora a esperança de maior desenvolvimento de regiões e municípios que cresceram em torno de estações de trens ou que viveram o auge político, econômico e social nas idas e vindas das composições.

O corredor mineiro da ferrovia, que será a maior do país, contempla, inicialmente, as cidades de Muriaé (Zona da Mata), Ipatinga (Vale do Aço) e Paracatu (Região Noroeste). Na Zona da Mata, a EF-354 cortará linhas e ramais da primeira ferrovia de Minas, a Estrada de Ferro Leopoldina, que começou a ser construída no fim do Império, em 1872. No fim do século 19, o controle acionário foi transferido para credores britânicos, que a rebatizaram de The Leopoldina Railway Company. A malha voltou para o controle do governo brasileiro somente em 1950, com o declínio da lavoura cafeeira a Zona da Mata.

Sebastião Praxedes, de 70 anos, espera que assim como a saudosa Leopoldina, a Transcontinental tenha vários ramais e que pelo menos um deles chegue a Eugenópolis, a 25 quilômetros de Muriaé. “Naquele tempo, a cidade era mais rica”, conta o ferroviário aposentado, que trabalhou durante 32 anos, inclusive na fase final, na manutenção e desmontagem de segmentos da Leopoldina, desativada em 1965. Em seu ápice, a antiga estrada de ferro teve mais de 3,2 mil quilômetros de trilhos.

Ex-prefeito, advogado e autor do livro “O vale do gavião”, que desvenda o passado de Eugenópolis, Antônio Soares Ramos, o Niquito, confirma a importância da ferrovia para o progresso da cidade. “O município produzia tanto café que foram erguidas três estações: São Miguel, Coelho Bastos e Antônio Prado”. Esta última acabou dando origem ao município de Antônio Prado de Minas.

Intercâmbio – O município de Recreio, a 40 quilômetros do corredor previsto para a Transcontinental, na Zona da Mata, tem o passado e o presente ligados às ferrovias. O povoado que originou a cidade surgiu ao redor de uma estação durante a abertura da linha principal da Leopoldina. O entroncamento ferroviário de Recreio, que faz ligações com outras cidades da região, Espírito Santo e Rio, é um dos poucos que sobraram da histórica ferrovia. Hoje, os trilhos são explorados pela Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), empresa que surgiu depois da desestatização da RFFSA. Recreio sedia uma das oficinas da companhia, que transporta bauxita de Itamarati de Minas, embarca em Cataguases, para o interior de São Paulo. Já a estação foi transformada em museu ferroviário.

Chefe do escritório da Leopoldina, Aristides Dorigo, de 89 anos, um dos 200 ferroviários aposentados da cidade, ficou animado com o projeto da nova estrada de ferro. “Vai atender os reclames do povo, que quer a volta daquela movimentação que havia na região”, enfatizou, lembrando que, em Recreio, o tráfego chegava a 43 trens por dia, que transportavam pessoas e mercadorias. “O intercâmbio com colegas de fora era grande”.

“Corredor de Grãos e Petróleo – Para ligar os portos brasileiros do Atlântico aos portos peruanos do Pacífico, a Transcontinental terá ponto de partida no Norte do estado do Rio de Janeiro, em cidade ainda não definida. O corredor ferroviário seguirá por Muriaé, Ipatinga e Paracatu, em Minas. Brasília (DF), Uruaçu (GO), Cocalinho (MT), Ribeirão Cascalheira (MT) e chegando ao Nortão (MT), com ramal em Lucas do Rio Verde (MT). De lá, seguirá rumo a Vilhena e Porto Velho (RO); Rio Branco, Cruzeiro do Sul e Boqueirão da Esperança (AC), divisa com o Peru. A previsão é de que a viagem completa, de uma ponta a outra, dure uma semana.

Nota – Transcrito do Estado de Minas, de 25-05-2009. Pretendemos continuar com o assunto da EF-354, pois tem muita ligação com esta nossa região do Leste mineiro. Quem sabe poderá passar pelo roteiro Ipatinga, Caratinga, Manhuaçu, Carangola até Muriaé?

Ruy Gripp – 22-08-2009.

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